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Símbolo

A terra regada de lágrimas

O que é

O chão como lugar de reza e de perdão: o gesto de cair por terra, beijá-la e regá-la com lágrimas, com a promessa de que ela dará fruto. Stáriets Zossima o ensina no Livro VI como regra para quem ficou sozinho, o cumpre ao morrer, e Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov o repete, sem saber que o repete, na noite seguinte à morte do mestre. É um símbolo de corpo, e não de ideia: ninguém o explica, todos o fazem. Em volta dele o romance põe outras relações com a terra, a de Ivan Fiódorovitch Karamázov, que quer beijar as pedras de um cemitério europeu, e a de Dmitri Fiódorovitch Karamázov, que numa noite quis deixar de pesar sobre ela.

Onde aparece

No capítulo XI do Livro III, esperando Aliócha à beira da estrada, Mítia conta que pensou em acabar com tudo no salgueiro, e ouviu os passos dele.

да чего же больше маяться, чего ждать? Вот ракита, платок есть, рубашка есть, веревку сейчас можно свить, помочи в придачу и — не бременить уж более землю, не бесчестить низким своим присутствием!, para que sofrer mais, para que esperar? Eis o salgueiro, tenho lenço, tenho camisa, posso agora mesmo trançar uma corda, e os suspensórios de quebra, e pronto: não pesar mais sobre a terra, não a desonrar com a minha presença baixa!
Livro III: Os sensuais

No capítulo III do Livro V, no botequim, Ivan diz a Aliócha que quer ir à Europa, a um cemitério, o mais caro de todos, para cair por terra, beijar as pedras dos mortos e chorar sobre elas, convencido de que tudo aquilo está morto. O que o sustenta, diz, é uma afeição sem lógica pelo que brota.

дороги мне клейкие, распускающиеся весной листочки, дорого голубое небо, дорог иной человек, которого иной раз, поверишь ли, не знаешь за что и любишь, caras me são as folhinhas pegajosas que se abrem na primavera, caro o céu azul, caro certo homem a quem às vezes, acredite, a gente ama sem saber por quê.
Livro V: Pró e contra

No capítulo II do Livro VI, o irmão Márkel, moribundo, pede perdão aos passarinhos e ao jardim e diz que só ele vivia na vergonha.

была такая божия слава кругом меня: птички, деревья, луга, небеса, один я жил в позоре, один всё обесчестил, а красы и славы не приметил вовсе, havia uma tal glória de Deus à minha volta: passarinhos, árvores, prados, céus, e só eu vivia na vergonha, só eu desonrei tudo, sem notar a beleza e a glória.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo III do Livro VI, entre as regras de constância, Zossima diz o que fazer quando todos abandonam e expulsam.

Если же все оставят тебя и уже изгонят тебя силой, то, оставшись один, пади на землю и целуй ее, омочи ее слезами твоими, и даст плод от слез твоих земля, хотя бы и не видал и не слыхал тебя никто в уединении твоем., se todos o abandonarem e até o expulsarem à força, fique só, caia por terra e beije-a, regue-a com as suas lágrimas, e a terra dará fruto das suas lágrimas, ainda que ninguém o tenha visto nem ouvido na sua solidão.
Livro VI: Um monge russo

Mais adiante, no mesmo capítulo, ele repete a ordem em tom de êxtase: que se ame deitar-se por terra e beijá-la, que se regue a terra com lágrimas de alegria e se ame essas lágrimas, sem vergonha do arrebatamento, que é dom de poucos. No fim do mesmo capítulo, a morte dele cumpre a regra.

тихо опустился с кресел на пол и стал на колени, затем склонился лицом ниц к земле, распростер свои руки и, как бы в радостном восторге, целуя землю и молясь (как сам учил), тихо и радостно отдал душу богу, desceu devagar da poltrona ao chão e ficou de joelhos, depois inclinou-se com o rosto à terra, estendeu os braços e, como em êxtase de alegria, beijando a terra e rezando (como ele mesmo ensinara), entregou a alma a Deus, em paz e alegria.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo IV do Livro VII, Aliócha sai da cela depois do sonho, com a noite parada e o céu cheio de estrelas, e cai por terra como ceifado.

Простить хотелось ему всех и за всё и просить прощения, о! не себе, а за всех, за всё и за вся, а «за меня и другие просят», Queria perdoar a todos e por tudo, e pedir perdão, ah, não para si, mas por todos, por tudo e por todas as coisas, pois «por mim outros também pedem».
Livro VII: Aliócha

Enquanto ele beija a terra chorando e jura amá-la para sempre, soa-lhe na alma a frase que o mestre ensinara, a de regar a terra com lágrimas de alegria e amar essas lágrimas. O narrador marca então a mudança.

Пал он на землю слабым юношей, а встал твердым на всю жизнь бойцом, Caiu por terra um jovem fraco e se levantou um lutador firme para a vida inteira.
Livro VII: Aliócha

No capítulo VI do Livro VIII, o narrador lembra que a tróica de Mítia correu para Mókroie na mesma noite e talvez na mesma hora em que Aliócha, caído por terra, jurava amá-la.

O que significa

A terra recebe o que nenhum argumento recebe: uma pessoa sozinha, sem prova para mostrar, que ainda assim faz um gesto. Zossima a propõe a quem foi expulso, e promete fruto mesmo que ninguém tenha visto nem ouvido. Para Aliócha ela vem depois de um dia de escândalo e de um sonho, e é nela que a mudança se dá, sem que o texto lhe dê motivo. O que se vê é o corpo, o chão, a noite, as estrelas, e o que se diz depois é que alguém visitou a alma dele naquela hora.

Duas leituras. Numa, a continuidade é completa: Aliócha cumpre sem saber a regra que o mestre deu e a que ele mesmo observou ao morrer, e a terra regada de lágrimas dá o fruto prometido, que é o lutador firme que se levanta e, três dias depois, deixa o mosteiro. Na outra, a circunstância é invertida: Zossima fala a quem está só e expulso, e Aliócha chora numa noite de festa interior, rodeado de sinais, de modo que o gesto é o mesmo e o motivo é o contrário, alegria e não abandono. O romance pede que as duas se leiam junto da terra de Ivan, que também chora no chão, mas sobre o que considera morto, e da de Mítia no capítulo XI do Livro III, que só queria deixar de pesar sobre ela. O romance não diz qual das terras é a verdadeira e as deixa lado a lado.

Relações