Clavis Libri

Personagem

Rakítin

Quem é

Rakítin é um seminarista de uns vinte e dois anos, protegido do mosteiro, que espera no canto da cela do stáriets com o rosto atento e um respeito calculado (capítulo II do Livro II). É amigo de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, que o ama mesmo sabendo que ele é inquieto, invejoso e se considera honesto só porque não roubaria dinheiro da mesa (capítulo VIII do Livro II). É filho de padre e carrega a origem como ferida: quando Aliócha pergunta, na alameda do mosteiro, se Grúchenka não é parenta dele, Rakítin explode de vergonha e ódio e se defende como o plebeu diante de fidalgos que se acham nobres (capítulo VII do Livro II). O romance só confirma o parentesco no tribunal: Grúchenka é prima dele, filha de uma irmã da mãe dele, e ele lhe pedia que não contasse a ninguém (capítulo IV do Livro XII). Quer subir, e a pena é o instrumento: o texto lhe atribui a brochura Vida do stáriets Zossima (capítulo II do Livro XII) e o artigo anônimo dos Boatos sobre o caso de Mítia (capítulo II do Livro XI), e ele planeja um terceiro, para provar que Mítia não podia deixar de matar (capítulo IV do Livro XI). O traço que o define é ler os outros com acerto e medir tudo pelo que a situação lhe rende.

Trajetória

No capítulo VII do Livro II, depois que Zossima manda Aliócha deixar o mosteiro quando ele morrer, Rakítin o intercepta na alameda de pinheiros. Quer saber o que significou a prosternação diante de Mítia e já traz a resposta que lhe convém: o velho farejou um crime e fez o gesto para valer em qualquer caso, de modo que depois se dissesse que profetizou. Prevê o crime entre o pai e Dmitri Fiódorovitch Karamázov e responde à certeza de Aliócha de que Mítia despreza Grúchenka:

Тут, брат, презрение не помогает, Aqui, irmão, o desprezo não adianta.
Livro II: Uma reunião intempestiva

Resume então a família em três categorias, uma frase que reduz cada Karamázov a um tipo:

сладострастники, стяжатели и юродивые!, sensuais, cobiçosos e loucos de Deus!
Livro II: Uma reunião intempestiva

Passa a Ivan Fiódorovitch Karamázov, a quem atribui o desejo de ficar com Catierina Ivánovna e o dote, e ataca a teoria que Ivan sustentou na cela, reduzindo-a a vaidade de colegial:

Нет бессмертия души, так нет и добродетели, значит, всё позволено, Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, portanto tudo é permitido.
Livro II: Uma reunião intempestiva

A raiva tem causa pessoal: Ivan, na casa de Catierina Ivánovna, previra para ele uma carreira de arquimandrita ou de editor de revista em Petersburgo que acabaria dono de prédio, e Rakítin soube disso de dentro do quarto de Grúchenka, ouvindo Mítia contar. No capítulo VIII do Livro II fareja na cozinha o cardápio do almoço do abade, sem convite, e é ele quem mostra a Aliócha que o pai o manda mudar-se hoje mesmo do mosteiro.

No capítulo I do Livro IV chega ao eremitério com a carta da madame Khokhlakova sobre o milagre da viúva Prokhórovna e se adianta: manda um monge dar a notícia ao padre Paíssi antes que Aliócha entregue o bilhete. O texto deixa em aberto por quê, avidez de se fazer notar entre os monges ou cuidado de ficar bem com o mosteiro caso o mestre de Aliócha seja de fato um santo. Depois da morte de Zossima, a mesma senhora o manda ao eremitério para lhe escrever a cada meia hora o que acontece (capítulo I do Livro VII).

No capítulo II do Livro VII encontra Aliócha estirado de bruços sob uma árvore e lê a dor dele pela única régua que tem, a da carreira:

Так ты вот и рассердился теперь на бога-то своего, взбунтовался: чином, дескать, обошли, к празднику ордена не дали!, Então foi por isso que você se zangou com o seu Deus e se rebelou: dizem que o passaram por cima na patente, que não lhe deram a condecoração da festa!
Livro VII: Aliócha

Oferece linguiça e vodca e propõe a casa de Grúchenka, por dois ganhos que o narrador separa: ver a queda do justo e receber vinte e cinco rublos. No capítulo III do Livro VII a cena sai do roteiro dele. Grúchenka lhe atira o dinheiro, passa a tratá-lo como lacaio, e ele, que esperava a queda e viu Aliócha chamá-la de irmã e ouvir a fábula da cebola, pergunta com raiva, na saída:

Что ж, обратил грешницу? [...] Блудницу на путь истины обратил? Семь бесов изгнал, а?, E então, converteu a pecadora? [...] Pôs a perdida no caminho da verdade? Expulsou sete demônios, hein?
Livro VII: Aliócha

Com os meninos, aparece como fonte emprestada. No capítulo III do Livro X Kólia diz a Smúrov que é socialista, repetindo uma ideia do seminarista, e no capítulo VI do Livro X cita o nome de Rakítin quando Aliócha lhe pergunta com que tolo andou. No capítulo I do Livro XI Aliócha atribui a Rakítin a conversa nova de Mítia sobre o menino pobre, e Grúchenka o corrige: quem perturba Mítia é Ivan. No capítulo II do Livro XI a madame Khokhlakova atribui a ele o artigo dos Boatos e conta que o pôs na rua depois de uma cena, em que ele trouxera versos sobre o pé doente dela.

No capítulo IV do Livro XI Aliócha cruza com Rakítin à porta da cadeia, amuado: Mítia, de brincadeira, mandou-o não esquecer o que fosse dos outros, e Rakítin berrou que aquilo era para os Karamázov, raça de servos. Mítia conta a Aliócha que Rakítin lhe ensinou que o pensamento vem de rabinhos de nervos no cérebro e que, em vez de filosofar, devia cuidar dos direitos civis ou da alta da carne. Diz também que Rakítin andava de olho em cento e cinquenta mil rublos ao pé da madame Khokhlakova.

No capítulo II do Livro XII depõe como quem sabe tudo e atribui a tragédia à servidão e à desordem russa, até ser aplaudido, mas escorrega ao chamar Grúchenka de amante de Samsónov. Fietiukóvitch lhe pergunta se é o autor da Vida do stáriets Zossima e depois dos vinte e cinco rublos que ele não devolveu, e Mítia grita Bernard e o acusa de pedir dinheiro emprestado, de ser carreirista e de enganar o bispo. No capítulo IV do Livro XII Grúchenka diz de onde vinham os vinte e cinco rublos, e a revelação do parentesco derruba o que restava da eloquência dele, e no capítulo IX do Livro XII Mítia murmura Bernards ao ouvi-lo citado no discurso do promotor. No capítulo II do Epílogo Mítia proíbe a entrada dele no hospital, e ele tenta duas vezes.

Temas que encarna

Rakítin fala de ciência, de socialismo e de direitos civis, e o romance o põe sempre ao lado de quem sofre pela mesma matéria, para a medida aparecer. Reduz o tudo é permitido a vaidade de colegial (capítulo VII do Livro II), ensina a Mítia que o pensamento é fibra de nervo e que se ama a humanidade sem Deus, e Mítia, queimado, responde com o hino (capítulo IV do Livro XI), e empresta a Kólia ideias que este repete sem ter lido (capítulo VI do Livro X). O tema que ele carrega é o de Razão tomada como ofício e como escada, no contraponto de Ivan, e o de Fé medida como patente (capítulo II do Livro VII).

Rakítin acerta o que vê e erra o que pesa. Acerta que o crime está no ar, que o desprezo de Mítia por Grúchenka não o livra dela (capítulo VII do Livro II) e que Aliócha entende mais do que admite. Erra onde só consegue ver interesse: lê patente onde Aliócha vê a justiça suprema violada (capítulo II do Livro VII) e espera a queda de Aliócha onde acontece o oposto (capítulo III do Livro VII). O que ele esconde, a origem e a prima, é o que o tribunal expõe (capítulo IV do Livro XII); o homem que se envergonha de Grúchenka é desfeito por ela, e a vergonha do começo, na alameda do mosteiro, ganha aí sua cena final.

Leituras divergentes

Para Joseph Frank, na Frank - 07 - Karamazov e a morte, Rakítin é o outro lado do ideal que Ivan encarna:

Se Ivan representa o aspecto da juventude populista que Dostoiévski considerava genuinamente inspirado por ideais cristãos, Rakítin indica a facilidade com que esses ideais, quando separados, mesmo que um pouco, de sentimento por sua fonte original podem converter-se em uma máscara para a maldade e a falsidade
Joseph Frank

Há duas maneiras de ler o seminarista e o texto sustenta as duas. Pela de Frank, ele é a prova de que o ideal humanitário, separado da fonte, serve de máscara: o que Rakítin diz de direitos civis e de servidão (capítulo II do Livro XII) é o discurso que lhe rende aplauso, e o parentesco escondido o desmascara (capítulo IV do Livro XII). Pela outra, é um ressentido que nunca ofereceu ideal nenhum e usa a ideia que estiver à mão para ferir: a defesa dos mujiques contra os monges, o socialismo que Kólia repete, o artigo sobre o determinismo do meio (capítulo IV do Livro XI). Contra a primeira leitura, o texto não mostra Rakítin pregando um ideal que depois trai, mostra um homem que fala dele quando convém. Contra a segunda, o mesmo Rakítin que cobra vinte e cinco rublos é o que diz a Aliócha que o desprezo não livra Mítia (capítulo VII do Livro II), coisa que o romance confirma, e a acusação de carreirismo vem de Mítia, que está em julgamento.

Relações