Clavis Libri

Símbolo

A tróica

O que é

A carruagem puxada por três cavalos, que no romance faz duas coisas ao mesmo tempo: leva os personagens a Mókroie, na noite do crime, e depois, no tribunal, vira imagem da Rússia. De um lado, é objeto: a tróica de Timofei que busca Grúchenka, a de Andriéi em que Dmitri Fiódorovitch Karamázov cruza a noite, as que o levam preso na manhã seguinte. De outro, é a figura que Gógol deixou no fim de Almas Mortas, a tróica nacional que corre para um fim desconhecido, e que o promotor e o advogado retomam com sentidos contrários. O símbolo liga o que o livro conta em ato, a corrida de um homem, ao que o tribunal diz dele, a corrida de um povo.

Onde aparece

No capítulo III do Livro VII, Fénia entra gritando que chegou o correio e que a carruagem de Mókroie espera com Timofei e a tróica, e Grúchenka parte para o encontro com o primeiro amor.

No capítulo V do Livro VIII, Mítia, decidido a ir a Mókroie, encontra o cocheiro Andriéi, manda que o espere à porta da venda de víveres e encomenda uma segunda tróica, de carga, com provisões e vinhos para a festa.

No capítulo VI do Livro VIII, a tróica faz as vinte e poucas verstas em pouco mais de uma hora, e a corrida refresca Mítia. No caminho, ele diz a Andriéi uma regra de trânsito que é uma regra de vida.

Нельзя давить человека, нельзя людям жизнь портить; а коли испортил жизнь — наказуй себя… если только испортил, если только загубил кому жизнь — казни себя и уйди., Não se pode esmagar uma pessoa, não se pode estragar a vida dos outros; e se estragou uma vida, castigue-se… se de fato estragou, se de fato arruinou a vida de alguém, execute-se e vá embora.
Livro VIII: Mítia

Pergunta ao cocheiro se Dmitri Karamázov irá para o inferno, e Andriéi responde com uma lenda popular.

Не стони, аде, ибо приидут к тебе отселева всякие вельможи, управители, главные судьи и богачи, и будешь восполнен так же точно, как был во веки веков, до того времени, пока снова приду, Não gemas, inferno, pois virão a ti daqui todos os grandes senhores, administradores, juízes supremos e ricos, e serás enchido outra vez como foste para sempre, até o tempo em que eu venha de novo.
Livro VIII: Mítia

Mítia, enlouquecido, reza em voz baixa.

Господи, прими меня во всем моем беззаконии, но не суди меня. Пропусти мимо без суда твоего… Не суди, потому что я сам осудил себя; не суди, потому что люблю тебя, господи!, Senhor, recebe-me com toda a minha iniquidade, mas não me julgues. Deixa-me passar sem o teu juízo… Não me julgues, porque eu mesmo me condenei; não me julgues, porque te amo, Senhor!
Livro VIII: Mítia

No capítulo IX do Livro IX, de manhã, no patamar da hospedaria a que chegara com estrondo na véspera, duas telegas esperam para levá-lo: o comissário quer uma segunda tróica para dois guardas, e Mítia pergunta por que, se podem ir em uma só.

No capítulo VI do Livro XII, Hippolit Kiríllovitch cita Gógol e corrige: se na tróica forem atrelados Sobakévitch, Nozdriov e Tchítchikov, com qualquer cocheiro não se chega a lugar nenhum. Ao fechar a acusação, no capítulo IX do Livro XII, avisa que a tróica fatal corre talvez para a perdição, que os outros povos se afastam dela por horror e não por respeito, e que um veredicto que absolva um filho parricida lhes dará razão para detê-la. Antes disso diz a frase que a sala repetirá no corredor.

Нет, господа присяжные, у тех Гамлеты, а у нас еще пока Карамазовы!, não, senhores jurados, os outros têm Hamlets, e nós por ora ainda temos Karamázovs!
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo XIII do Livro XII, Fietiukóvitch devolve a imagem ajustada.

Не бешеная тройка, а величавая русская колесница торжественно и спокойно прибудет к цели., não a troika desembestada, mas a majestosa carruagem russa, solene e tranquila, chegará ao seu fim.
Livro XII: Um erro judiciário

O que significa

Na estrada de Mókroie a tróica é uma pessoa em movimento: Mítia corre para ver a mulher que ama, ou para se matar, sem saber qual das duas coisas, e o cocheiro, que o tem por uma criança, diz que o inferno é de outros. No tribunal, a mesma palavra carrega um país, e quem a empunha quer um veredicto: o promotor teme o que ela arrasta, o advogado a quer solene, e ambos falam da Rússia para convencer doze homens que a representam, segundo eles. O livro mostra o carro antes de mostrar a metáfora, e o leitor chega ao discurso sabendo o que a tróica leva de fato.

Duas leituras. Numa, a tróica de Mítia desmente os oradores: o que correu aquela noite não era uma nação rumo ao abismo nem um carro majestoso, era um homem de dívida e de ciúme que pedia a Deus cinco horas para amar, e a imagem nacional só cabe a ele se se esquecer de Andriéi, de Fénia, de Grúchenka. Na outra, a metáfora é a verdadeira, e o romance a prepara de propósito: o que o promotor chama de largura dos Karamázov, que contempla os dois abismos, é a velocidade e a falta de freio que a corrida mostrara, e o veredicto de culpado, que o carro majestoso da defesa não evita, não diz qual das duas imagens estava certa. O texto deixa as duas, e a corrida de Mókroie, narrada sem fanfarra, serve de prova para qualquer das duas.

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