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Personagem

Stáriets Zossima

Quem é

O stáriets Zossima, Zinóvi no mundo, é o mestre espiritual de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov e o terceiro e último de uma linhagem de stártsi num mosteiro sem relíquias nem ícones milagrosos, famoso por causa deles (capítulo V do Livro I). Nascido numa cidade do norte, órfão de pai aos dois anos, criado pela mãe e marcado pela morte do irmão mais velho, Márkel, quando tinha nove (capítulo II do Livro VI), passa pelo corpo de cadetes de Petersburgo, serve como oficial, desafia um rival por causa de uma moça e, na véspera do duelo, bate no ordenança e percebe o que fez; joga a pistola para o alto, pede perdão e deixa o exército. Na cidade ouve a confissão de um homem que matara uma viúva catorze anos antes e, cinco meses depois, entra no mosteiro (capítulo II do Livro VI). É a resposta positiva do livro à revolta de Ivan: onde o Inquisidor oferece milagre, mistério e autoridade para poupar o homem do peso da liberdade, Zossima devolve os três termos invertidos, evidência silenciosa do amor vivido, autoridade que nasce de quem escolhe obedecer, e liberdade como disciplina, não como fardo (capítulo III do Livro VI). Morre ainda no meio do romance, de joelhos e beijando a terra, e a decomposição precoce do corpo é a prova que o mosteiro põe em cima de Aliócha (capítulo III do Livro VI, capítulo I do Livro VII).

Trajetória

No capítulo V do Livro I, o narrador apresenta o starietsvo como instituição antes de apresentar o homem, e define o stáriets:

Старец — это берущий вашу душу, вашу волю в свою душу и в свою волю, O stáriets é aquele que toma a sua alma, a sua vontade, para dentro da sua alma e da sua vontade.
Livro I: História de uma família

Quando a reunião é marcada na cela dele, brincando, por Fiódor Pávlovitch, Zossima diz apenas a Aliócha, com um sorriso:

«Кто меня поставил делить между ними?», Quem me pôs para repartir entre eles?
Livro I: História de uma família

No capítulo II do Livro II, na cela, o stáriets não responde ao bufão com sermão: quando Miússov quer sair, segura-lhe as mãos e o senta de novo, e a Fiódor diz que se sinta em casa:

А главное, не стыдитесь столь самого себя, ибо от сего лишь всё и выходит., E o principal, não se envergonhe tanto de si mesmo, pois é só daí que tudo vem.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Fiódor se ajoelha e pergunta o que fazer para herdar a vida eterna, e o stáriets lhe responde:

Главное, самому себе не лгите., O principal: não minta a si mesmo.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo III do Livro II, antes, recebe as mulheres do povo, e a uma mãe que chora o filho de três anos diz que não se console, que chore, e lembre que o filho está entre os anjos:

И не утешайся, и не надо тебе утешаться, не утешайся и плачь, только каждый раз, когда плачешь, вспоминай неуклонно, что сыночек твой — есть единый от ангелов божиих, E não se console, nem é preciso que se console, não se console e chore, só que, cada vez que chorar, lembre-se sem falta de que o seu filhinho é um dos anjos de Deus.
Livro II: Uma reunião intempestiva

A uma jovem viúva que se acusa de ter pensado na morte do marido que lhe batia, diz que não há pecado que esgote o amor de Deus, e dá a razão:

Да и совершить не может совсем такого греха великого человек, который бы истощил бесконечную божью любовь. Али может быть такой грех, чтобы превысил божью любовь?, E o homem tampouco pode cometer pecado tão grande que esgote o amor infinito de Deus. Ou pode haver pecado que supere o amor de Deus?
Livro II: Uma reunião intempestiva
Любовью всё покупается, всё спасается., Pelo amor tudo se compra, tudo se salva.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo IV do Livro II, à senhora Khokhlakova, que sofre por não acreditar na vida futura e pede uma prova, responde com a experiência:

Опытом деятельной любви., Pela experiência do amor ativo.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Conta-lhe o que ouviu de um médico, e a diferença entre as duas formas de amor:

чем больше я люблю человечество вообще, тем меньше я люблю людей в частности, то есть порознь, как отдельных лиц, quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular, isto é, uma a uma, como indivíduos.
Livro II: Uma reunião intempestiva
Любовь мечтательная жаждет подвига скорого, быстро удовлетворимого и что бы все на него глядели. Тут действительно доходит до того, что даже и жизнь отдают, только бы не продлилось долго, а поскорей совершилось, как бы на сцене, и чтобы все глядели и хвалили. Любовь же деятельная — это работа и выдержка, а для иных так, пожалуй, целая наука., O amor sonhador anseia por um feito rápido, logo satisfeito, e que todos olhem para ele. Chega-se mesmo a dar a vida, desde que não dure muito, que se cumpra logo, como num palco, e que todos olhem e louvem. O amor ativo, ao contrário, é trabalho e persistência, e para alguns, talvez, uma ciência inteira.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo V do Livro II, quando a cela discute o artigo de Ivan, Zossima intervém, e todos se voltam:

настоящей кары, единственной действительной, единственной устрашающей и умиротворяющей, заключающейся в сознании собственной совести, de uma pena verdadeira, a única efetiva, a única que amedronta e pacifica, que consiste na consciência da própria consciência moral.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VI do Livro II, depois de ouvir a tese de Ivan, a de que, destruída a fé na imortalidade, nada será imoral, pergunta a ele se a mantém, e diz o que vê:

Идея эта еще не решена в вашем сердце и мучает его. Но и мученик любит иногда забавляться своим отчаянием, как бы тоже от отчаяния., Essa ideia ainda não está resolvida no seu coração, e o atormenta. Mas o atormentado também gosta, às vezes, de se divertir com o próprio desespero, como que também por desespero.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Quando a cena chega ao grotesco, levanta-se, vai até Mítia, ajoelha-se e toca o chão com a testa. E diz:

Простите! Простите все!, Perdoem! Perdoem todos!
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro II, manda Aliócha ao almoço do abade, diz que ali não há paz e lhe deixa a ordem de sair do mosteiro quando ele morrer:

Как только сподобит бог преставиться мне — и уходи из монастыря. Совсем иди., Assim que Deus me conceder partir, saia do mosteiro. Vá embora de vez.
Livro II: Uma reunião intempestiva
Горе узришь великое и в горе сем счастлив будешь. Вот тебе завет: в горе счастья ищи., Você verá grande dor e nessa dor será feliz. Este é o meu testamento: na dor, procure a felicidade.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo I do Livro IV, no último dia, confessa-se com Paíssi, comunga e recebe a unção, e ensina enquanto tem voz:

Любите друг друга, отцы [...] Не святее же мы мирских за то, что сюда пришли и в сих стенах затворились, а, напротив, всякий сюда пришедший, уже тем самым, что пришел сюда, познал про себя, что он хуже всех мирских и всех и вся на земле, amai-vos uns aos outros, padres [...] Não somos mais santos do que os leigos por termos vindo para cá e nos fechado nestes muros; ao contrário, quem quer que tenha vindo para cá, só por ter vindo, já reconheceu em si que é pior do que todos os leigos e do que tudo e todos na terra.
Livro IV: Os tumultos
каждый единый из нас виновен за всех и за вся на земле несомненно, не только по общей мировой вине, а единолично каждый за всех людей и за всякого человека на сей земле, cada um de nós é, sem dúvida, culpado por todos e por tudo na terra, não só pela culpa comum do mundo, mas cada um, sozinho, por todos os homens e por cada homem desta terra.
Livro IV: Os tumultos

Promete a Aliócha, em troca de ele ir ver os seus, a última palavra:

не умру без того, чтобы не сказать при тебе последнее мое на земле слово. Тебе скажу это слово, сынок, тебе и завещаю его, não morrerei sem dizer na tua presença a minha última palavra na terra. A ti direi essa palavra, filho, a ti a deixo em herança.
Livro IV: Os tumultos

No capítulo I do Livro VI, na última noite, cercado de quatro amigos de muitos anos, recebe Aliócha com ternura, pergunta primeiro por Mítia, diante de quem se prostrou, e diz o que viu nele:

Здравствуй, тихий, здравствуй, милый, вот и ты. И знал, что прибудешь., olá, meu quieto, olá, querido, aí está você. E eu sabia que viria.
Livro VI: Um monge russo
Поспеши найти, завтра опять ступай и поспеши, всё оставь и поспеши. Может, еще успеешь что-либо ужасное предупредить. Я вчера великому будущему страданию его поклонился., apresse-se a encontrá-lo, volte amanhã e apresse-se, largue tudo e apresse-se. Quem sabe ainda chega a tempo de prevenir alguma coisa terrível. Ontem eu me prostrei diante do grande sofrimento futuro dele.
Livro VI: Um monge russo
Не любопытствуй. Показалось мне вчера нечто страшное… словно всю судьбу его выразил вчера его взгляд., não seja curioso. Pareceu-me ontem algo terrível... como se o olhar dele tivesse expressado ontem toda a sua sorte.
Livro VI: Um monge russo

Cita o versículo do grão de trigo:

Если пшеничное зерно, падши в землю, не умрет, то останется одно; а если умрет, то принесет много плода, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, ficará só; mas se morrer, dará muito fruto.
Livro VI: Um monge russo

E diz a Aliócha o que será dele, e a quem o compara:

изыдешь из стен сих, а в миру пребудешь как инок. Много будешь иметь противников, но и самые враги твои будут любить тебя. Много несчастий принесет тебе жизнь, но ими-то ты и счастлив будешь, и жизнь благословишь, и других благословить заставишь — что важнее всего., sairá destes muros, mas no mundo permanecerá como monge. Terá muitos adversários, mas até os seus inimigos o amarão. A vida lhe trará muitas desgraças, mas é por elas que será feliz, e abençoará a vida, e fará os outros a abençoarem, o que é mais importante de tudo.
Livro VI: Um monge russo
Алексей казался мне до того схожим с тем духовно, что много раз считал я его как бы прямо за того юношу, брата моего, пришедшего ко мне на конце пути моего таинственно, для некоего воспоминания и проникновения, Aleksiéi me pareceu tão semelhante a ele em espírito que muitas vezes o tomei quase pelo próprio rapaz, meu irmão, que veio a mim no fim do meu caminho, misteriosamente, para alguma lembrança e compreensão.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo II do Livro VI, conta a vida, no manuscrito de Aliócha. Márkel, o irmão que aos dezessete anos recusou o jejum e disse que não havia Deus, adoece de tuberculose e, quando vai morrendo, muda. À mãe diz que já vivem no paraíso sem querer saber, e que cada um responde por todos, e aos passarinhos pede perdão:

Мама [...] не плачь, жизнь есть рай, и все мы в раю, да не хотим знать того, а если бы захотели узнать, завтра же и стал бы на всем свете рай, mamãe [...] não chore, a vida é um paraíso, e estamos todos no paraíso, só que não queremos saber, e se quiséssemos, amanhã mesmo o paraíso estaria em todo o mundo.
Livro VI: Um monge russo
воистину всякий пред всеми за всех и за всё виноват. Не знаю я, как истолковать тебе это, но чувствую, что это так до мучения., na verdade cada um é culpado diante de todos, por todos e por tudo. Não sei como lhe explicar isso, mas sinto que é assim, até o tormento.
Livro VI: Um monge russo
была такая божия слава кругом меня: птички, деревья, луга, небеса, один я жил в позоре, один всё обесчестил, а красы и славы не приметил вовсе, havia uma tal glória de Deus à minha volta: passarinhos, árvores, prados, céus, e só eu vivia na vergonha, só eu desonrei tudo, sem notar a beleza e a glória.
Livro VI: Um monge russo

Numa tarde, a sós com o menino, o segura pelos ombros e, depois de um minuto, lhe diz:

Ну, говорит, ступай теперь, играй, живи за меня!, ora, vá agora, brinque, viva por mim!, diz ele.
Livro VI: Um monge russo

Em Petersburgo, nos quase oito anos do corpo de cadetes, sufoca as impressões da infância e se torna cruel. Na véspera do duelo, bate no ordenança Afanássi e, atirado na cama, lembra o que o irmão dizia aos criados, que cada um responde por todos. Joga-se de joelhos diante do ordenança, pede-lhe perdão, e no local do duelo, a doze passos, aceita que o rival atire primeiro, joga a pistola para o alto e diz ao outro:

Туда, кричу, тебе и дорога!, para lá, grito, é o seu caminho!
Livro VI: Um monge russo
Милостивый государь, говорю, простите меня, глупого молодого человека, что по вине моей вас разобидел, а теперь стрелять в себя заставил. Сам я хуже вас в десять крат, а пожалуй, еще и того больше, meu senhor, digo, perdoe-me, a mim, um jovem tolo, por ter sido a causa de ofendê-lo e agora de obrigá-lo a atirar em mim. Eu mesmo sou dez vezes pior que o senhor, e talvez mais ainda.
Livro VI: Um monge russo

Logo depois do duelo, um benfeitor da cidade lhe diz que o paraíso está escondido em cada um e que o homem foi feito para a união e não para o isolamento:

Рай, говорит, в каждом из нас затаен, вот он теперь и во мне кроется, и, захочу, завтра же настанет он для меня в самом деле и уже на всю мою жизнь, o paraíso, diz ele, está escondido em cada um de nós, e agora mesmo está escondido em mim, e se eu quiser, amanhã mesmo chegará para mim de verdade e para a vida inteira.
Livro VI: Um monge russo

Um mês depois confessa, no meio de uma conversa, que matou um homem catorze anos antes e deixou que a suspeita caísse num servo que morreu na prisão:

Я… знаете ли вы… я… человека убил., eu... sabe o senhor... eu... matei um homem.
Livro VI: Um monge russo

Em duas semanas de visitas, o homem diz que o paraíso virá para ele quando declarar:

Знаю, что наступит рай для меня, тотчас же и наступит, как объявлю. Четырнадцать лет был во аде. Пострадать хочу. Приму страдание и жить начну., sei que o paraíso virá para mim, virá na hora em que eu declarar. Catorze anos estive no inferno. Quero sofrer. Aceitarei o sofrimento e começarei a viver.
Livro VI: Um monge russo

Zossima, sem voz, o manda declarar e lhe mostra o versículo de João; o homem lê a denúncia em público no dia do próprio aniversário e, depois, lhe revela o que o levou à segunda visita:

А помнишь ли, как я к тебе тогда в другой раз пришел, в полночь! [...] Знаешь ли, для чего я входил? Я ведь убить тебя приходил!, e você se lembra de quando vim à sua casa pela segunda vez, à meia-noite? [...] Sabe para que entrei? Vim para matar você!
Livro VI: Um monge russo

Zossima deixa a cidade, que se volta contra ele, e cinco meses depois entra no mosteiro. No capítulo III do Livro VI, na doutrina, fala dos monges, do mundo e do povo:

Провозгласил мир свободу, в последнее время особенно, и что же видим в этой свободе ихней: одно лишь рабство и самоубийство!, o mundo proclamou a liberdade, nos últimos tempos sobretudo, e o que vemos nessa liberdade deles? Apenas escravidão e suicídio!
Livro VI: Um monge russo

Pede que amem a criação, que decidam sempre pelo amor humilde e que não julguem ninguém:

Любите всё создание божие, и целое и каждую песчинку. Каждый листик, каждый луч божий любите. Любите животных, любите растения, любите всякую вещь. Будешь любить всякую вещь и тайну божию постигнешь в вещах., amem toda a criação de Deus, o todo e cada grão de areia. Amem cada folhinha, cada raio de Deus. Amem os animais, amem as plantas, amem toda coisa. Se você amar toda coisa, penetrará o mistério de Deus nas coisas.
Livro VI: Um monge russo
Взять ли силой али смиренною любовью?» Всегда решай: «Возьму смиренною любовью». Решишься так раз навсегда и весь мир покорить возможешь. Смирение любовное — страшная сила изо всех сильнейшая, подобной которой и нет ничего., «tomar pela força ou pelo amor humilde?» Decida sempre: «Tomarei pelo amor humilde.» Se decidir assim de uma vez por todas, poderá conquistar o mundo inteiro. O amor humilde é uma força terrível, a mais forte de todas, e nada há que se lhe compare.
Livro VI: Um monge russo
Помни особенно, что не можешь ничьим судиею быти. Ибо не может быть на земле судья преступника, прежде чем сам сей судья не познает, что и он такой же точно преступник, как и стоящий пред ним, и что он-то за преступление стоящего пред ним, может, прежде всех и виноват., lembre-se sobretudo de que você não pode ser juiz de ninguém. Pois não pode haver na terra juiz de criminoso antes que o próprio juiz reconheça que também ele é um criminoso exatamente como o que está diante dele, e que talvez seja, antes de todos, culpado do crime do que está diante dele.
Livro VI: Um monge russo

Se ninguém o ouvir, que caiam por terra e beijem-na, e o inferno, diz, é o sofrimento de não poder mais amar:

Если же все оставят тебя и уже изгонят тебя силой, то, оставшись один, пади на землю и целуй ее, омочи ее слезами твоими, и даст плод от слез твоих земля, хотя бы и не видал и не слыхал тебя никто в уединении твоем., se todos o abandonarem e até o expulsarem à força, fique só, caia por terra e beije-a, regue-a com as suas lágrimas, e a terra dará fruto das suas lágrimas, ainda que ninguém o tenha visto nem ouvido na sua solidão.
Livro VI: Um monge russo
Страдание о том, что нельзя уже более любить, o sofrimento de não poder mais amar.
Livro VI: Um monge russo

O manuscrito de Aliócha termina aí, e o narrador conta a morte:

тихо опустился с кресел на пол и стал на колени, затем склонился лицом ниц к земле, распростер свои руки и, как бы в радостном восторге, целуя землю и молясь (как сам учил), тихо и радостно отдал душу богу, desceu devagar da poltrona ao chão e ficou de joelhos, depois inclinou-se com o rosto à terra, estendeu os braços e, como em êxtase de alegria, beijando a terra e rezando (como ele mesmo ensinara), entregou a alma a Deus, em paz e alegria.
Livro VI: Um monge russo

No capítulo I do Livro VII, com o cheiro no ataúde, o mosteiro divide-se. Uns se alegram mais do que os descrentes, e o narrador lembra uma frase do próprio morto, a de que as pessoas amam a queda do justo. Os monges, por sua vez, tomam o cheiro como sinal de que o falecido se adiantou à natureza:

«любят люди падение праведного и позор его», as pessoas amam a queda do justo e a sua desonra.
Livro VII: Aliócha
«этот естество предупредил», стало быть, тут никто как бог и нарочитый перст его. Указать хотел., «este se adiantou à natureza», logo aí não há ninguém senão Deus e o seu dedo posto de propósito. Quis mostrar.
Livro VII: Aliócha

O padre Ferapont, inimigo do starietsvo, entra e benze as paredes; a fórmula dele e a resposta de Paíssi:

Извергая извергну!, Expulsando, expulsarei!
Livro VII: Aliócha
не человеки судят, а бог. Может, здесь «указание» видим такое, коего не в силах понять ни ты, ни я и никто., não são os homens que julgam, é Deus. Talvez estejamos vendo aqui um «sinal» que nem você, nem eu, nem ninguém tem força de compreender.
Livro VII: Aliócha

No capítulo IV do Livro VII, no sonho de Aliócha, reaparece vivo na festa de Caná, na mesma roupa de ontem, e lhe diz:

Я луковку подал, вот и я здесь. И многие здесь только по луковке подали, по одной только маленькой луковке…, Dei uma cebola, e aqui estou. E muitos aqui deram só uma cebola, uma só, pequena…
Livro VII: Aliócha

Temas que encarna

Zossima encarna a autoridade que se recebe por escolha e não por medo, o contraponto exato ao cardeal de O Grande Inquisidor (capítulo III do Livro VI). Onde o Inquisidor decide pela humanidade que ela não aguenta a liberdade, Zossima morre demonstrando a liberdade que sobra depois de renunciar a tudo, sem medo, cercado de amor (capítulo III do Livro VI). A doutrina da culpa recíproca, plantada pelo irmão Márkel e revivida no duelo da juventude (capítulo II do Livro VI), é o que Smierdiakóv leva ao extremo oposto: aceitar a culpa de todos por tudo pode libertar, como em Zossima, ou servir de desculpa para o próprio crime, como em Smierdiakóv, que devolve a culpa a Ivan em vez de assumi-la (capítulo VIII do Livro XI). O tema que carrega é o de Fé e o de Culpa.

O que ele quer é que o que sabe passe a um discípulo antes de morrer, e é por isso que promete a Aliócha a última palavra (capítulo I do Livro IV). O que teme é o sofrimento de não poder mais amar, que define como o inferno (capítulo III do Livro VI). O que sabe é ver o rosto das pessoas, como no caso de Mítia (capítulo I do Livro VI), e onde se engana, se é que se engana, é em acreditar que o amor humilde basta diante do mal: o cheiro prova que a comunidade não o tinha aprendido (capítulo I do Livro VII). A resposta do romance ao problema do mal não é um argumento melhor que o de Ivan, é uma vida inteira contada por dentro, e por isso a vida de Zossima pesa mais no romance do que qualquer citação isolada.

Leituras divergentes

O livro põe dentro de si leituras opostas do estado do corpo. Para o mosteiro, o cheiro é um sinal de que o morto adiantou-se à natureza; para Paíssi, um sinal que ninguém tem força de compreender; para Ferapont, o triunfo do que ele sempre disse (capítulo I do Livro VII). Para Aliócha, é a violação da justiça suprema, e a resposta que recebe no sonho não explica o cheiro, desloca o critério (capítulo II do Livro VII, capítulo IV do Livro VII).

Na Frank - 07 - Karamazov e a morte, o inferno do romance é lido como atributo da psique, fiel à poética da subjetividade do autor:

Frank fecha a pregação de Zossima num ponto que a comparação com Dante, Milton e Shakespeare, na abertura do capítulo, deixava só anunciado: o inferno do romance não tem ganchos nem ferros, é o sofrimento de não mais se poder amar, e diante do "fogo material" Zossima diz que não investiga o mistério, tem medo. Dostoiévski, escreve Frank, continua fiel à sua poética da subjetividade, transformando até mesmo o inferno num atributo da psique humana.
Joseph Frank

As leituras divergem sobre o que Zossima é para o livro: resposta, devoção ou escândalo. O livro sustenta as três, e a que mais pesa muda conforme o leitor chega ao Livro VII com a resposta de Aliócha na cabeça ou com a de Ferapont. Contra a leitura da resposta pura, vale notar que o mestre morre sem ter evitado o cheiro nem o abalo do discípulo; contra a da devoção sem argumento, que a doutrina do capítulo III devolve, um a um, os termos do Inquisidor (capítulo III do Livro VI).

Relações