Quem é
Ginés de Pasamonte é o último da cadeia de galeotes que Dom Quixote liberta na Primeira Parte, e o mesmo homem que, na Segunda, se apresenta como mestre Pedro, o titereiro de um macaco adivinho e de um retábulo de Melisendra. Em 1605 ele é um preso de mãos atadas com cadeado e duas argolas na garganta, condenado a dez anos por mais delitos que todos os outros juntos, e o livro lhe dá uma só fala longa, em que corrige o nome que o fidalgo lhe dá e anuncia que a vida dele está escrita por estes polegares (capítulo XXII da Primeira Parte). Em 1615 aparece disfarçado, com o olho esquerdo coberto, e só na abertura do capítulo XXVII, um capítulo depois do retábulo, o narrador diz que é ele (capítulo XXVII da Segunda Parte). Quer ser dono do próprio nome e acabar o livro da própria vida; teme a Santa Irmandade, e por isso recusa levar a cadeia ao Toboso (capítulo XXII da Primeira Parte); sabe tirar proveito das aldeias, informando-se do lugar antes de entrar e respondendo, tomando o pulso, ao que lhe perguntam (capítulo XXVII da Segunda Parte); e se engana ao supor o fidalgo inofensivo: reencontra-o como titereiro, e o fidalgo, sem reconhecê-lo, lhe destrói o retábulo (capítulo XXVI da Segunda Parte).
Trajetória
No capítulo XXII da Primeira Parte, o fidalgo vê vir pelo caminho uns doze homens ensartados por uma grande cadeia de ferro pelos pescoços, com algemas nas mãos, escoltados por dois homens a cavalo com escopetas de roda e dois a pé. Pergunta a causa de cada um e ouve de um que amou demais uma cesta de roupa branca, de um canário que confessou no tormento, de um a quem faltaram dez ducados, de um alcoviteiro e de um estudante que se burlou de primas e irmãs. O último vem atado de outro modo, com uma cadeia ao pé que lhe dá voltas ao corpo, duas argolas na garganta e as mãos presas com cadeado, de modo que não chega com elas à boca nem baixa a cabeça às mãos. A guarda diz que é o famoso Ginés de Pasamonte, também chamado Ginesillo de Parapilla. Ele não admite:
yo soy Ginés de Pasamonte, cuya vida está escrita por estos pulgares, eu sou Ginés de Pasamonte, cuja vida está escrita por estes polegares.
Ginés corrige o nome antes de responder ao fidalgo: Ginés e não Ginesillo, Pasamonte e não Parapilla. Quer ser dono do próprio nome, e o livro que garante isso é a vida escrita por estes polegares, frase de quem tem as mãos presas. O comissário confirma que o livro existe e está empenhado no cárcere por duzentos reais, que Ginés pensa em resgatar por duzentos ducados. Ginés diz que o livro é tão bom que mau ano para Lazarillo de Tormes e para todos quantos do gênero se escreveram ou escreverem, porque trata verdades tão lindas e donosas que nenhuma mentira se lhe iguala. O livro se intitula A vida de Ginés de Pasamonte, e, perguntado se está acabado, ele responde:
¿Cómo puede estar acabado [...], si aún no está acabada mi vida?, como pode estar acabado, se ainda não está acabada minha vida?
Para Ginés, a vida é um livro em andamento, e as galés, o lugar onde terá sossego para acabá-lo, porque lá lhe sobram coisas a dizer; responde como autor e não como condenado. Pode ser vaidade de rufião que se compara ao Lazarillo, e pode ser a conta exata de um texto que só fecha com a vida: a condenação entra no livro em vez de interrompê-lo. Ao fidalgo, que acha que ele parece hábil, responde que é desditoso, porque as desditas perseguem o bom engenho, e o comissário retruca que perseguem os velhacos. Quando o fidalgo conclui de tudo o que ouviu que a justiça falhou com cada um e pede aos guardas que os soltem, Sancho ajuda a soltura de Ginés, que é o primeiro a saltar livre, toma do comissário a espada e a escopeta, e as guardas fogem diante da escopeta e das pedradas dos soltos. Ginés responde por todos que não podem cumprir o encargo de se apresentar a Dulcineia, porque não podem andar juntos pelos caminhos, mas só e divididos, e que o fidalgo mude esse serviço em ave-marias e credos; e, quando o fidalgo, em cólera, o chama de dom filho da puta, dom Ginesillo de Paropillo, e ordena que vá ele só, com toda a cadeia às costas, Pasamonte, que não era nada bem sofrido e já sabia que o fidalgo não era são de juízo, faz sinal aos companheiros, e chovem pedras sobre dom Quixote. Os soltos quebram-lhe a bacia nas costas e levam-lhe a roupilha, e as meias-calças só não levam porque as grevas o impedem; a Sancho, o gabão. A gratidão que o fidalgo pedia foi paga com pedras. No capítulo XXX da Primeira Parte, o fidalgo defende o ato pela regra do ofício: o cavaleiro vê a pena e não pergunta pela culpa. O ruço de Sancho some na Serra Morena sem que o livro de 1605 diga como; o de 1615 o explica (capítulo IV da Segunda Parte, capítulo XXVII da Segunda Parte).
Na Segunda Parte, no capítulo XXV da Segunda Parte, chega à estalagem um homem de olho coberto, com um macaco e um retábulo: é mestre Pedro, titereiro. O estalajadeiro explica ao fidalgo que o macaco, quando perguntado, salta ao ombro do dono e lhe diz a resposta ao ouvido, e que mestre Pedro a declara; sabe mais do passado que do futuro, cobra dois reais por pergunta e dá a impressão de ter o diabo no corpo. Sancho, que não esquece a gruta de Montesinos, pede ao amo que mande o macaco dizer se foi verdade o que viveu lá, porque para ele tudo foi embuste. O fidalgo concorda, com um não sei que de escrúpulo, e o macaco responde, pelo dono:
El mono dice que parte de las cosas que vuesa merced vio, o pasó, en la dicha cueva son falsas, y parte verisímiles, o macaco diz que parte das coisas que vossa mercê viu, ou passou, na dita gruta são falsas, e parte verossímeis.
A resposta cabe em qualquer boca: Sancho lê nela a confirmação de que mentiu, e o amo lê o convite ao tempo, que descobre tudo. O macaco usa a palavra que Cide Hamete usou na margem, verossímil, e recusa-se a dizer onde passa a linha. Uma resposta assim não custa nada ao titereiro e deixa os dois ouvintes contentes. No capítulo XXVI da Segunda Parte, o moço intérprete de mestre Pedro anuncia a história de dom Gaiferos, que livra a esposa Melisendra do cativeiro entre os mouros de Sansueña, e o fidalgo interrompe para corrigir cada detalhe por zelo de verdade. Mestre Pedro responde da trincheira do ofício:
¿No se representan por ahí, casi de ordinario, mil comedias llenas de mil impropiedades y disparates, y, con todo eso, corren felicísimamente su carrera, y se escuchan no sólo con aplauso, sino con admiración y todo?, não se representam por aí, quase de ordinário, mil comédias cheias de mil impropriedades e disparates, e mesmo assim correm felicíssimas a sua carreira e se escutam não só com aplauso, mas até com admiração?
O teatro vive de impropriedades, e o público aplaude. Dom Quixote dá razão e logo perde o que acabou de conceder: quando os mouros saem em perseguição de Gaiferos e Melisendra, ele julga vê-los de verdade, saca a espada e destroça o retábulo. Mestre Pedro grita:
estos que derriba, destroza y mata no son verdaderos moros, sino unas figurillas de pasta. ¡Mire, pecador de mí, que me destruye y echa a perder toda mi hacienda!, estes que derruba, destroça e mata não são mouros verdadeiros, e sim umas figurinhas de pasta. Olhe, pobre de mim, que me destrói e me arruína toda a fazenda!
Mestre Pedro não diz é uma peça, diz o que as figuras são, pasta, e o que custam, a fazenda dele. O apelo é de ofício, não de teoria, e dom Quixote não o ouve: na cabeça do fidalgo, a escala é outra, e o que se perde é um cavaleiro e uma dama. A teoria dos encantadores faz aqui um serviço novo: não nega o estrago e protege a visão. O fidalgo diz ter visto as figuras como eram, e quem as trocou foi outro, de modo que o erro é dos que o perseguem e não da percepção; ao mesmo tempo, condena-se em custas e se oferece a pagar. No capítulo XXVII da Segunda Parte, Cide Hamete abre o capítulo jurando como católico cristão e revela quem era mestre Pedro:
Este Ginés de Pasamonte, a quien don Quijote llamaba Ginesillo de Parapilla, fue el que hurtó a Sancho Panza el rucio [...] determinó pasarse al reino de Aragón y cubrirse el ojo izquierdo, acomodándose al oficio de titerero, este Ginés de Pasamonte, a quem dom Quixote chamava Ginesillo de Parapilla, foi quem furtou de Sancho Pança o ruço [...] resolveu passar-se ao reino de Aragão e cobrir o olho esquerdo, acomodando-se ao ofício de titereiro.
O capítulo responde aos críticos do livro impresso, que no capítulo IV da Segunda Parte apontaram o ruço que reaparece sem explicação, e tira o macaco da jurisdição do diabo: dom Quixote suspeitara de pacto, e o truque é informação colhida na vizinhança. Ginés se informa no lugar mais próximo antes de entrar, guarda os casos na memória e responde tomando o pulso de quem pergunta; a resposta sobre a gruta, parte falsa e parte verossímil, agora se lê como a de quem não sabe e cobra dois reais. O macaco foi comprado de cristãos livres da Berberia e treinado a subir ao ombro ao sinal e a murmurar ao ouvido. Ginés reconheceu o fidalgo e Sancho ao entrar na estalagem, e por isso lhe foi fácil pasmá-los; custar-lhe-ia caro se o fidalgo tivesse baixado mais a mão sobre o rei Marsílio.
Temas que encarna
Ginés é a Justiça e lei em carne: o fidalgo o solta sem perguntar a culpa, e ele é, entre todos os galeotes, o que tinha mais delitos. A cena do capítulo XXII da Primeira Parte repete o padrão de Andrés (capítulo IV da Primeira Parte): a boa intenção cavaleiresca produz um dano que volta como pedra. O livro não resolve a pergunta que deixa: o fidalgo errou ao soltar o culpado, ou os tribunais erraram com os outros?
Em Linguagem e narração, Ginés é o autor dentro do livro. Escreve a própria vida em oposição ao Lazarillo, reivindica o nome, empenha o manuscrito no cárcere, e na Segunda Parte faz um teatro de bonecos cujo texto é um romance de França. O personagem que corrige o fidalgo ao dizer que não é Ginesillo é o mesmo que, como mestre Pedro, vê o fidalgo destruir a história que ele conta.
O tema Aparência e realidade passa por ele duas vezes: como disfarce (o olho coberto, o macaco, as histórias do passado) e como objeto de ilusão (as figuras de pasta que o fidalgo toma por mouros). Ginés é o que usa a ficção para viver, e o fidalgo, o que a usa para ser. A cena do capítulo XXVI da Segunda Parte os põe frente a frente sem que um saiba quem é o outro.
Leituras divergentes
O livro dá duas leituras do que Ginés quer. Quando diz que a vida ainda não está acabada e que irá às galés para acabá-la, é vaidade de rufião ou conta exata de um texto que só fecha com a vida (capítulo XXII da Primeira Parte). Quando monta o retábulo, é artista honesto de feira, ou vigarista que explora a credulidade dos hóspedes (capítulo XXV da Segunda Parte, capítulo XXVII da Segunda Parte).
As leituras divergem sobre o que Ginés é para o livro. Quem o lê como a ingratidão que paga o bem com o mal tem as pedras do capítulo XXII da Primeira Parte; quem o lê como artista de feira tem o macaco sem pacto com o diabo e a destreza de quem se informa antes de entrar (capítulo XXVII da Segunda Parte). Contra a primeira leitura vale lembrar que o ofício do titereiro é honesto no que promete, o teatro, e que o fidalgo o indeniza em custas (capítulo XXVI da Segunda Parte); contra a segunda, que o homem que fingia adivinhar a gruta cobrava dois reais por uma resposta que não sabia.
Relações
- Dom Quixote: o fidalgo que o liberta e é apedrejado por ele (capítulo XXII da Primeira Parte) e que, anos depois, lhe destrói o retábulo sem o reconhecer (capítulo XXVI da Segunda Parte).
- Sancho Pança: o escudeiro de quem Ginés furtou o ruço (capítulo XXVII da Segunda Parte) e a quem, na saída, tomou o gabão (capítulo XXII da Primeira Parte).
- Cide Hamete Benengeli: o historiador que revela quem é mestre Pedro e atribui à impressão a falta do furto do ruço (capítulo XXVII da Segunda Parte).
- Sansão Carrasco: o bacharel que, no capítulo IV da Segunda Parte, aponta o erro do jumento que a Segunda Parte resolve pelo mestre Pedro.