Quem é
Lise Khokhlakova é a filha de catorze anos da senhora Khokhlakova, viúva rica e de lágrimas fáceis, e tem as pernas paralisadas havia meio ano, de modo que é levada numa cadeira de rodas (capítulo III do Livro II). A mãe jura que o stáriets a curou com a reza de quinta-feira, e Zossima responde, mais sóbrio, que ela ainda está na cadeira (capítulo IV do Livro II). É amiga de infância de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, que a carregava no colo quando ela era pequena, e é a quem Aliócha promete casamento (capítulo IV do Livro IV, capítulo I do Livro V). Escreve às escondidas da mãe uma carta de amor e, no dia seguinte, a trata como piada (capítulo XI do Livro III, capítulo IV do Livro IV). O que ela quer é ser levada a sério e, ao mesmo tempo, ser destruída: diz a Aliócha que quer que alguém a torture e a abandone, e o que teme é o próprio riso, que a faz parecer mal-educada diante de quem ama (capítulo XI do Livro III, capítulo III do Livro XI).
Trajetória
No capítulo IV do Livro II, no quarto da galeria onde o stáriets recebe as damas, ri de Aliócha, que fica vermelho e quando ela o olha devolve o olhar contra a vontade. Zossima lhe pergunta por quê, e ela responde, quase em lágrimas:
А он зачем всё забыл? Он меня маленькую на руках носил, мы играли с ним., E ele, por que esqueceu tudo? Me carregava no colo quando eu era pequena, nós brincávamos juntos.
Declara-se e propõe casamento quando a lei permitir na carta do capítulo XI do Livro III, que Aliócha encontra no bolso à noite. A declaração é curta e repetida:
я вас люблю, люблю еще с детства, с Москвы, eu amo você, amo desde a infância, desde Moscou.
E ela comenta o próprio ato de escrever:
Бумага, говорят, не краснеет, уверяю вас, что это неправда и что краснеет она так же точно, как и я теперь вся., Dizem que o papel não cora; garanto a você que isso não é verdade e que ele cora exatamente como eu agora, toda.
No capítulo IV do Livro IV, quando Aliócha chega com o dedo mordido pelo menino das pedras, Lise comanda a cena: manda buscar água, gelo e atadura, repreende-o como quem tem direito sobre ele e exige a carta de volta, que mandou como piada e passou a noite a se arrepender de ter mandado. Aliócha trata a carta como proposta e responde em ordem, sair do mosteiro quando o stáriets morrer, estudar, esperar o prazo legal. Lise, que esperava zombaria, se vê levada a sério:
Я как прочел, то тотчас и подумал, что этак всё и будет, потому что я, как только умрет старец Зосима, сейчас должен буду выйти из монастыря. Затем я буду продолжать курс и сдам экзамен, а как придет законный срок, мы и женимся. Я вас буду любить. Хоть мне и некогда было еще думать, но я подумал, что лучше вас жены не найду, а мне старец велит жениться…, quando li, logo pensei que tudo seria assim, porque, assim que o stáriets Zossima morrer, tenho de sair do mosteiro. Depois vou continuar o curso, prestar exame, e quando chegar o prazo legal nós nos casaremos. Eu vou amar você. Ainda não tive tempo de pensar, mas pensei que não vou achar esposa melhor que você, e o stáriets me manda casar...
Diante da mãe, que volta, vira tudo em chacota e conta que ele quer casar, "não é de rir?". Na saída o despacha, mandando que nem passe por ali na volta, e acaba chamando-o de monstro, e no capítulo V do Livro IV, pela porta, quer saber por que ele foi promovido a anjo.
No capítulo I do Livro V ela o recebe constrangida de ter rido e chora ao ouvir da isbá do capitão e das cédulas pisoteadas. Pergunta se há desprezo em prever que o capitão aceitará o dinheiro, e Aliócha responde que não, que ele mesmo já pensara nisso vindo para cá:
Нет, Lise, нет презрения [...] я уж об этом сам думал, идя сюда. Рассудите, какое уж тут презрение, когда мы сами такие же, как он, когда все такие же, как он, não, Lise, não há desprezo [...] eu mesmo já pensei nisso, vindo para cá. Pense só, que desprezo pode haver quando nós mesmos somos iguais a ele, quando todos são iguais a ele?
Confessa de olhos fechados que a carta foi escrita a sério, beija-lhe a mão três vezes, o chama de frio e atrevido, e os dois acertam o que cada um fará quando casados, entre brincadeira e promessa. Quando ela nota a tristeza dele, Aliócha lhe diz, de repente, o que não diz a ninguém:
А я в бога-то вот, может быть, и не верую., e eu em Deus, quem sabe, talvez nem creia.
No capítulo II do Livro XI a mãe conta a Aliócha que Lise lhe devolveu o compromisso, que Ivan a visitou sozinho seis dias antes e que, quatro noites atrás, logo depois da visita de Aliócha, ela teve a primeira crise de gritos: odeia Ivan, bate na criada de manhã e uma hora depois lhe beija os pés. No capítulo III do Livro XI, três dias depois, ela o recebe na cadeira, mais magra, com o olhar febril, e diz estar contente de tê-lo recusado. Diz o que quer:
Я хочу, чтобы меня кто-нибудь истерзал, женился на мне, а потом истерзал, обманул, ушел и уехал. Я не хочу быть счастливою!, quero que alguém me torture, que se case comigo e depois me torture, me engane, vá embora e me deixe. Não quero ser feliz!
Conta a história, lida num livro, de um menino de quatro anos pregado numa parede, uma calúnia antiga tomada ali como fato, e confessa o que sente ao imaginá-la:
Я иногда думаю, что это я сама распяла. Он висит и стонет, а я сяду против него и буду ананасный компот есть. Я очень люблю ананасный компот., às vezes penso que fui eu mesma que o crucifiquei. Ele fica pendurado e gemendo, e eu me sento diante dele e como compota de abacaxi. Gosto muito de compota de abacaxi.
Aliócha responde que o homem agiu com honestidade, que despreza todos porque não crê em ninguém, e que ela está incluída, e ela diz que isso é bom, se agarra a Aliócha, pede que a salve e diz que só quer as lágrimas dele e que os outros a esmaguem. Empurra-o para a porta e põe-lhe na mão um bilhete para Ivan Fiódorovitch Karamázov, para entregar naquela hora, sob pena de se envenenar. Quando ele sai, entreabre a porta, põe o dedo na fresta e a fecha com toda a força:
Подлая, подлая, подлая, подлая!, canalha, canalha, canalha, canalha!
No capítulo V do Livro XI Ivan rasga o bilhete sem abrir e atira os pedaços ao vento, com desprezo pela diabinha de menos de dezesseis anos que já se oferece, e Aliócha a defende como criança doente. No capítulo X do Livro XI Ivan diz que falou dela algo feio e mentiu, que ela lhe agrada. No capítulo III do Epílogo as flores no caixão de Iliúcha Snieguiriov foram enviadas de manhã por ela e por Catierina Ivánovna.
Temas que encarna
Lise diz em voz alta o que os adultos ao redor dela praticam sem dizer: a mãe vive de arrebatamentos que perdoam tudo (capítulo II do Livro XI), e o próprio Aliócha admite que há momentos em que as pessoas amam o crime. Ela, que não tem poder nenhum, nomeia sem pretexto o desejo de Sofrimento: quer ser torturada e quer fazer o mal em silêncio, até ser descoberta (capítulo III do Livro XI). O tema que carrega é o de Culpa sem crime, a vontade de ser punida por um mal que ainda não cometeu, e o romance a faz chorar pelo menino de verdade que sofre, Iliúcha (capítulo I do Livro V), antes de ela contar a compota.
A confissão da compota é feita a um homem que ela não nomeia e a Aliócha, e nos dois casos ela quer ver no outro o desprezo que acha que merece. O primeiro ri, e ela sente que ser desprezada é bom; o segundo lhe diz que o homem despreza todos porque não crê em ninguém, e ela se agarra a ele e logo o expulsa com o bilhete a Ivan (capítulo III do Livro XI). O gesto do dedo na porta diz o que a conversa não disse: castiga o corpo pelo que acabou de dizer e por ter empurrado Aliócha para fora.
Leituras divergentes
O livro dá a Lise leituras de quem a cerca, e nenhuma é desmentida. Aliócha admite que o desejo é real e o põe no fundo de todos:
Есть минуты, когда люди любят преступление, há momentos em que as pessoas amam o crime.
A mãe, que a conhece de dentro de casa, reduz tudo ao arrebatamento que desculpa o que se fizer:
Судебный аффект. Такой аффект, за который всё прощают. Что бы вы ни сделали — вас сейчас простят., arrebatamento judicial. Um arrebatamento pelo qual se perdoa tudo. Faça o que fizer, perdoam o senhor na hora.
Pela leitura de Aliócha, o desejo de queimar a casa é crise de adolescente, como uma doença, e passa. Pela leitura da mãe, tudo o que Lise faz tem desculpa, e o perdão amplo dispensa o fato, o que é o oposto do que a filha pede. Contra as duas, o texto dá a Lise a primeira cena sem pose, a do dedo na porta (capítulo III do Livro XI), e o que ali aparece é o castigo de si, que ela pedira aos outros. Nenhuma das leituras explica o bilhete a Ivan, que o texto deixa fechado e Ivan rasga sem abrir (capítulo V do Livro XI).
Relações
- Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov: o amigo de infância que ela chama de monstro, de frio e de anjo, a quem escreve a carta (capítulo XI do Livro III), a quem confessa o desejo de ser destruída e a quem pede que a salve (capítulo III do Livro XI), e que a defende de Ivan (capítulo V do Livro XI).
- Ivan Fiódorovitch Karamázov: o visitante que ela odeia depois da visita de cinco minutos (capítulo II do Livro XI), a quem escreve o bilhete e de quem recebe o desprezo (capítulo V do Livro XI).
- Catierina Ivánovna: a vizinha da sala ao lado no capítulo IV do Livro IV e no capítulo V do Livro IV, que a mãe de Lise quer ver casada com Ivan, e que manda flores ao caixão de Iliúcha junto com ela (capítulo III do Epílogo).
- Iliúcha Snieguiriov: o menino cuja história a emociona no capítulo I do Livro V; ela lhe manda flores no enterro (capítulo III do Epílogo).