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Personagem

Ivan Fiódorovitch Karamázov

Quem é

Ivan Fiódorovitch Karamázov é o segundo filho de Fiódor Pávlovitch Karamázov e de Sófia Ivánovna, irmão de sangue de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov e meio-irmão de Dmitri Fiódorovitch Karamázov. Cresce sombrio e fechado, nada tímido, com a ideia, desde os dez anos, de que vive em casa alheia e de que o pai é alguém de quem se tem vergonha de falar; estuda em Moscou, sustenta-se com aulas e com notas de jornal e fica conhecido em rodas literárias (capítulo III do Livro I). Volta à cidade do pai com ares de mediador entre ele e Mítia (capítulo III do Livro I), escreveu um artigo sobre os tribunais da Igreja, discutido na cela do stáriets (capítulo V do Livro II) e é o filho do intelecto: onde Mítia responde ao abandono com o corpo e Aliócha com a fé, Ivan responde construindo o argumento mais forte já feito contra o mundo que Deus criou, e paga por ele com a própria razão, numa febre cerebral que o romance deixa aberta (capítulo IV do Livro V, capítulo IX do Livro XI, capítulo I do Epílogo). O traço que o define é a distância entre o que diz e o que quer: promete defender o pai e o irmão e reserva para si o direito de desejar (capítulo IX do Livro III), parte para Moscou sem impedir o que pressente e se chama de canalha ao chegar (capítulo VII do Livro V).

Trajetória

No capítulo III do Livro I, quando chega à cidade, Miússov diz dele que é orgulhoso, que sempre arranja o seu tostão e que tem dinheiro até para ir ao exterior, e pergunta o que ele quer ali:

«Он горд, — говорил он нам тогда про него, — всегда добудет себе копейку, у него и теперь есть деньги на заграницу — чего ж ему здесь надо?, ele é orgulhoso (dizia-nos então a respeito dele), sempre arranja o seu tostão, e agora mesmo tem dinheiro para ir ao exterior: o que ele quer aqui?
Livro I: História de uma família

No capítulo V do Livro II, na cela do stáriets, o artigo sobre os tribunais eclesiásticos mostra a tese de um Ivan que Aliócha esperava soberbo e que se expõe com modéstia: a Igreja não deve ocupar um canto do Estado, deve contê-lo inteiro.

церковь должна заключать сама в себе всё государство, а не занимать в нем лишь некоторый угол, a Igreja deve conter em si todo o Estado, e não ocupar nele apenas um canto.
Livro II: Uma reunião intempestiva

O padre Paíssi, que o apoia e o corrige, resume a diferença entre a tese e a de Roma:

государство обращается в церковь, восходит до церкви и становится церковью на всей земле, o Estado se converte em Igreja, ascende até a Igreja e se torna Igreja sobre toda a terra.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VI do Livro II Miússov conta que Ivan sustentou numa roda de damas que não há lei natural que faça o homem amar a humanidade, e que, destruída a fé na imortalidade, nada será imoral. O stáriets lhe pergunta se mantém a opinião, e diz o que vê nele:

Идея эта еще не решена в вашем сердце и мучает его. Но и мученик любит иногда забавляться своим отчаянием, как бы тоже от отчаяния., Essa ideia ainda não está resolvida no seu coração, e o atormenta. Mas o atormentado também gosta, às vezes, de se divertir com o próprio desespero, como que também por desespero.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro II, Rakítin garante que Ivan espera a colisão entre o pai e Mítia para ficar com a noiva e o dote, e Aliócha responde, com firmeza, a respeito do irmão:

Он мучения, может быть, ищет., Ele procura tormento, talvez.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VIII do Livro III, à mesa do pai bêbado, que lhe pergunta a sério se há Deus, responde sem ironia:

Нет, нету бога., Não, Deus não existe.
Livro III: Os sensuais

Quando o pai se esquece de que a mãe de Aliócha foi também a dele, é Ivan quem lembra, com um desprezo contido:

Да ведь и моя, я думаю, мать его мать была, как вы полагаете?, Mas a minha, eu acho, também foi a mãe dele, o que o senhor pensa?
Livro III: Os sensuais

No capítulo IX do Livro III, depois de arrancar Mítia de cima do velho, sussurra a Aliócha o que não diria em voz alta, e no pátio, diante da pergunta de Aliócha, promete defendê-los e guarda para si a liberdade dos desejos:

Один гад съест другую гадину, обоим туда и дорога!, Um réptil devora o outro, e bem feito para os dois!
Livro III: Os sensuais
Но в желаниях моих я оставляю за собою в данном случае полный простор., Mas nos meus desejos eu reservo para mim, neste caso, plena liberdade.
Livro III: Os sensuais

No capítulo V do Livro IV, na cena do nadryv, Ivan ouve Aliócha dizer a Catierina Ivánovna que ela o atormenta porque ama Mítia, rebate com uma franqueza juvenil que Aliócha nunca vira nele, e sai sem aceitar a mão dela:

Она держала меня при себе для беспрерывного мщения. Она мстила мне и на мне за все оскорбления, которые постоянно и всякую минуту выносила во весь этот срок от Дмитрия, оскорбления с первой встречи их, ela me manteve a seu lado para uma vingança sem fim. Vingava-se de mim e em mim de todas as ofensas que suportava a todo instante, durante todo esse tempo, da parte de Dmitri, ofensas desde o primeiro encontro deles.
Livro IV: Os tumultos

No capítulo III do Livro V, na taberna, é ele quem procura o irmão mais novo, e a conversa começa pelo que o sustenta. Ivan diz o que ama e confessa o que lhe falta:

дороги мне клейкие, распускающиеся весной листочки, дорого голубое небо, дорог иной человек, которого иной раз, поверишь ли, не знаешь за что и любишь, caras me são as folhinhas pegajosas que se abrem na primavera, caro o céu azul, caro certo homem a quem às vezes, acredite, a gente ama sem saber por quê.
Livro V: Pró e contra
Я с тобой хочу сойтись, Алеша, потому что у меня нет друзей, попробовать хочу., quero me aproximar de você, Aliócha, porque não tenho amigos; quero tentar.
Livro V: Pró e contra
Непременно так, полюбить прежде логики, как ты говоришь, непременно чтобы прежде логики, и тогда только я и смысл пойму., sem dúvida: amar antes da lógica, como você diz, sem dúvida antes da lógica, e só então entenderei também o sentido.
Livro V: Pró e contra

Quando Aliócha pergunta por Mítia, responde com a pergunta de Caim:

Сторож я, что ли, моему брату Дмитрию? [...] Каинов ответ богу об убитом брате, а?, sou eu, por acaso, o guarda do meu irmão Dmitri? [...] Resposta de Caim a Deus sobre o irmão morto, hein?
Livro V: Pró e contra

Define-se pela mente que tem e pelo que não aceita:

у меня ум эвклидовский, земной, tenho uma mente euclidiana, terrena.
Livro V: Pró e contra
Я не бога не принимаю, пойми ты это, я мира, им созданного, мира-то божьего не принимаю и не могу согласиться принять, não é Deus que eu não aceito, entenda bem, o que eu não aceito é o mundo criado por Ele, o mundo de Deus, e não posso concordar em aceitá-lo.
Livro V: Pró e contra

No capítulo IV do Livro V, na Revolta, começa pelo amor ao próximo, que acha impossível, e passa às crianças, de quem a ciência não compra o sofrimento. O tema é desenvolvido em A Revolta:

Именно ближних-то, по-моему, и невозможно любить, а разве лишь дальних., é justamente os próximos, a meu ver, que é impossível amar; só os distantes, quando muito.
Livro V: Pró e contra
весь мир познания не стоит тогда этих слезок ребеночка к «боженьке», todo o mundo do conhecimento não vale então essas lagriminhas do bebê ao Deusinho.
Livro V: Pró e contra

A mãe de uma criança despedaçada pelos cães do general não tem o direito de perdoar o carrasco, e o ingresso que Ivan devolve a Deus é a recusa da harmonia comprada com essa lágrima:

Не хочу я, наконец, чтобы мать обнималась с мучителем, растерзавшим ее сына псами! Не смеет она прощать ему!, não quero, afinal, que a mãe se abrace com o carrasco que fez os cães despedaçarem o filho dela! Ela não tem o direito de perdoá-lo!
Livro V: Pró e contra
свой билет на вход спешу возвратить обратно [...] Не бога я не принимаю, Алеша, я только билет ему почтительнейше возвращаю., apresso-me a devolver o meu bilhete de entrada [...] Não é Deus que não aceito, Aliócha; apenas lhe devolvo, com o maior respeito, o bilhete.
Livro V: Pró e contra

Pergunta a Aliócha se aceitaria ser o arquiteto da felicidade dos homens ao preço de uma só criança torturada:

согласился ли бы ты быть архитектором на этих условиях, скажи и не лги! [...] Нет, не согласился бы, consentiria você em ser o arquiteto nessas condições, diga, e não minta! [...] Não, não consentiria.
Livro V: Pró e contra

No capítulo V do Livro V recita o poema d'O Grande Inquisidor, em que o cardeal de Sevilha diz ao Cristo preso que só três forças vencem a consciência dos fracos:

Есть три силы, единственные три силы на земле, могущие навеки победить и пленить совесть этих слабосильных бунтовщиков, для их счастия, — эти силы: чудо, тайна и авторитет., há três forças, as únicas três forças na terra capazes de vencer e cativar para sempre a consciência desses fracos rebeldes, para a felicidade deles: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade.
Livro V: Pró e contra

O prisioneiro responde ao velho com um beijo silencioso:

он вдруг молча приближается к старику и тихо целует его в его бескровные девяностолетние уста. Вот и весь ответ., ele de repente se aproxima em silêncio do velho e beija suavemente os seus lábios exangues de noventa anos. Essa é toda a resposta.
Livro V: Pró e contra

Aliócha pergunta se a fórmula é tudo é permitido, e Ivan não a renega, e Aliócha o beija, e Ivan agradece com um furto literário:

Я, брат, уезжая, думал, что имею на всем свете хоть тебя [...] а теперь вижу, что и в твоем сердце мне нет места, мой милый отшельник. От формулы «всё позволено» я не отрекусь, ну и что же, за это ты от меня отречешься, да, да?, eu pensava, irmão, ao partir, que tinha no mundo ao menos você [...] e agora vejo que nem no seu coração há lugar para mim, meu querido eremita. Da fórmula «tudo é permitido» eu não renego, e então, por isso, você me renegará, sim, sim?
Livro V: Pró e contra
Литературное воровство! [...] это ты украл из моей поэмы! Спасибо, однако., furto literário! [...] foi do meu poema que você roubou isso! Obrigado, no entanto.
Livro V: Pró e contra

No capítulo VI do Livro V, voltando para a casa do pai, reconhece que na própria alma está sentado o lacaio Smierdiakóv, e na conversa do portão, em que o criado lhe conta o código de batidas combinado com o velho e lhe aconselha ir a Tchermachnia, Ivan diz ao criado que as ameaças de Mítia são só arrebatamento:

Иван Федорович с первого взгляда на него понял, что и в душе его сидел лакей Смердяков и что именно этого-то человека и не может вынести его душа., Ivan Fiódorovitch, ao primeiro olhar para ele, compreendeu que também em sua alma estava sentado o lacaio Smierdiakóv, e que era justamente esse homem que a sua alma não podia suportar.
Livro V: Pró e contra
Все эти угрозы брата Дмитрия только азартные слова и больше ничего. Не убьет он тебя; убьет, да не тебя!, todas essas ameaças do irmão Dmitri são só palavras de arrebatamento e nada mais. Ele não vai matar você; vai matar, mas não você!
Livro V: Pró e contra

No capítulo VII do Livro V, de noite, escuta da escada o pai se mexer embaixo, e esse ato, pelo resto da vida, ele o chama de vil. De manhã anuncia que parte e, a Smierdiakóv, que ajeita a manta, diz sem querer:

Этот «поступок» он всю жизнь свою потом называл «мерзким» и всю жизнь свою считал, глубоко про себя, в тайниках души своей, самым подлым поступком изо всей своей жизни., esse «ato», pelo resto da vida ele o chamou de «vil» e o considerou, no fundo de si, nos recônditos da alma, o ato mais canalha de toda a sua vida.
Livro V: Pró e contra
Видишь… в Чермашню еду…, veja... vou a Tchermachnia...
Livro V: Pró e contra

Entra no trem prometendo olhar adiante, e ao amanhecer, entrando em Moscou, acorda:

Я подлец!, sou um canalha!
Livro V: Pró e contra

No capítulo V do Livro XI, na véspera do julgamento, Aliócha lhe diz, na rua, o que ninguém ousa dizer, e Ivan, em vez de se defender, o agarra pelo ombro e sussurra:

Не ты убил отца, не ты!, não foi você quem matou nosso pai, não foi você!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
Ты был у меня! [...] Ты был у меня ночью, когда он приходил… Признавайся… ты его видел, видел?, você esteve comigo! [...] Você esteve comigo à noite, quando ele veio... Confesse... você o viu, viu?
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo VI do Livro XI, na primeira conversa com Smierdiakóv, sente-se aliviado por o culpado ser Mítia e não o criado, e o narrador anota o que há de estranho nisso:

он чувствовал, что действительно был успокоен, и именно тем обстоятельством, что виновен не Смердяков, а брат его Митя, хотя, казалось бы, должно было выйти напротив, sentia que de fato estava tranquilizado, e justamente pela circunstância de o culpado não ser Smierdiakóv, e sim o seu irmão Mítia, embora devesse ser o contrário.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Duas semanas depois voltam os pensamentos de antes, e Ivan pergunta a Aliócha, na rua, se naquele dia ele pensou que o irmão queria a morte do pai. Aliócha responde:

Прости меня, я и это тогда подумал, perdoe-me, pensei isso também naquela hora.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo VII do Livro XI, na segunda conversa, o criado lhe diz que ele desejava que outro matasse, e que a partida foi permissão:

Чтоб убить — это вы сами ни за что не могли-с, да и не хотели, а чтобы хотеть, чтобы другой кто убил, это вы хотели., matar, isso o senhor mesmo não poderia de modo algum, nem queria; mas querer que outro matasse, isso o senhor queria.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
если предчувствовали на меня и в то же самое время уезжали, значит, мне тем самым точно как бы сказали: это ты можешь убить родителя, а я не препятствую., se o senhor pressentia isso de mim e, ao mesmo tempo, partia, era como se me dissesse: você pode matar o seu pai, e eu não impeço.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Ivan conclui que, se foi o criado e não Mítia, o assassino é ele também:

Если б убил не Дмитрий, а Смердяков, то, конечно, я тогда с ним солидарен, ибо я подбивал его. Подбивал ли я его — еще не знаю. Но если только он убил, а не Дмитрий, то, конечно, убийца и я., se não foi Dmitri quem matou, e sim Smierdiakóv, então estou, claro, solidário com ele, porque eu o instiguei. Se o instiguei, ainda não sei. Mas se foi só ele quem matou, e não Dmitri, então, claro, o assassino sou eu também.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo VIII do Livro XI, na terceira, Smierdiakóv confessa e lhe devolve a autoria moral do crime:

Вы убили, вы главный убивец и есть, а я только вашим приспешником был, слугой Личардой верным, и по слову вашему дело это и совершил., o senhor matou, o senhor é o assassino principal, e eu fui só o seu ajudante, o seu servo fiel, o seu Licharda, e por palavra sua fiz o que fiz.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
Это вы вправду меня учили-с, ибо много вы мне тогда этого говорили: ибо коли бога бесконечного нет, то и нет никакой добродетели, да и не надобно ее тогда вовсе., isso o senhor me ensinou de verdade; muitas vezes me disse então que, se não existe um Deus infinito, não há virtude nenhuma, e nem é preciso tê-la.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo IX do Livro XI, em febre, recebe o visitante, o seu diabo, e o reconhece como parte de si:

Ты моя галлюцинация. Ты воплощение меня самого, только одной, впрочем, моей стороны… моих мыслей и чувств, только самых гадких и глупых., você é a minha alucinação. É a encarnação de mim mesmo, só de um lado meu, aliás... dos meus pensamentos e sentimentos, só dos mais nojentos e estúpidos.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

O diabo recita, de cor, o raciocínio do próprio Ivan:

Для бога не существует закона! Где станет бог — там уже место божие! Где стану я, там сейчас же будет первое место… «всё дозволено», и шабаш!, para Deus não existe lei! Onde Deus se puser, ali é o lugar de Deus! Onde eu me puser, ali de imediato será o primeiro lugar... "tudo é permitido", e pronto!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo X do Livro XI, quando Aliócha traz a notícia de que Smierdiakóv se enforcou, Ivan diz que o diabo lhe disse, e que o diabo é ele:

А он — это я, Алеша, я сам. Всё мое низкое, всё мое подлое и презренное! [...] я бы очень желал, чтоб он в самом деле был он, а не я!, e ele sou eu, Aliócha, eu mesmo. Tudo o que há em mim de baixo, de vil e de desprezível! [...] eu queria muito que ele fosse de fato ele, e não eu!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch
Совесть! Что совесть? Я сам ее делаю. Зачем же я мучаюсь? По привычке. По всемирной человеческой привычке за семь тысяч лет. Так отвыкнем и будем боги, consciência! O que é a consciência? Eu mesmo a faço. Por que então me atormento? Por hábito. Pelo hábito humano universal de sete mil anos. Então nos desacostumemos, e seremos deuses.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo V do Livro XII, no tribunal, apresenta o dinheiro do envelope e diz que quem matou o pai foi Smierdiakóv, a quem ele ensinou a matar, pois quem não deseja a morte do pai? Quando o presidente pergunta se está louco, volta-se à plateia, e depois responde a ele:

Убили отца, а притворяются, что испугались, — проскрежетал он с яростным презрением. [...] Друг пред другом кривляются. Лгуны! Все желают смерти отца. Один гад съедает другую гадину… Не будь отцеубийства — все бы они рассердились и разошлись злые… Зрелищ! «Хлеба и зрелищ!», mataram o pai e fingem que se assustaram, rangeu ele, com furioso desprezo [...] Fazem caretas uns para os outros. Mentirosos! Todos desejam a morte do pai. Um réptil devora o outro... Se não houvesse parricídio, todos ficariam zangados e iriam embora de mau humor... Espetáculos! "Pão e espetáculos!"
Livro XII: Um erro judiciário
Успокойтесь, не помешанный, я только убийца!, tranquilizem-se, não estou louco, sou apenas um assassino!
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo I do Epílogo, cinco dias depois, jaz em febre numa peça ao lado da sala de Catierina, que o abriga, e o romance não diz se ele sobrevive.

Temas que encarna

Ivan carrega a tese de que tudo é permitido, que atravessa o romance inteiro: primeiro como artigo ambíguo sobre tribunais eclesiásticos (capítulo V do Livro II), depois como ideia que o atormenta (capítulo VI do Livro II), como filosofia que discute com orgulho (capítulo III do Livro V, capítulo IV do Livro V) e por fim como acusação que ele não consegue mais separar de si (capítulo VIII do Livro XI, capítulo IX do Livro XI). Formula a distinção mais fina do livro, entre negar Deus e negar o mundo que Deus fez, e o poema do Inquisidor é a resposta mais elaborada que dá à própria revolta, e o diabo do Livro XI é essa resposta devolvida em voz vulgar, para mostrar que a distância entre pensar uma ideia e ser possuído por ela é menor do que ele supunha. Por isso o tema que carrega é o de Razão, medido contra a Fé de Aliócha e a Liberdade e opressão do Inquisidor.

O que ele quer é um mundo em que o sofrimento de uma criança não seja o preço da harmonia, e quer também um amigo, coisa que diz não ter (capítulo III do Livro V). O que teme é a própria baixeza, a força da baixeza karamazoviana, que ele reconhece na pergunta de Aliócha (capítulo V do Livro V), e o que sabe de si é pouco: não sabe, depois do portão, se queria que o pai morresse (capítulo VII do Livro V, capítulo VII do Livro XI). Onde se engana é em acreditar que a ideia fica no gabinete: o criado a leva ao crime (capítulo VIII do Livro XI), e o diabo mostra que ela era dele (capítulo IX do Livro XI). O livro dá razão aos dois lados: a revolta é honesta e o criado não a inventou, mas é Ivan quem a ensina, e a culpa que o consome não vem de ter matado, e sim de ter deixado.

Leituras divergentes

O livro põe dentro de si leituras opostas do homem que só o leitor vê por inteiro. O stáriets diz que a ideia não está resolvida no coração dele e que o atormentado se diverte com o próprio desespero (capítulo VI do Livro II), e Aliócha diz a Rakítin que ele procura tormento (capítulo VII do Livro II). O diabo, que Ivan cita no capítulo X do Livro XI, o lê como quem vai cumprir um feito de virtude em que não crê, e é isso que o enraivece:

Ты идешь совершить подвиг добродетели, а в добродетель-то и не веришь — вот что тебя злит и мучит, você vai realizar um feito de virtude, e na virtude não crê, é isso que o enraivece e o atormenta.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Aliócha, deitado ao lado dele adormecido, pensa e reza que ou Ivan se levantará à luz da verdade ou perecerá no ódio:

Бог победит! [...] Или восстанет в свете правды, или… погибнет в ненависти, мстя себе и всем за то, что послужил тому, во что не верит, Deus vencerá! [...] Ou ele se levantará à luz da verdade, ou perecerá no ódio, vingando-se de si e de todos por ter servido àquilo em que não crê.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

Na Frank - 07 - Karamazov e a morte, Smierdiakóv é lido como alter ego de Ivan, que leva as teorias dele ao extremo lógico e repugnante:

Smierdiakov serve como alter ego de Ivan da mesma maneira que Svidrigáilov servira a Raskólnikov; ele leva as teorias de Ivan ao seu extremo lógico e repugnante e exibe a refração distorcida e perigosa delas numa natureza mais rude e menos nobre
Joseph Frank

As leituras divergem sobre o que Ivan perdeu. Para quem o vê como a mente que se perde sozinha, a febre é a prova de que o argumento sem Deus não se sustenta. Para quem o vê como o homem que ama e não consegue agir, é a prova de que o amor sem ato é só atmosfera. O texto autoriza as duas e dá uma terceira: ele aceita a cruz, não a forca (capítulo X do Livro XI), e sai do romance na cama de Catierina, vivo e sem desfecho (capítulo I do Epílogo). Contra a leitura da mente, vale notar que o diabo de Ivan é vulgar, não genial (capítulo IX do Livro XI); contra a do amor sem ato, que o ato dele no tribunal é pagar o preço do que fez (capítulo V do Livro XII).

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