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Madame Bovary

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Cinco anos de escrita sob o Segundo Império

Gustave Flaubert escreveu o romance de setembro de 1851 a abril de 1856, em Croisset, a casa da família à beira do Sena, perto de Rouen. Nesses anos a França mudou de regime: o golpe de dezembro de 1851 deu a Luís Napoleão, então presidente da República, o poder pleno, e em 1852 ele se tornou o imperador Napoleão III, com a imprensa sob vigilância do governo. A história, porém, se passa antes: começa ainda na Restauração e corre sobretudo na Monarquia de Julho, que reinou de 1830 a 1848. O Marquês que convida os Bovary para o baile foi secretário de Estado "sob a Restauração", o regime derrubado em 1830, e tenta voltar à política (capítulo 7 da Parte I). Na província, segundo o narrador, só em 1835 passou a haver uma estrada praticável até Yonville (capítulo 1 da Parte II).

Do folhetim ao tribunal

O livro saiu primeiro na Revue de Paris, uma revista literária, em seis números, de 1º de outubro a 15 de dezembro de 1856. Os editores cortaram trechos que julgavam arriscados, entre eles o passeio de fiacre pelas ruas de Rouen (capítulo 1 da Parte III). Mesmo assim o ministério público do Império processou Flaubert, o gerente da revista e o impressor por ofensa à moral pública e à religião. O julgamento foi em janeiro de 1857, e em 7 de fevereiro os três foram absolvidos. O romance saiu em dois volumes em abril, com uma dedicatória ao advogado de defesa, Jules Sénard. A acusação falava em moral e religião, e o livro de fato conta o adultério por dentro, sem sermão do narrador, como na cena em que Emma, depois de ceder a Rodolphe, se vê no espelho e repete que tem um amante (capítulo 9 da Parte II).

De onde veio a história, e o que Emma lia

A tradição liga o romance a um caso real: o de um oficial de saúde da vila de Ry, na Normandia, cuja mulher morreu jovem e endividada. Flaubert negou, numa carta de 1857, que o livro contasse a vida de alguém. Já o mundo de leituras de Emma é histórico. No convento das Ursulinas, ela lê, no dormitório, os romances de amor que uma velha costureira da rouparia empresta às escondidas às alunas maiores (capítulo 6 da Parte I); em Tostes, passa a Balzac e George Sand (capítulo 9 da Parte I). Desde 1836 o romance em folhetim enchia o rodapé dos jornais, e os gabinetes de leitura alugavam livros por assinatura: quando Emma adoece de tédio, a sogra resolve ir em pessoa ao livreiro de Rouen avisar que Emma cancela as assinaturas (capítulo 7 da Parte II).

Médicos, farmacêuticos e a lei

Charles não é doutor, é "oficial de saúde", título criado em 1803 para quem não fazia o curso completo de medicina e extinto em 1892. Ele reprova no primeiro exame (capítulo 1 da Parte I). Homais, que é farmacêutico e não tem diploma de médico, é chamado a Rouen pelo procurador do rei por infringir a lei de 19 ventôse do ano XI, a de 1803 que proíbe exercer a medicina sem diploma, citada no próprio romance (capítulo 3 da Parte II). A cirurgia do pé torto de Hippolyte, que corta o tendão de Aquiles, era então um método recente: Charles manda vir de Rouen o livro do doutor Duval sobre o assunto antes de operar (capítulo 11 da Parte II).

A lei e o dinheiro de uma esposa

O Código Civil de Napoleão, de 1804, impedia a mulher casada de assumir dívidas, vender ou hipotecar bens sem o consentimento do marido. Esse é o pano de fundo da procuração que Lheureux sugere (capítulo 2 da Parte III), pela qual Charles passaria a Emma o poder de agir em nome dele, e da reação da sogra quando vê a conta das compras de Emma: ela arranca de Charles a promessa de anular a procuração e a queima (capítulo 5 da Parte III). A mesma França aparece no dia dos comícios agrícolas, com o desfile da Guarda Nacional, reorganizada por lei em 1831 (capítulo 8 da Parte II).

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