Quem é
Fiedka Kátorjni, Fiódor Fiódorovitch pelo batismo e o Galé pela alcunha, é um antigo criado de casa de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, entregue ao recrutamento quinze anos antes e depois condenado aos trabalhos forçados, de onde fugiu para a cidade (capítulo I da Segunda Parte). É o assassino de aluguel do romance, mas o livro quase nunca o mostra assassinando: mostra-o esperando numa ponte, fazendo contas, esquentando o samovar na cozinha de Alexei Kiríllov e cobrando o que lhe prometeram. Fala com a deferência afetada dos mercadores e com o idioma devoto dos que decoraram as frases do culto, e raramente diz o verbo que o define. O traço que o torna central é o de ser a mão que todos precisam e nenhum quer ter mandado.
Trajetória
Quem o apresenta é Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, no capítulo I da Segunda Parte, em tom de curiosidade: o antigo servo do pai, fugido da Sibéria, pronto para tudo, por dinheiro e também por convicções. Horas depois, no capítulo II da Segunda Parte, ele se enfia sob o guarda-chuva de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin no meio da ponte flutuante e já sabe quem ele é. Conta que espera ali há quatro noites, que Piotr lhe promete um passaporte de comerciante mas não confia nele, e que vem por conta própria, pedindo três rublos para o chá. Diz de Piotr o que o cronista recolherá depois como a definição mais exata dele: Piotr trata cada um como o que já decidiu que o outro é, e inventa o homem para viver com ele (capítulo VI da Segunda Parte). Quanto a Stavróguin, diz que Piotr é um e que ele, talvez, seja outro. Stavróguin recusa o dinheiro, manda que não o procure mais e ameaça entregá-lo à polícia; Fiedka responde que o espera na volta.
Na volta, no mesmo lugar, Stavróguin o derruba com raiva acumulada e o larga; Fiedka saca uma faca curta de sapateiro, guarda-a assim que o outro manda e o segue a um passo, com o respeito de quem foi injustamente ofendido. Conta que roubou uma igreja do distrito, entrou para rezar e matou o guarda na briga pelo saco, e que lhe renderam doze rublos. Stavróguin lhe responde que mate mais e roube mais, e Fiedka diz que Piotr lhe diz o mesmo. Diz que viu a porta do capitão aberta e o dinheiro caindo dos bolsos do bêbado e, perguntado se entrou, responde que talvez, que ninguém sabe. Quando Stavróguin lhe joga as cédulas uma a uma na lama, ele se arrasta atrás delas. O que ele disse nessa cena, para o homem que o ouve, é um pedido de permissão em forma de aritmética:
Прикинув на счетах, остепенил себя-с. Потому, разузнамши доподлинно, что сотни полторы рублев всегда могу вынуть, как же мне пускаться на то, когда и все полторы тысячи могу вынуть, если только пообождав? [...] Развязали бы вы меня, сударь, чтоб я то есть знал правду истинную, fiz as contas no ábaco e me contive. Pois, tendo apurado direitinho que sempre posso tirar uns cento e cinquenta rublos, por que me meter nisso, se posso tirar até mil e quinhentos, bastando esperar? [...] O senhor devia me desamarrar, para eu saber a verdade verdadeira.
Stavróguin conta a Dária Pávlovna Chátova, no capítulo III da Segunda Parte, que um diabinho lhe propôs matar Ignat Lebiádkin e Mária Timofêievna Lebiádkina por mil e quinhentos rublos e que ele lhe deu todo o dinheiro da carteira, de modo que o homem agora acha que recebeu o sinal. O crime que a cidade lhe atribui meses depois, o do ícone da Natividade violado no portão da igreja, aparece no capítulo V da Segunda Parte:
O crime é atribuído, quatro meses depois, ao galé Fiedka, mas a maledicência da cidade também soma o nome de Liámchin, sem prova alguma na época dos fatos.
No capítulo VI da Segunda Parte, Kiríllov diz a Piotr que o hospeda na ala dele, que a velha está no hospital, que lhe leu o Apocalipse à noite com chá e que o homem já é cristão e que, de resto, degola. No capítulo VIII da Segunda Parte, Fiedka surge à porta do quarto, sem gorro, como em casa, sorrindo, trazido por Kiríllov, enquanto Stavróguin diz a Piotr que o preço dele também é de mil e quinhentos. No capítulo X da Segunda Parte, o cronista admite que ele e outros podem ter falado antes com alguns operários, e que dois da fábrica Chpigúlin estarão ao lado dele no incêndio.
Na matinê do capítulo I da Terceira Parte, o seminarista que interrompe o discurso de Stiepan cobra dele o nome do galé:
Здесь в городе и в окрестностях бродит теперь Федька Каторжный, беглый с каторги. Он грабит и недавно еще совершил новое убийство. Позвольте спросить: если б вы его пятнадцать лет назад не отдали в рекруты в уплату за карточный долг, то есть попросту не проиграли в картишки, скажите, попал бы он в каторгу? резал бы людей, как теперь, в борьбе за существование? Что скажете, господин эстетик?, anda por aqui, na cidade e nos arredores, Fiedka Kátorjni, fugitivo dos trabalhos forçados. Ele rouba e ainda há pouco cometeu um novo assassinato. Permita-me perguntar: se o senhor, quinze anos atrás, não o tivesse entregado como recruta para pagar uma dívida de carteado, isto é, simplesmente não o tivesse perdido no baralho, diga-me, ele teria ido parar nos trabalhos forçados? Teria degolado gente, como agora, na luta pela existência? O que o senhor diz, senhor esteta?
No capítulo II da Terceira Parte, o cronista afirma que Fiedka participou do incêndio de Zariétchie sem dúvida, e no capítulo III da Terceira Parte Piotr, ao dizer a Stavróguin e a Liza que a morte dos Lebiádkin foi só um roubo, aponta para ele e para o imbecil que mostrava o dinheiro. No capítulo IV da Terceira Parte, na cozinha de Kiríllov, Piotr exige saber por que ele não esperou onde mandaram, e o galé cobra o dinheiro que lhe prometeram por sangue inocente e que Piotr jurou em nome de Stavróguin, e protesta por ser mandado a Petersburgo. Ao cobrar, diz a Piotr o que pensa dele:
что в самого бога, творца истинного, перестал по разврату своему веровать, que por tua devassidão deixaste de crer no próprio Deus, o Criador verdadeiro.
Piotr saca o revólver, Fiedka o derruba com socos na cara e foge com a trouxa. Na manhã seguinte, Lipútin sabe que o galé foi achado morto, com a cabeça rachada, a sete verstas da cidade, e que a polícia suspeita do operário Fomka. Ele se lembra de que, na noite anterior, Piotr dissera que era a última vez que Fiedka bebia vodca. Quando Stiepan Trofímovitch foge pela estrada, no capítulo VII da Terceira Parte, é uma das figuras que mais teme encontrar: se o vir, pensa, dirá a verdade e dará a bolsa de quarenta rublos, e ele o matará do mesmo jeito.
Temas que encarna
Fiedka é o ponto onde a cadeia de Culpa se mostra inteira e não pega ninguém. Stiepan o perdeu no baralho ou o vendeu como recruta, conforme quem conta; Piotr o contratou sem dizer a que; Stavróguin lhe deu o dinheiro que ele leu como adiantamento; Lipútin devia ter despachado quem ele matou; o capitão exibiu o dinheiro. O livro faz de cada um desses fios um motivo para que ninguém responda sozinho, e é o que Stavróguin diz a Liza na manhã seguinte aos crimes, sem se declarar inocente nem culpado de ordem alguma:
Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
A cena do dinheiro na lama sustenta duas leituras. Na primeira, Stavróguin joga o dinheiro por desprezo a um pedinte, e é Fiedka quem faz do desprezo um contrato. Na segunda, é pagamento aceito, com a ironia de quem sabe o que compra. O próprio Stavróguin deixa as duas abertas ao dizer a Dária que o homem agora está certo de ter recebido o adiantamento, e é como pagamento que, segundo ele, Fiedka o lê. Que ele nunca diga matar nos dois encontros, e que fale só em contas, é o que faz o pedido funcionar sem ser feito.
O galé também é o único a falar de Deus em voz alta nessas cenas de cálculo, e o texto admite as duas hipóteses. A cidade lhe atribui o ícone da Natividade que Liza se ajoelha na lama para venerar (O ícone e a lamparina); ele mesmo conta que entrou numa igreja do distrito para rezar e matou o guarda, e ouve de Kiríllov o Apocalipse de noite; na hora de cobrar, acusa Piotr de ter deixado de crer no Criador pela devassidão dele, e se justifica com a lenda do mercador que roubou a pérola da Mãe de Deus e depois a devolveu. Pode ser a fé de um assassino que acha o ateísmo de Piotr pior que o ofício dele, ou o idioma de um homem que sabe com que palavras se cobra uma dívida de quem fala em ideias. A divergência fica sem decisão, e o romance a trata como parte do mesmo retrato.
Leituras divergentes
O livro oferece duas versões de quem matou os Lebiádkin, e nenhuma é desmentida. Na de Piotr, que a repete a Liza e a Stavróguin e ao quinteto, Fiedka agiu sozinho, por roubo, no meio do incêndio (capítulo III da Terceira Parte, capítulo IV da Terceira Parte). Na de Fiedka, no capítulo IV da Terceira Parte, havia uma promessa de dinheiro por sangue inocente, jurada por Piotr em nome de Stavróguin, e a viagem a Petersburgo é um modo de pô-lo de lado.
Quem prefere a versão de Piotr lê o crime como oportunismo de um galé que ouviu uma alusão e aproveitou, e o texto lhe dá razões, pois Piotr diz que Fiedka ouvira de Kiríllov uma alusão de Stavróguin. Quem prefere a de Fiedka lê o crime como serviço encomendado e não pago, e o texto lhe dá razões também, pois Piotr tem pressa em dizer que foi acaso. O que o texto não faz é contar o assassinato, e a ausência de cena é o que mantém as duas.
Relações
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: o empregador que lhe promete passaporte e dinheiro (capítulo II da Segunda Parte), que o dispensa e é derrubado por ele (capítulo IV da Terceira Parte).
- Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: o homem que ele espera na ponte e a quem presta a deferência de quem espera um sinal (capítulo II da Segunda Parte).
- Alexei Kiríllov: o hospedeiro que lhe lê o Apocalipse e lhe frita carne e batata (capítulo VI da Segunda Parte, capítulo IV da Terceira Parte).
- Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski: o antigo senhor que, segundo o seminarista, o perdeu no carteado, e que o teme na estrada (capítulo I da Terceira Parte, capítulo VII da Terceira Parte).
- Ignat Lebiádkin e Mária Timofêievna Lebiádkina: as vítimas que lhe são atribuídas (capítulo II da Terceira Parte).
- Lipútin: quem se lembra da profecia de Piotr sobre a vodca quando o galé é achado morto (capítulo IV da Terceira Parte).