Quem é
Fietiukóvitch é o advogado de Mítia, um defensor célebre vindo de Petersburgo, que aceitou o caso mais pela fama que pelo dinheiro (capítulo I do Livro XI), magro e comprido, de rosto de ave e olhos muito próximos (capítulo I do Livro XII). O promotor Hippolit Kiríllovitch o teme como a um velho inimigo dos tempos de Petersburgo (capítulo I do Livro XII). Foi pago com três mil rublos, dados por Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, por Ivan Fiódorovitch Karamázov e por Catierina Ivánovna, e ouviu Aliócha, mas disse que já tinha opinião formada e que pesaria o que ouviu (capítulo I do Livro XI). Mítia o julga culpado e não acredita nele (capítulo IV do Livro XI). Estudou o processo em três dias e, em vez de propor uma versão alternativa, mancha uma a uma as testemunhas da acusação (capítulo II do Livro XII). O que o define é o ofício: sabe que a psicologia é um instrumento que dá o que se quiser, diz que depende de quem a maneja (capítulo X do Livro XII), e quer salvar o réu, ainda que a versão que apresenta seja só parcialmente verdadeira. O que ignora é a verdade do Livro XI; o que não prevê é o júri de funcionários e camponeses.
Trajetória
No capítulo I do Livro XII entra na sala depois de Mítia, e todos esperam a chegada dele. No capítulo II do Livro XII as damas, que querem a absolvição, estão convencidas da culpa, e os homens querem ver o que ele consegue tirar de um caso perdido. Nas testemunhas da acusação, o método é a mancha. Faz Rakítin admitir que não devolveu os vinte e cinco rublos de Grúchenka, e Grigori hesitar sobre as portas do paraíso. Ao capitão Snieguiriov, que chega bêbado, pergunta pela humilhação, e o capitão recusa:
Бог с ними-с. Илюшечка не велел. Мне бог там заплатит-с. [...] Илюшечка, сыночек мой: «Папочка, папочка, как он тебя унизил!» У камушка произнес. Теперь помирает-с…, que Deus os guarde. Iliúchetchka não quis. Deus me pagará lá [...] Iliúchetchka, meu filhinho: "Papai, papai, como ele te humilhou!" Falou junto à pedrinha. Agora está morrendo...
No capítulo III do Livro XII a perícia médica ajuda pouco, e quem produz o efeito é o velho doutor Herzenstube, que conta o menino Mítia sem botinas e a libra de nozes. O advogado, que não contava com isso, vai guardar a anedota para o discurso:
Я сейчас приехал и пришел вас благодарить за фунт орехов; ибо мне никто никогда не покупал тогда фунт орехов, а вы один купили мне фунт орехов, acabo de chegar e vim agradecer pela libra de nozes; porque ninguém nunca me comprou naquele tempo uma libra de nozes, e o senhor foi o único que me comprou uma libra de nozes.
No capítulo IV do Livro XII, ao perguntar a Grúchenka dos vinte e cinco rublos de Rakítin, faz aparecer o parentesco que ninguém conhecia e desmonta o discurso aplaudido do seminarista. No capítulo IX do Livro XII as damas esperam o grande discurso dele, tranquilas, depois do promotor.
No capítulo X do Livro XII começa direto, simples, sem frases sonoras, e formula a tese no início, porque não guarda efeitos:
подавляющая совокупность фактов против подсудимого и в то же время ни одного факта, выдерживающего критику, если рассматривать его единично, самого по себе!, uma esmagadora soma de fatos contra o réu, e ao mesmo tempo nenhum fato que resista à crítica, se examinado isoladamente, em si mesmo!
Elogia o promotor como psicólogo para lembrar que a psicologia é perigosa nas mãos de um artista:
Но ведь психология, господа, хоть и глубокая вещь, а все-таки похожа на палку о двух концах, mas a psicologia, senhores, ainda que coisa profunda, se parece com uma vara de duas pontas.
Vira o argumento do promotor do avesso: o assassino que pula para ver se a testemunha morreu teria rematado a testemunha, e conclui:
из нее можно вывесть всё что угодно. Всё дело, в каких она руках., dela se pode tirar o que se queira. Tudo depende de em que mãos esteja.
No capítulo XI do Livro XII nega o dinheiro e, com ele, o roubo. Só Smierdiakóv viu os três mil, e o envelope no chão pode ter sido aberto e lançado pelo velho. Cita o caso de Petersburgo em que a quantia, a composição das cédulas e a confissão bateram, e devolve ao promotor o vocabulário dele:
И такими-то романами мы готовы погубить жизнь человеческую!, e com romances assim estamos prontos a destruir uma vida humana!
E fixa o ponto jurídico:
нельзя обвинять в грабеже, если нельзя указать с точностью, что именно ограблено, это аксиома!, não se pode acusar de roubo se não se pode indicar com exatidão o que foi roubado; é um axioma!
No capítulo XII do Livro XII sustenta que Mítia não matou e atribui a Smierdiakóv, a quem descreve como desconfiado, ambicioso, rancoroso e invejoso, a ideia terrível e irresistível, concebida ao acordar com o grito de Grigori. Responde à pergunta do bilhete, por que o criado não confessou na carta:
Отчаяние и раскаяние — две вещи совершенно различные., desespero e remorso são duas coisas completamente diferentes.
E adverte os jurados:
Господа присяжные заседатели, поберегитесь судебной ошибки!, senhores jurados, cuidado com o erro judiciário!
No capítulo XIII do Livro XII passa ao parricídio. O que perde o réu, diz, é o cadáver do pai, e lembra o menino sem botinas. Define o que é um pai:
родивший не есть еще отец, а отец есть — родивший и заслуживший, quem gerou ainda não é pai; pai é quem gerou e mereceu.
E expõe como o jovem raciocina diante de um pai indigno:
Отец, скажи мне: для чего я должен любить тебя? Отец, докажи мне, что я должен любить тебя?, pai, diga-me: para que devo te amar? Pai, prove-me que devo te amar?
Pede aos jurados que punam, se for preciso, mas para salvar:
Но хотите ли вы наказать его страшно, грозно, самым ужасным наказанием, какое только можно вообразить, но с тем чтобы спасти и возродить его душу навеки? Если так, то подавите его вашим милосердием!, mas querem puni-lo de modo terrível, ameaçador, com o mais horrível castigo que se possa imaginar, contanto que salvem e façam renascer a sua alma para sempre? Se é assim, esmaguem-no com a vossa misericórdia!
E fecha devolvendo ao promotor a tróica:
Не бешеная тройка, а величавая русская колесница торжественно и спокойно прибудет к цели., não a troika desembestada, mas a majestosa carruagem russa, solene e tranquila, chegará ao seu fim.
No capítulo XIV do Livro XII, depois da réplica do promotor, responde com dignidade e com o provérbio de Júpiter, e as damas o consideram o vencedor. Enquanto os jurados deliberam, fala dos fios invisíveis que o ligam a eles e está certo do êxito. O narrador registra o resultado:
И потом по всем пунктам пошло всё то же: виновен да виновен, и это без малейшего снисхождения!, e depois, em todos os pontos, seguiu-se o mesmo: culpado e culpado, e isso sem a menor indulgência!
Temas que encarna
Fietiukóvitch é o homem de Razão posta a serviço da Justiça e lei, e o romance o mostra usando os instrumentos que o promotor usa, a psicologia e a hipótese, com a diferença de que ele sabe que são instrumentos. É a razão que sabe de si que é instrumento: tudo se pode tirar dela, depende das mãos (capítulo X do Livro XII). O tema que ele carrega também é o de Família, na definição de pai como quem gerou e mereceu (capítulo XIII do Livro XII), apoiada na história do menino sem botinas e das nozes (capítulo III do Livro XII).
O advogado acerta no fato e erra no caminho. Atribui o crime a Smierdiakóv, o que o leitor sabe verdadeiro, mas reconstrói a decisão do criado como impulso de uma noite, quando o criado a planejou por inteiro (capítulo XII do Livro XII); e pede a absolvição em nome da misericórdia, não da inocência, o que dá à culpa de Mítia o formato de efeito de um gesto alheio, quando no Livro XI ela é escolha dele (capítulo IV do Livro XI, capítulo XIII do Livro XII). Nenhum dos dois discursos, o dele e o do promotor, ouve o que Mítia diz de si: cada um precisa que Mítia seja simples para fechar a tese (capítulo XIV do Livro XII).
Leituras divergentes
O livro põe em cena duas leituras do que o advogado faz. Para o promotor, a tese de que o pai precisa merecer o título é uma ameaça à família e aos fundamentos da sociedade:
Но если отцеубийство есть предрассудок и если каждый ребенок будет допрашивать своего отца: „Отец, зачем я должен любить тебя?“ — то что станется с нами, что станется с основами общества, куда денется семья?, mas se o parricídio é um preconceito, e se cada criança passar a interrogar o pai: "Pai, para que devo amar-te?", o que será de nós, o que será dos fundamentos da sociedade, para onde irá a família?
Na plateia, porém, quem sai por cima é o advogado: responde com dignidade e as damas consideram o promotor esmagado para sempre (capítulo XIV do Livro XII).
Pela leitura do promotor, o defensor é um sofista que dissolve o pai num contrato (capítulo XIV do Livro XII). Pela do próprio defensor, a definição de pai é a única que o tribunal pode usar para não tratar como parricida um homem criado como animal selvagem (capítulo XIII do Livro XII). O texto sustenta as duas e acrescenta uma terceira: a sala aplaude a tese e o júri a ignora, o que mostra que a eloquência dele não decide o veredicto, e na escada se ouve que os mujiques defenderam o seu lugar (capítulo XIV do Livro XII).
Relações
- Dmitri Fiódorovitch Karamázov: o cliente que não acredita nele (capítulo IV do Livro XI) e que, no fim, agradece aos dois oradores e pede que não creiam nos médicos (capítulo XIV do Livro XII).
- Hippolit Kiríllovitch: o adversário que ele teme e a quem devolve a psicologia, o romance e a tróica (capítulo X do Livro XII, capítulo XI do Livro XII, capítulo XIII do Livro XII).
- Rakítin: a testemunha que ele desmonta com a pergunta dos vinte e cinco rublos (capítulo II do Livro XII, capítulo IV do Livro XII).
- Grigori: a testemunha que ele tenta ridicularizar sem ceder a porta (capítulo II do Livro XII).
- Smierdiakóv: o morto a quem atribui o crime sem saber que o criado o planejou (capítulo XII do Livro XII).
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o irmão que o contrata e a quem interroga sobre a última conversa com Mítia (capítulo IV do Livro XII).