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Tema em Os Irmãos Karamázov

Liberdade e opressão

O eixo entre ser livre e estar dominado: prisão, servidão, resistência, autonomia.

O tema na obra

Em Os Irmãos Karamázov a liberdade não é política, é um peso, e o livro põe duas respostas a ele lado a lado. A primeira é a de Ivan Fiódorovitch Karamázov, no poema que conta a Aliócha: o Grande Inquisidor diz a Cristo que nada foi mais insuportável para o homem do que a liberdade, e que a Igreja o aliviou dela com pão, milagre, mistério e autoridade, em troca de uma obediência que o faz feliz. A segunda é a de Stáriets Zossima, que também fala de renúncia, mas a propõe como caminho a uma liberdade interior: o monge abre mão das necessidades, e do próprio querer, para chegar a ser livre de si. A diferença, no texto, está em quem tira a liberdade: o Inquisidor a recolhe dos que a trazem aos pés dele; o stáriets a recebe de quem a entrega. A opressão aparece em outras figuras: a de Fiódor Pávlovitch Karamázov sobre quem depende dele, a de Smierdiakóv, servo que age por palavra do senhor, a humilhação pública do capitão Snieguiriov, arrastado pela barba, que o faz recusar o dinheiro, e a da lei, que no tribunal condena sem a menor indulgência. A liberdade do desejo, que Ivan reserva para si, o livro a mostra voltando contra quem a reserva.

No capítulo V do Livro I, o narrador explica a instituição do stáriets, de obediência total, e define o que Aliócha escolhe.

Старец — это берущий вашу душу, вашу волю в свою душу и в свою волю, O stáriets é aquele que toma a sua alma, a sua vontade, para dentro da sua alma e da sua vontade.
Livro I: História de uma família

No capítulo V do Livro II, na discussão sobre Igreja e Estado, Zossima diz que a única pena que contém o criminoso é a da consciência, e não a de fora.

настоящей кары, единственной действительной, единственной устрашающей и умиротворяющей, заключающейся в сознании собственной совести, de uma pena verdadeira, a única efetiva, a única que amedronta e pacifica, que consiste na consciência da própria consciência moral.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo IX do Livro III, no pátio, Ivan promete a Aliócha que defenderá o pai e Mítia e, na mesma frase, reserva um território.

Но в желаниях моих я оставляю за собою в данном случае полный простор., Mas nos meus desejos eu reservo para mim, neste caso, plena liberdade.
Livro III: Os sensuais

No capítulo V do Livro V, o Inquisidor abre a acusação com a prova que tem à mão.

теперь и именно ныне эти люди уверены более чем когда-нибудь, что свободны вполне, а между тем сами же они принесли нам свободу свою и покорно положили ее к ногам нашим, agora, e justamente agora, esses homens estão mais seguros do que nunca de que são plenamente livres, e no entanto foram eles mesmos que nos trouxeram a sua liberdade e a puseram, dóceis, aos nossos pés.
Livro V: Pró e contra

Reconstitui a primeira pergunta do espírito do deserto, que fundamenta a tese.

ничего и никогда не было для человека и для человеческого общества невыносимее свободы!, nada, em tempo algum, foi para o homem e para a sociedade humana mais insuportável do que a liberdade!
Livro V: Pró e contra

Resume a fórmula do que a Igreja corrigiu.

Есть три силы, единственные три силы на земле, могущие навеки победить и пленить совесть этих слабосильных бунтовщиков, для их счастия, — эти силы: чудо, тайна и авторитет., há três forças, as únicas três forças na terra capazes de vencer e cativar para sempre a consciência desses fracos rebeldes, para a felicidade deles: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade.
Livro V: Pró e contra

E o prisioneiro, que ouviu tudo calado, responde com um gesto.

он вдруг молча приближается к старику и тихо целует его в его бескровные девяностолетние уста. Вот и весь ответ., ele de repente se aproxima em silêncio do velho e beija suavemente os seus lábios exangues de noventa anos. Essa é toda a resposta.
Livro V: Pró e contra

No capítulo III do Livro VI, Zossima responde ao mundo que proclamou a liberdade, sem citar o poema.

Провозгласил мир свободу, в последнее время особенно, и что же видим в этой свободе ихней: одно лишь рабство и самоубийство!, o mundo proclamou a liberdade, nos últimos tempos sobretudo, e o que vemos nessa liberdade deles? Apenas escravidão e suicídio!
Livro VI: Um monge russo

Projeta uma sociedade sem servos.

а, напротив, изо всех сил пожелает стать сам всем слугой по Евангелию., e, ao contrário, com todas as forças desejará ele mesmo tornar-se servo de todos, segundo o Evangelho.
Livro VI: Um monge russo

E propõe uma escolha que se faz uma vez.

Взять ли силой али смиренною любовью?» Всегда решай: «Возьму смиренною любовью». Решишься так раз навсегда и весь мир покорить возможешь. Смирение любовное — страшная сила изо всех сильнейшая, подобной которой и нет ничего., «tomar pela força ou pelo amor humilde?» Decida sempre: «Tomarei pelo amor humilde.» Se decidir assim de uma vez por todas, poderá conquistar o mundo inteiro. O amor humilde é uma força terrível, a mais forte de todas, e nada há que se lhe compare.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo VIII do Livro XI, Smierdiakóv confessa a Ivan o crime e se dá o nome de servo fiel.

Вы убили, вы главный убивец и есть, а я только вашим приспешником был, слугой Личардой верным, и по слову вашему дело это и совершил., o senhor matou, o senhor é o assassino principal, e eu fui só o seu ajudante, o seu servo fiel, o seu Licharda, e por palavra sua fiz o que fiz.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Quem o encarna

O Grande Inquisidor encarna a opressão que se crê amorosa: governa em nome da felicidade dos fracos e carrega a mentira como sacrifício. Cristo, calado, é a liberdade que não se defende por argumento. Zossima é a renúncia escolhida, e Aliócha, que escolhe o stáriets sem hesitar, a vive. Ivan está entre a liberdade que recusa e a que reserva para si. Smierdiakóv é o servo que age por palavra do senhor e depois cobra a conta, e Fiódor é o senhor que oprime quem depende dele.

Onde aparece

  • Livro I, capítulo V: O narrador explica o starietsvo e diz que o stáriets toma a vontade de quem o escolhe.
  • Livro II, capítulo V: Ivan e Zossima discutem a Igreja que absorve o Estado e a pena da consciência.
  • Livro III, capítulo IX: Ivan diz a Aliócha que todos têm o direito de desejar, até a morte alheia, e que nos seus desejos reserva para si plena liberdade.
  • Livro V, capítulo V: O Inquisidor diz que a liberdade é insuportável e que a Igreja a trocou por pão, milagre, mistério e autoridade.
  • Livro VI, capítulo III: Zossima diz que a liberdade do mundo é escravidão e propõe o amor humilde.
  • Livro XI, capítulo VIII: Smierdiakóv diz a Ivan que fez o que fez por palavra dele, como servo fiel.

Onde as leituras divergem

Aliócha defende que o Inquisidor é Roma, e que na ortodoxia a liberdade não é assim. Ivan responde que o velho pode existir hoje em muitos. As duas leituras da liberdade do livro nascem dessa discussão: ou o poema é a caricatura de um catolicismo que o livro condena, ou é a tese mais forte contra a fé que o livro deixa de pé.

A renúncia que Zossima propõe e a que o Inquisidor impõe têm a mesma forma, a de abrir mão da vontade, e se distinguem só por quem a pede. O próprio narrador admite no capítulo V do Livro I que o starietsvo pode virar orgulho satânico, correntes em vez de liberdade, e a definição do stáriets, que toma a vontade de quem o escolhe, é a que o Inquisidor reconheceria. O que muda de um lado para o outro é a origem do gesto: o noviço entrega, a multidão é conduzida. Mas o livro não prova que a diferença é segura: o Inquisidor também diz agir por amor, e o texto o deixa falar sem refutação. O que os separa, no que se vê, é um ato. Zossima manda Aliócha embora do mosteiro, para viver no mundo, e o Inquisidor manda Cristo embora da cidade, para que não volte; um devolve a vontade ao discípulo, o outro a retira de cena. A liberdade do livro, nesse sentido, é a que se pode devolver a quem a deu.