Quem é
Altisidora é a donzela do castelo dos duques que, na Segunda Parte, finge enamorar-se de Dom Quixote. É uma das damas da casa e faz um papel que os duques lhe deram: o da donzela despeitada de romance de cavalaria, que ama o cavaleiro mais honesto que o ouro de Arábia, é recusada e morre de desdém. O livro a mostra em quatro cenas principais: a que canta sob a grade, com a amiga Emerência (capítulo XLIV da Segunda Parte), a que desmaia à vista do fidalgo (capítulo XLVI da Segunda Parte), a que acusa de ladrão o cavaleiro que vai embora (capítulo LVII da Segunda Parte) e a que morre de mentira e ressuscita nos açoites de Sancho (capítulo LXIX da Segunda Parte). Quer, no papel, o amor do cavaleiro; teme, na vida, o que o papel não prevê; sabe cantar e conhece o estilo dos romances que o fidalgo leu; e se engana, ou a engana a farsa, quando uma palavra a mais lhe passa pela voz. O fidalgo a lê como adoração e responde com a firmeza a Dulcineia, e é esse mal-entendido, calculado pelos duques, que o livro faz rir e deixa à vista.
Trajetória
No capítulo XLIV da Segunda Parte, diante das quatro donzelas da duquesa que vão ajudá-lo a despir-se, o fidalgo as chama de espinhos que lhe punjam a alma e põe uma muralha entre seus desejos e a sua honestidade, para guardar o decoro a Dulcineia; a duquesa cede e até o elogia. Quando se descalça, soltam-se vinte e quatro pontos de uma meia, e o narrador exclama sobre a pobreza do fidalgo. À noite abre uma janela de grade sobre o jardim e ouve Altisidora e a amiga Emerência, que a aconselha a cantar baixo; Altisidora jura que desde que este forasteiro entrou no castelo só sabe chorar. Toca uma harpa e principia um romance:
¡Oh, tú, que estás en tu lecho, entre sábanas de holanda, durmiendo a pierna tendida de la noche a la mañana, ó tu, que estás em teu leito, entre lençóis de holanda, dormindo à perna solta, da noite até a manhã.
Os versos têm a forma dos que o fidalgo leu, a donzela que pede ao cavaleiro mais honesto do que o ouro de Arábia, e a deformam aqui e ali: Dulcineia é donzela rechonchuda e sã, e o que a moça quer é estar nos braços dele, ou ao menos junto à cama, coçando-lhe a cabeça e matando-lhe a caspa. Duas leituras: paródia que o livro faz do romance cortês, ao misturar a Tarpeia com a idade de catorze anos e três meses, ou peça das damas dos duques, escrita na gramática dos romances para pegar o cavaleiro que a espera. O fidalgo, ouvido o canto, diz entre si que está fadado a ser tão desditoso andante que donzela alguma que o veja deixe de se enamorar dele, e pede às rainhas e imperatrizes que deixem Dulcineia triunfar:
para sola Dulcinea soy de masa y de alfenique, y para todas las demás soy de pedernal; para ella soy miel, y para vosotras acíbar, só para Dulcineia sou de massa e de alfenim, e para todas as demais sou de pederneira; para ela sou mel, e para vós, acíbar.
O fidalgo fala para si, e Altisidora não o ouve, mas a fala mostra como ele lê a cena: rainhas, imperatrizes e donzelas de catorze a quinze anos acossam Dulcineia, e ele é o prêmio que ela tem de defender, cozido ou assado. A frase que a abre, a de que não há donzela que o veja sem se enamorar, é o que os livros lhe garantiram. Duas leituras: fidelidade posta à prova, que dura cozido ou assado, ou vaidade de cavaleiro que se defende de um assédio que os livros lhe garantiram.
No capítulo XLVI da Segunda Parte, de manhã, o fidalgo se veste de camurça, calça as botas de caminho para encobrir a desgraça de suas meias e sai com muita prosopopeia à antessala onde esperam os duques. Numa galeria estão de emboscada Altisidora e a amiga, e ela finge um desmaio ao vê-lo. Ele diz que sabe de que procedem esses acidentes e pede que lhe ponham um alaúde no aposento: com ele consolará como puder a lastimada donzela, porque nos princípios amorosos os desenganos prestos costumam ser remédios qualificados. Às onze da noite acha uma viola no aposento, afina-a, abre a grade e canta um romance que ele mesmo compôs, em que as donzelas recolhidas têm por dote a honestidade, os cavaleiros requebram as livres e casam com as honestas, e a imagem de Dulcineia está pintada em sua tábua rasa de modo que é impossível apagá-la. Fecha o romance com a firmeza:
La firmeza en los amantes es la parte más preciada, por quien hace amor milagros, y asimesmo los levanta, a firmeza nos amantes é a parte mais prezada, por quem faz amor milagres, e também os levanta.
O fidalgo canta para a donzela que o ouve e pela dama que não está, e o que ele põe acima de tudo no romance não é o amor, mas a firmeza. O remédio que prometera à tarde, o desengano pronto, vem agora em verso, com uma plateia que ele não vê: os duques e quase todo o castelo escutam. Duas leituras: profissão sincera de uma fé que não aprendeu a trocar, ou recusa em forma de exibição, em que o amante constante aparece à frente da dama a quem é constante. Dos gatos que a duquesa solta no aposento dele, no mesmo capítulo, um salta-lhe ao rosto e lhe agarra o nariz; Altisidora, com as próprias mãos, lhe põe as ataduras e lhe diz em voz baixa:
Todas estas malandanzas te suceden, empedernido caballero, por el pecado de tu dureza y pertinacia; y plega a Dios que se le olvide a Sancho tu escudero el azotarse, porque nunca salga de su encanto esta tan amada tuya Dulcinea, ni tú lo goces, ni llegues a tálamo con ella, a lo menos viviendo yo, que te adoro, todas estas desventuras te acontecem, empedernido cavaleiro, pelo pecado de tua dureza e pertinácia; e queira Deus que se esqueça a Sancho teu escudeiro de açoitar-se, para que nunca saia de seu encanto esta tão amada tua Dulcineia, nem tu a gozes, nem cheguem ao tálamo com ela, ao menos enquanto eu viver, que te adoro.
A moça junta numa frase o castigo da noite, o desencanto de Dulcineia, que ela sabe depender dos açoites de Sancho, e a declaração de amor, e a diz em voz baixa, perto, como quem tem as mãos na ferida. O papel que lhe deram é o de donzela despeitada, e ela o desempenha com uma palavra a mais do que a burla pedia. Duas leituras: o despeito que os duques lhe deram para dizer, e que ela diz com gosto, ou uma fenda no papel, por onde passa algo que não é da encenação.
No capítulo LVII da Segunda Parte, na manhã em que o fidalgo parte armado, entre as aias e donzelas que o olham do castelo, Altisidora levanta a voz e canta um poema de repúdio:
Escucha, mal caballero; detén un poco las riendas; no fatigues las ijadas de tu mal regida bestia [...] Cruel Vireno, fugitivo Eneas, Barrabás te acompañe; allá te avengas, escuta, mau cavaleiro, / detém um pouco as rédeas, / não fatigues as ilhargas / da tua mal regida besta [...] Cruel Vireno, fugitivo Eneias, / Barrabás te acompanhe; lá te avenhas.
O refrão invoca Eneias, o amante que foge de Dido na Eneida de Virgílio, e Vireno, nome que vem de Bireno, o amante infiel de Olímpia no Orlando Furioso, de Ariosto: a paródia só funciona porque quem ouve já conhece o modelo sério que ela distorce. A queixa é de Altisidora e, ao mesmo tempo, dos duques, que fazem da despedida mais uma cena de livro e, numa estrofe, ligam o desencanto de Dulcineia à dureza das entranhas de Sancho. A moça acusa o fidalgo e o escudeiro de terem levado três toucadores e ligas dela; o fidalgo promete devolver os toucadores, que Sancho confessa ter, e nega as ligas, e não toca no amor que o poema cobra. Para ele a única acusação que o alcança é a de ladrão, que fere a honra de cavaleiro.
No capítulo LXVII da Segunda Parte, o fidalgo pergunta a Sancho o que Deus fez de Altisidora, se chorou a ausência dele ou entregou ao esquecimento os pensamentos enamorados, e explica:
mucha diferencia hay de las obras que se hacen por amor a las que se hacen por agradecimiento. Bien puede ser que un caballero sea desamorado, pero no puede ser, hablando en todo rigor, que sea desagradecido [...] Yo no tuve esperanzas que darle, ni tesoros que ofrecerle, porque las mías las tengo entregadas a Dulcinea, muita diferença há entre as obras que se fazem por amor e as que se fazem por agradecimento. Bem pode ser que um cavaleiro seja desenamorado, mas não pode ser, falando em todo o rigor, que seja desagradecido [...] Eu não tive esperanças que dar-lhe, nem tesouros que oferecer-lhe, porque as minhas as tenho entregues a Dulcineia.
O fidalgo trata a pergunta pela moeda que conhece, a dívida de cavaleiro, e com isso se poupa de dizer o que sente. Altisidora o queria bem, ao que lhe parece, porque lhe deu os três toucadores, chorou na partida e o maldisse em público, sinais de que o adorava. Duas leituras: a cortesia consequente de quem se obriga a não desprezar quem o amou, ou o amor-próprio lisonjeado de quem lê como adoração tudo o que a moça fez na farsa dos duques, farsa que o leitor já conhece e ele não.
No capítulo LXIX da Segunda Parte, os duques fazem o funeral dela com quase cem tochas, um túmulo de duas varas de altura e dois reis de coroa e cetro, Minos e Radamanto. Ela está morta no túmulo, coroada de flores, com uma palma amarela nas mãos. Para devolvê-la à luz, mandam selar o rosto de Sancho com vinte e quatro tapas, doze beliscões e seis alfinetadas, e o fidalgo oferece o mesmo argumento que ele próprio aceita, a dor como virtude. Quando ela se mexe e se senta, olhando de través para o fidalgo, diz:
Dios te lo perdone, desamorado caballero, pues por tu crueldad he estado en el otro mundo, a mi parecer, más de mil años; y a ti, ¡oh el más compasivo escudero que contiene el orbe!, te agradezco la vida que poseo. Dispón desde hoy más, amigo Sancho, de seis camisas mías que te mando para que hagas otras seis para ti; y, si no son todas sanas, a lo menos son todas limpias, Deus te perdoe, cavaleiro desenamorado, pois por tua crueldade estive no outro mundo, a meu ver, mais de mil anos; e a ti, oh o mais compassivo escudeiro que o orbe contém, te agradeço a vida que possuo. Dispõe desde hoje, amigo Sancho, de seis camisas minhas que te mando para que faças outras seis para ti; e, se não são todas sãs, ao menos são todas limpas.
A moça divide o papel em dois: ao fidalgo, a acusação, que é o que cabe à dama desdenhada de romance; ao escudeiro, o agradecimento e o pagamento, que é o que lhe interessa. O pagamento é em camisas, e o oferecimento tem a cortesia de quem dá o pouco que tem. Duas leituras: a gentileza de quem faz o seu papel até o fim, ou a última zombaria da burla, que paga em camisas o serviço do escudeiro e deixa o amo só com a censura. No capítulo LXX da Segunda Parte, ela conta o que viu na entrada do inferno:
yo no debí de morir del todo, pues no entré en el infierno [...] llegué a la puerta, adonde estaban jugando hasta una docena de diablos a la pelota [...] y lo que más me admiró fue que les servían, en lugar de pelotas, libros, al parecer, llenos de viento y de borra, eu não devo de ter morrido de todo, pois não entrei no inferno [...] cheguei à porta, onde estavam jogando pelota até uma dúzia de diabos [...] e o que mais me admirou foi que lhes serviam, em lugar de pelotas, livros, ao que parece cheios de vento e de borra.
O objeto do jogo é o livro, e a moça que acaba de ressuscitar vem agora dizer, no tom de uma fábula de inferno, o que o autor pensa de certa literatura: papel inflado de vento e de borra, que se rebate a pés e a raquetes de fogo. O que a moça diz que mais a admira, que ali todos resmungam e se amaldiçoam, ganhem ou percam, dá a medida do tormento: o jogo sem alegria. Um dos livros, diz ela, é a Segunda parte da história de dom Quixote, não composta por Cide Hamete, mas por um aragonês:
Ésta es la Segunda parte de la historia de don Quijote de la Mancha, no compuesta por Cide Hamete, su primer autor, sino por un aragonés, que él dice ser natural de Tordesillas [...] Tan malo -replicó el primero-, que si de propósito yo mismo me pusiera a hacerle peor, no acertara, esta é a Segunda parte da história de dom Quixote de la Mancha, não composta por Cide Hamete, seu primeiro autor, mas por um aragonês que ele diz ser natural de Tordesilhas [...] tão ruim, replicou o primeiro, que se de propósito eu mesmo me pusesse a fazê-lo pior, não acertaria.
A condenação está entregue a diabos, que são juízes da casa, e a frase do primeiro diabo vale por todas as que Cervantes poderia dar em seu nome: o livro é tão ruim que nem pondo-se a piorá-lo de propósito se chegaria lá. Duas leituras: o desforço de um autor que enfim responde, com a ironia de que o dito sai da boca de uma mentirosa assumida, ou uma maneira de fingir indiferença, já que a sentença vem em segunda mão, por uma visão. Dom Quixote responde à notícia com um argumento de existência: não há outro eu no mundo, e a história que anda por aí de mão em mão não para em nenhuma.
Temas que encarna
Altisidora é o Amor posto em cena para ser recusado. A farsa dos duques usa a gramática do romance (a donzela, a grade, a viola, a morte por desdém) para fazer da fidelidade do fidalgo a Dulcineia uma prova pública. O livro mostra o fidalgo vencendo a prova do jeito de sempre, pela firmeza, e mostra a moça passando do papel à voz própria numa frase, a do capítulo XLVI da Segunda Parte.
Em Aparência e realidade, ela é a mais clara das personagens de farsa: a donzela que morre e ressuscita por encomenda. O fidalgo recebe a ressurreição como virtude de Sancho, ainda que lhe fique um escrúpulo sobre se a donzela morrera de verdade (capítulo LXXI da Segunda Parte). A mesma casa que lhe faz o funeral lhe faz a viola, os gatos e as ataduras.
O tema de Linguagem e narração passa por ela quando conta o inferno: a moça vira crítica do livro rival, e o fidalgo vira personagem que responde à duplicata (capítulo LXX da Segunda Parte). A cena é o gesto de um livro que se defende de outro livro: a resposta ao apócrifo que o prólogo da Segunda Parte recusava dar (prólogo da Segunda Parte) vem, afinal, pela boca de uma personagem de farsa.
Leituras divergentes
O livro dá duas leituras do amor de Altisidora, e nenhuma é desmentida. A moça diz em voz baixa ao fidalgo que o adora, e a frase tem a forma de uma fala de encenação (capítulo XLVI da Segunda Parte). O fidalgo, mais tarde, derrotado em Barcelona, lê isso como adoração e como dívida de cavaleiro (capítulo LXVII da Segunda Parte). Quem lê como encenação vê uma donzela que cumpre o papel até o fim; quem lê como fenda no papel vê uma voz que passa.
As leituras divergem sobre o peso da burla. O narrador, no capítulo LXX da Segunda Parte, a julga uma demência igual à do fidalgo, e o livro mostra o custo em Sancho (os tapas, os beliscões, as alfinetadas, capítulo LXIX da Segunda Parte) e no fidalgo (o gato, o desgosto, capítulo XLVI da Segunda Parte). Altisidora paga a conta de modo diferente: ressuscita fazendo-se de desmaiada, oferece camisas a quem apanhou por ela e vai embora, e o livro não diz o que ela sentiu. Contra a leitura de que ela é mera peça de farsa vale lembrar a frase do capítulo XLVI da Segunda Parte; contra a de que ela ama de verdade, que no capítulo LXIX da Segunda Parte ela fala o papel até o fim.
Relações
- Dom Quixote: o cavaleiro que ela canta e acusa (capítulo XLIV da Segunda Parte, capítulo LVII da Segunda Parte) e que, firme em Dulcineia, a lê como adoração (capítulo LXVII da Segunda Parte).
- Sancho Pança: o escudeiro cujo rosto paga a ressurreição dela, e a quem ela promete seis camisas (capítulo LXIX da Segunda Parte).
- Os duques: os que lhe dão o papel, a viola e o túmulo, e que a mandam cantar na despedida (capítulo XLIV da Segunda Parte, capítulo LVII da Segunda Parte, capítulo LXIX da Segunda Parte).
- Dulcineia del Toboso: a outra dama da história, que ela chama de rechonchuda e sã, e de quem o desencanto depende dos açoites de Sancho (capítulo XLIV da Segunda Parte, capítulo XLVI da Segunda Parte).
- Cide Hamete Benengeli: o historiador que julga os duques tão loucos quanto os burlados (capítulo LXX da Segunda Parte).