O tema na obra
A ambição de Julien Sorel tem modelo antes de ter objeto. O livro que o pai lhe derruba no riacho é O Memorial de Santa Helena (Livro I, cap. 4), e no capítulo seguinte o narrador explica a escolha que organiza o romance: a carreira das armas que fez Bonaparte já não está aberta a um filho de carpinteiro, e Julien conclui, por cálculo e não por fé, que é preciso ser padre (cap. 5). O título nomeia as duas escadas, A farda e a batina, e ele sobe pela segunda sem deixar de sonhar com a primeira: desfila como guarda de honra e por um instante se sente ordenança de Napoleão (cap. 18), e chega a Besançon suspirando por não entrar ali como subtenente (cap. 24).
A ambição contamina tudo o que toca. Decide a recusa da sociedade com Fouqué, medida pela idade em que Bonaparte já tinha feito o essencial (cap. 12), e entra no amor: depois da primeira noite com a Madame de Rênal, o narrador avisa que o amor de Julien ainda é ambição (cap. 16). No seminário ela muda de método, porque ali o mérito é suspeito e é preciso fabricar uma personalidade (caps. 26 e 27), e rende a primeira promoção (cap. 29) e o chamado a Paris (cap. 30). No Livro II o horizonte cresce: o bispado associado ao nome dele na cabeça da marechala de Fervaques (cap. 27), as terras do Languedoc, o nome de cavaleiro de La Vernaye e a patente de tenente de hussardos (cap. 34). Dois dias depois, ele já calcula o posto seguinte (cap. 35).
O tiro na igreja de Verrières interrompe a escalada no ponto mais alto. No torreão de Besançon, Julien percebe que já não pensa no que o ocupava quinze dias antes (cap. 36), e o narrador diz sem rodeio que a ambição morreu e que o remorso que ocupa o lugar dela é outra paixão (cap. 39). Em volta dele a ambição dos outros continua a trabalhar: Abade de Frilair vê no processo uma via rápida para o episcopado (cap. 38). Nas visitas da sra. de Rênal à prisão, o próprio Julien faz a conta do que a ambição lhe tomou nos bosques de Vergy (cap. 45).
A ambição de Julien é quase toda imitação: ele não quer coisas, quer ter sido alguém, e a régua é sempre a de outro homem, morto em Santa Helena. Por isso nenhuma vitória o satisfaz por mais de dois dias, e por isso o livro só consegue encerrá-la com a morte à vista. Stendhal não a condena como vício; mostra que ela ocupa o lugar exato onde estaria a felicidade, e que Julien só descobre isso quando já não há futuro para calcular.
Onde aparece
- Livro I, capítulo 4: Um pai e um filho: O livro que o pai derruba no riacho é o Memorial de Santa Helena, o que Julien mais preza, e a cena opõe a leitura ao trabalho braçal da serraria.
- Livro I, capítulo 5: Uma negociação: Ao ver o velho juiz de paz se desonrar por medo de desagradar um jovem vigário, Julien entende que a carreira das armas se fechou e conclui que é preciso ser padre.
- Livro I, capítulo 8: Pequenos acontecimentos: O cura Chélan o adverte de que terá de escolher entre fazer fortuna neste mundo ou no outro, e Julien recusa casar com Elisa, que acaba de receber uma herança.
- Livro I, capítulo 10: Um grande coração: Depois de arrancar o aumento de Rênal, sozinho no alto da rocha, chama o feito de batalha ganha e se pergunta, olhando o gavião, se o destino de Napoleão será o seu.
- Livro I, capítulo 12: Uma viagem: Recusa a sociedade de Fouqué, com quatro mil francos por ano, medindo-se pela idade em que Bonaparte já tinha feito seus maiores feitos.
- Livro I, capítulo 16: O dia seguinte: Em poucos dias está apaixonado, mas o narrador avisa que esse amor ainda é ambição: a alegria de possuir uma mulher nobre e bela.
- Livro I, capítulo 17: O primeiro-adjunto: Um arroubo a favor de Napoleão escapa a Julien no pomar, e a sra. de Rênal chega a vê-lo papa ou primeiro-ministro como Richelieu.
- Livro I, capítulo 18: Um rei em Verrières: Nomeado guarda de honra, desfila a cavalo e por um instante se sente ordenança de Napoleão, antes de trocar a farda pela batina.
- Livro I, capítulo 24: Uma capital: Ao chegar a Besançon, percorre as muralhas e a fortaleza sonhando com a farda de subtenente antes de se fechar no seminário.
- Livro I, capítulo 25: O seminário: O exame de entrada mostra o capital com que ele pretende subir: a Escritura e o livro de Maistre sobre o papa, recitado de cor.
- Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico: Descobre que no seminário ser o primeiro nos estudos é pecado e passa a compor uma personalidade nova para avançar.
- Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida: Pensa em virar professor de latim e recua diante do adeus à carreira que isso significaria.
- Livro I, capítulo 28: Uma procissão: O padre Chas-Bernard, que trabalhou muito e está feliz no seu posto, aparece a Julien como exemplo.
- Livro I, capítulo 29: A primeira promoção: Pirard o nomeia explicador do Novo e do Velho Testamento, a primeira promoção, e o previne de que a inveja o perseguirá.
- Livro I, capítulo 30: Um ambicioso: O marquês de La Mole o chama a Paris por indicação de Pirard, e o bispo o cumprimenta pelo destino que o espera.
- Livro II, capítulo 9: O baile: Diante de Altamira, Julien sustenta que quem quer o fim quer os meios, e passa a noite lendo a história da Revolução.
- Livro II, capítulo 27: Os melhores cargos da Igreja: Pela primeira vez a ideia de bispado se associa ao nome de Julien, na cabeça de uma mulher que distribuirá os melhores cargos da Igreja.
- Livro II, capítulo 34: Um homem de espírito: Recebe as terras do Languedoc e a patente de tenente para o cavaleiro Julien Sorel de La Vernaye, e a fortuna inesperada o torna ambicioso.
- Livro II, capítulo 35: Uma tormenta: Tenente havia dois dias, já calcula o que precisa para ser comandante em chefe aos trinta anos, até a carta da sra. de Rênal derrubar tudo.
- Livro II, capítulo 36: Detalhes tristes: No torreão, sem ambição, Julien constata que já não pensa no que o ocupava quinze dias antes.
- Livro II, capítulo 38: Um homem poderoso: O abade de Frilair, ao descobrir que Mathilde é amiga da marechala de Fervaques, sobrinha do bispo que escolhe os bispos, enxerga no caso uma via rápida para o episcopado.
- Livro II, capítulo 39: A intriga: A ambição morre no peito de Julien, e o narrador mostra que o remorso que ocupa o lugar dela é outra paixão.
Passagens
A escolha que dá título ao livro, feita por cálculo e com a régua de Napoleão:
A frase que resume o eixo do livro inteiro não usa as palavras "vermelho" e "negro", mas é elas:Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre.
A mesma régua decide a recusa da sociedade com Fouqué:
Ora, eu perderia covardemente sete ou oito anos! Chegaria assim aos vinte e oito, mas, com essa idade, Bonaparte já havia realizado seus maiores feitos!
E entra até no primeiro amor:
Em poucos dias o cálculo cede, e o narrador marca a virada com uma frase que resume todo o livro:Seu amor ainda era ambição; era a alegria de ele, pobre criatura infeliz e tão desprezada, possuir uma mulher tão nobre e tão bela..
No ponto mais alto da subida, a vitória já não basta:
Em Estrasburgo, dois dias depois da patente, a vitória já não basta:Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos.
Na prisão, o narrador anuncia o fim dela e dá nome ao que fica no lugar:
A ambição estava morta em seu peito, outra paixão ressurgira das cinzas; ele a chamava de remorso por ter atirado na sra. de Rênal.