Quem é
Nausícaa é a filha do rei Alcínoo e da rainha Arete, na Esquéria, a terra dos feácios. É uma moça em idade de casar, com cinco irmãos, que vai lavar roupa no rio na manhã em que encontra um náufrago nu. O poema a compara a Ártemis entre as ninfas e faz dela quem aplica a Odisseu a regra de que todo estrangeiro vem de Zeus. Entre a regra e a reputação, ela precisa escolher, e o canto mostra o custo dessa escolha.
Trajetória
No Canto VI, Atena aparece a Nausícaa em sonho com a figura de uma amiga da mesma idade e a repreende por descuidar das roupas, já que o casamento está perto. A ordem de lavar roupa chega como conselho de amiga. Ao acordar, Nausícaa pede a carroça ao pai com razões domésticas, as roupas sujas, a limpeza do rei no conselho, os irmãos que querem roupa lavada para os bailes, e não nomeia o casamento, por pudor. O pai percebe tudo e concede.
Ναυσικάα, τί νύ σʼ ὧδε μεθήμονα γείνατο μήτηρ; / εἵματα μέν τοι κεῖται ἀκηδέα σιγαλόεντα, / σοὶ δὲ γάμος σχεδόν ἐστιν(6.25-27), Nausícaa, por que tua mãe te gerou tão descuidada? Tuas roupas jazem sem trato, brilhantes, e o teu casamento está perto.
αἴδετο γὰρ θαλερὸν γάμον ἐξονομῆναι / πατρὶ φίλῳ. ὁ δὲ πάντα νόει καὶ ἀμείβετο μύθῳ(6.66-67), pois tinha pudor de nomear o florescente casamento ao pai querido; ele, porém, percebia tudo e respondeu.
No rio, lava as roupas e conduz o jogo da bola com as servas, e o narrador a compara a Ártemis. Quando Odisseu sai da mata e as servas fogem, ela fica, porque Atena lhe pôs coragem no peito.
πασάων δʼ ὑπὲρ ἥ γε κάρη ἔχει ἠδὲ μέτωπα, / ῥεῖά τʼ ἀριγνώτη πέλεται, καλαὶ δέ τε πᾶσαι· / ὣς ἥ γʼ ἀμφιπόλοισι μετέπρεπε παρθένος ἀδμής(6.107-109), acima de todas ela ergue a cabeça e a fronte, e é facilmente reconhecível, embora todas sejam belas; assim se destacava entre as servas a virgem ainda não casada.
σμερδαλέος δʼ αὐτῇσι φάνη κεκακωμένος ἅλμῃ, / τρέσσαν δʼ ἄλλυδις ἄλλη ἐπʼ ἠιόνας προὐχούσας· / οἴη δʼ Ἀλκινόου θυγάτηρ μένε· τῇ γὰρ Ἀθήνη / θάρσος ἐνὶ φρεσὶ θῆκε καὶ ἐκ δέος εἵλετο γυίων(6.137-140), terrível apareceu-lhes, maltratado pelo sal; elas fugiram para cá e para lá pelas praias salientes. Só a filha de Alcínoo ficou, pois Atena pôs ânimo no seu peito e tirou o medo dos seus membros.
Ouve a súplica de longe e responde com a regra: Zeus reparte a sorte, e todos os estrangeiros e mendigos vêm dele. Chama as servas de volta, manda dar-lhe comida, bebida e banho. Depois de vê-lo vestido e transformado por Atena, diz às servas que gostaria que um homem assim fosse chamado marido dela, ali.
πρὸς γὰρ Διός εἰσιν ἅπαντες / ξεῖνοί τε πτωχοί τε, δόσις δʼ ὀλίγη τε φίλη τε(6.207-208), pois de Zeus são todos os estrangeiros e mendigos, e a dádiva, ainda que pequena, é querida.
αἲ γὰρ ἐμοὶ τοιόσδε πόσις κεκλημένος εἴη / ἐνθάδε ναιετάων, καί οἱ ἅδοι αὐτόθι μίμνειν(6.244-245), oxalá um homem assim fosse chamado meu esposo, morando aqui, e lhe agradasse ficar neste lugar.
Mas teme o boato de que traria um marido estrangeiro, desprezando os pretendentes da terra, e por isso o manda esperar no bosque de Atena e entrar depois sozinho no palácio. Ensina como pedir ajuda: passar pelo trono do pai e abraçar os joelhos da rainha.
βέλτερον, εἰ καὐτή περ ἐποιχομένη πόσιν εὗρεν / ἄλλοθεν· ἦ γὰρ τούσδε γʼ ἀτιμάζει κατὰ δῆμον / Φαίηκας, τοί μιν μνῶνται πολέες τε καὶ ἐσθλοί. / ὣς ἐρέουσιν, ἐμοὶ δέ κʼ ὀνείδεα ταῦτα γένοιτο(6.282-285), seria melhor que ela mesma tivesse achado marido em outra parte; pois despreza os feácios daqui, que a cortejam, muitos e nobres. Assim dirão, e isso seria censura para mim.
τὸν παραμειψάμενος μητρὸς περὶ γούνασι χεῖρας / βάλλειν ἡμετέρης, ἵνα νόστιμον ἦμαρ ἴδηαι(6.310-311), passando por ele, lança as mãos em torno dos joelhos de minha mãe, para que vejas o dia do retorno.
No Canto VII, chega ao palácio antes do hóspede e vai ao quarto, onde a velha criada acende o fogo. Quando Odisseu aparece diante dos reis, Alcínoo censura a filha por não tê-lo trazido com as servas, e Odisseu a defende dizendo que ela mandou que ele seguisse, mas ele não quis. Foi ela, porém, quem o mandou esperar sozinho no bosque, por medo do boato, e ele assume a decisão e atribui a si o receio. A versão dele tem duas leituras, o tato e o cálculo. Alcínoo diz depois que gostaria que ele fosse seu genro, o que converge com o desejo que ela mesma dissera às servas.
ἡ μὲν γάρ μʼ ἐκέλευε σὺν ἀμφιπόλοισιν ἕπεσθαι, / ἀλλʼ ἐγὼ οὐκ ἔθελον δείσας αἰσχυνόμενός τε, / μή πως καὶ σοὶ θυμὸς ἐπισκύσσαιτο ἰδόντι(7.304-306), pois ela me mandou seguir com as servas, mas eu não quis, por temor e vergonha, de que também a ti o ânimo se irritasse ao nos ver.
αἲ γάρ, Ζεῦ τε πάτερ καὶ Ἀθηναίη καὶ Ἄπολλον, / τοῖος ἐὼν οἷός ἐσσι, τά τε φρονέων ἅ τʼ ἐγώ περ, / παῖδά τʼ ἐμὴν ἐχέμεν καὶ ἐμὸς γαμβρὸς καλέεσθαι / αὖθι μένων· οἶκον δέ κʼ ἐγὼ καὶ κτήματα δοίην, / εἴ κʼ ἐθέλων γε μένοις· ἀέκοντα δέ σʼ οὔ τις ἐρύξει / Φαιήκων· μὴ τοῦτο φίλον Διὶ πατρὶ γένοιτο(7.311-316), ah, Zeus pai, Atena e Apolo! Que sendo tal como és, pensando o que penso, tivesses minha filha e fosses chamado meu genro, ficando aqui; eu te daria casa e bens, se de bom grado ficasses; contra a vontade ninguém dos feácios te reterá; que isto não seja caro a Zeus pai.
No Canto VIII, no fim do banquete, Nausícaa, parada junto à coluna, o olha com admiração e se despede: pede que ele se lembre dela, a quem deve primeiro o preço da vida. Odisseu responde que, se Zeus o fizer chegar em casa, a invocará todos os dias como a uma deusa.
χαῖρε, ξεῖνʼ, ἵνα καί ποτʼ ἐὼν ἐν πατρίδι γαίῃ / μνήσῃ ἐμεῦ, ὅτι μοι πρώτῃ ζωάγριʼ ὀφέλλεις.(8.461-462), salve, estrangeiro, para que um dia, estando em tua terra pátria, te lembres de mim, pois é a mim, primeiro, que deves o preço da tua vida.
Temas que encarna
Nausícaa encarna a Família no lugar da filha: obedece ao pai, esconde o casamento por pudor, protege a reputação e deixa ver o desejo. Também a Identidade, porque é ela quem devolve a Odisseu a figura de hóspede digno, com a roupa e o banho que lhe dá. A regra de Zeus que ela cumpre é o que o poema chama de hospitalidade, e o seu gesto fundamenta o Lar, exílio e retorno: é ela quem o encaminha à corte.
O desejo de Nausícaa e o cuidado com o nome não se resolvem: o texto mostra os dois ao mesmo tempo, na mesma fala, e a escolha dela é guardar o desejo e proteger a casa. A regra que ela aplica, a de que todo estrangeiro vem de Zeus, corrige o instinto de medo das servas, e o canto mostra que a hospitalidade dos feácios depende da coragem de quem a aplica.
Relações
- Odisseu: o náufrago que ela acolhe, orienta e perde, e a quem pede, na despedida, que se lembre dela, a quem deve a vida.
- Alcínoo: o pai que lhe concede a carroça por entender o que ela não diz.
- Atena: a deusa que a usa para abrir o caminho do herói, por um sonho e por uma bola mal jogada.
- Zeus: o deus em nome de quem ela acolhe.