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Madame Bovary

Citações

As passagens que decidem cada capítulo, com o comentário que as acompanha.

Parte I, capítulo 1

one of those poor things, in fine, whose dumb ugliness has depths of expression, like an imbecile's face, uma daquelas pobres criaturas, enfim, cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil.

with cheek a man always gets on in the world, com descaramento um homem sempre se dá bem no mundo.

Parte I, capítulo 2

O motivo das visitas é um desejo que Charles ainda não reconhece. Quant à Charles, il ne chercha point à se demander pourquoi il venait aux Bertaux avec plaisir, quanto a Charles, não procurou perguntar a si mesmo por que ia aos Bertaux com prazer.

Parte I, capítulo 3

O noivado se arranja entre os dois homens, e o desejo de Emma já aparece fora da medida do mundo dela. Emma eût, au contraire, désiré se marier à minuit, aux flambeaux; mais le père Rouault ne comprit rien à cette idée, Emma teria preferido, ao contrário, casar-se à meia-noite, à luz de tochas; mas o pai Rouault não entendeu nada dessa ideia.

Parte I, capítulo 4

O dia seguinte inverte os papéis dos noivos, e quem se entrega é Charles. C’est lui plutôt que l’on eût pris pour la vierge de la veille, tandis que la mariée ne laissait rien découvrir où l’on pût deviner quelque chose, é ele, antes, que se tomaria pela virgem da véspera, enquanto a noiva não deixava transparecer nada em que se pudesse adivinhar alguma coisa.

Parte I, capítulo 5

O casamento não entrega o que o amor prometia, e Emma conclui que errou ao julgar-se apaixonada. Avant qu’elle se mariât, elle avait cru avoir de l’amour; mais le bonheur qui aurait dû résulter de cet amour n’étant pas venu, il fallait qu’elle se fût trompée, songeait-elle. Et Emma cherchait à savoir ce que l’on entendait au juste dans la vie par les mots de félicité, de passion et d’ivresse, qui lui avaient paru si beaux dans les livres, antes de casar-se, ela acreditara ter amor; mas, como a felicidade que deveria resultar desse amor não veio, era preciso que se tivesse enganado, pensava. E Emma procurava saber o que se entendia ao certo, na vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que lhe haviam parecido tão belas nos livros.

Parte I, capítulo 6

She wanted to get some personal profit out of things, and she rejected as useless all that did not contribute to the immediate desires of her heart, being of a temperament more sentimental than artistic, looking for emotions, not landscapes, ela queria tirar das coisas algum proveito pessoal, e rejeitava como inútil tudo que não contribuísse para os desejos imediatos do coração, sendo de temperamento mais sentimental que artístico, em busca de emoções, não de paisagens.

A fé do convento cai pelo mesmo critério. This nature, positive in the midst of its enthusiasms, that had loved the church for the sake of the flowers, and music for the words of the songs, and literature for its passional stimulus, rebelled against the mysteries of faith, esta natureza, positiva no meio dos seus entusiasmos, que amara a igreja pelas flores, a música pelas letras das canções e a literatura pelo estímulo passional, revoltou-se contra os mistérios da fé.

Parte I, capítulo 7

Charles's conversation was commonplace as a street pavement, and everyone's ideas trooped through it in their everyday garb, without exciting emotion, laughter, or thought, a conversa de Charles era banal como uma calçada, e as ideias de todo mundo desfilavam por ela com suas roupas de todo dia, sem despertar emoção, riso ou pensamento.

her life was cold as a garret whose dormer window looks on the north, and ennui, the silent spider, was weaving its web in the darkness in every corner of her heart, sua vida era fria como um sótão cuja clarabóia dá para o norte, e o tédio, aranha silenciosa, tecia sua teia na escuridão de cada canto do seu coração.

Parte I, capítulo 8

He had lived at court and slept in the bed of queens!, ele tinha vivido na corte e dormido na cama de rainhas!

Her journey to Vaubyessard had made a hole in her life, like one of those great crevices that a storm will sometimes make in one night in mountains, sua viagem a Vaubyessard (ver La Vaubyessard) tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas.

Parte I, capítulo 9

A breath of love had passed over the stitches on the canvas; each prick of the needle had fixed there a hope or a memory, and all those interwoven threads of silk were but the continuity of the same silent passion, um sopro de amor passara sobre os pontos da tela; cada picada da agulha ali fixara uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de seda entrelaçados eram apenas a continuidade da mesma paixão silenciosa.

What was the good of playing? Who would hear her?, de que adiantava tocar? Quem a ouviria?

Like shipwrecked sailors, she turned despairing eyes upon the solitude of her life, seeking afar off some white sail in the mists of the horizon, como náufragos, ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.

The little pasteboard berries burst, the wire twisted, the gold lace melted; and the shriveled paper corollas, fluttering like black butterflies at the back of the stove, at last flew up the chimney, as pequenas bagas de papelão estouraram, o arame torceu, a renda dourada derreteu; e as corolas de papel ressecadas, esvoaçando como borboletas negras no fundo do fogão, por fim voaram pela chaminé.

Parte II, capítulo 1

a bastard land whose language is without accent and its landscape is without character
Jusqu’en 1835, il n’y avait point de route praticable pour arriver à Yonville
E o letreiro, que ocupa toda a largura da loja, diz em letras douradas: Homais, farmacêutico.

Parte II, capítulo 2

o espírito voga mais livremente sobre essa extensão sem limites, cuja contemplação nos eleva a alma e comunica ideias de infinito, de ideal
Não acreditava que as coisas se pudessem apresentar da mesma maneira em lugares diferentes, e, uma vez que a parte já vivida havia sido má, certamente haveria de ser melhor a que lhe restava para viver.

Parte II, capítulo 3

Ela desejava um rapaz, seria forte e moreno, chamar-se-ia Georges, e esta ideia de ter um filho varão era uma espécie de desejo de desforra de todas as suas frustrações passadas. Um homem, pelo menos, é livre, pode explorar todas as paixões e todas as terras, atravessar os obstáculos, tomar o gosto das venturas mais distantes. Mas uma mulher é continuamente impedida de tudo.

No fim do capítulo, Léon, sozinho no Pasto, na encosta de Argueil, resume o próprio tédio: - Que tédio! - dizia ele para consigo. - Que vida aborrecida!

Lamentava-se de viver naquela aldeia, tendo Homais como amigo e Guillaumin como patrão.

Parte II, capítulo 4

o amor, segundo acreditava, devia surgir de repente, com grande tumulto e fulgurações [...] tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro.

Parte II, capítulo 5

  • Uma miséria - respondeu -, uma miséria, mas não há pressa, quando desejar, não somos judeus!
a satisfação de poder dizer: “Sou virtuosa”, e de olhar para o espelho assumindo poses de resignação
A mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.

Parte II, capítulo 6

  • Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
“É uma coisa estranha”, pensava Emma, “como esta criança é feia!”
  • Então, à inglesa - disse ela, abandonando-lhe a sua e esforçando-se por rir.

Parte II, capítulo 7

É nesse vazio que Rodolphe Boulanger entra em cena, trazendo a Charles um camponês que quer ser sangrado porque "sentia formigueiros pelo corpo todo". A cena clínica (Justin desmaia, e Emma lhe afrouxa a gravata e lhe molha as têmporas com vinagre) é a desculpa de enredo; o que importa é o monólogo de Rodolphe a caminho de casa, que revela o mecanismo antes mesmo do primeiro encontro a sós: Pobrezita da mulher! Aposto que anseia pelo amor como uma carpa pela água em cima da mesa da cozinha! Com três palavras de galanteio, tenho a certeza de que até me adorava! A conclusão dele é seca.

Há-de ser mínha!

Parte II, capítulo 8

Ah!, mas é que existem duas [...] a mesquinha, a convencional, a dos homens, a que varia constantemente e berra tão alto que se agita no chão, terra a terra [...] Mas a outra, a eterna, essa circunda tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos rodeia e o céu que nos ilumina.
Aproxime-se, veneranda Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux!

Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo.

Parte II, capítulo 9

Ora, se ela me amou desde o primeiro dia, pela impaciência de me voltar a ver, deve amar-me ainda mais. Portanto, continuemos!
Somos sempre arrastados pelo que é belo, encantador, adorável!
O fato decidiu-a.
Tenho um amante! Um amante!

Parte II, capítulo 10

o grande amor existente entre ambos, e em que ela vivia mergulhada, lhe pareceu diminuir aos seus pés, como a água de um rio absorvida pelo seu próprio leito descobrindo o lodo.
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.

Parte II, capítulo 11

Não és um homem, caramba? Que seria então se tivesses de servir no exército, de combater pela pátria?
Nem Ambroise Paré, aplicando pela primeira vez desde Celso, após quinze séculos de intervalo, a laqueação imediata de uma artéria, nem Dupuytren, quando estava para abrir um abcesso através de uma espessa camada de encéfalo, nem Gensoul, quando fez a primeira ablação do maxilar superior, sentiram provavelmente palpitar tanto o coração
Apesar dos preconceitos que cobrem ainda uma parte da face da Europa como uma rede, a luz começa contudo a penetrar nos nossos campos.
operou um pé aleijado a Hippolyte Tautain, moço de cavalariça há vinte e cinco anos no hotel do Leão de Ouro
Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.

Parte II, capítulo 12

Rodolphe não separa a paixão de Emma das frases que ouviu de outras, e o narrador responde ao juízo dele: a palavra humana é como um caldeirão rachado em que se batem melodias para fazer dançar os ursos, quando o que se pretendia era enternecer as estrelas

com uma factura de duzentos e setenta francos, sem contar os centavos
quando Charles ouvia de longe o bater seco da sua perna de pau sobre a calçada, apressava-se rapidamente a tomar por outro caminho
uma caixa para charutos igualzinha à do visconde, que Charles em tempos achara na estrada e que Emma conservava consigo

Parte II, capítulo 13

A culpa é da fatalidade!
Porque não acabar com tudo? Quem a impediria?

Parte II, capítulo 14

a soma de mil e setenta francos, o que, com os cento e oitenta já estipulados, perfazia justamente mil duzentos e cinquenta
Quando se punha de joelhos sobre o genuflexório gótico, dirigia ao Senhor as mesmas palavras de suavidade que antes murmurara ao seu amante, durante as efusões do adultério.
nenhuma delícia descia dos Céus e ela erguia-se dali com os membros fatigados e um vago sentimento de um imenso logro

Parte II, capítulo 15

Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.
Rapta-me, leva-me, fujamos! Para ti, para ti!, todos os meus ardores e todos os meus sonhos!
Não a voltara a apertar depois daquela noite de Primavera em que chovia sobre as folhas verdes, quando se tinham despedido, de pé, junto da janela.

Parte III, capítulo 1

O aprumo depende do meio onde se está: não se fala na sobreloja como no quarto andar
o passado, o futuro, as reminiscências e os sonhos, tudo se achava confundido na doçura daquele êxtase
Léon fugia, porque tinha a impressão de que o seu amor [...] se iria agora evaporar
  • Porquê? - replicou o escriturário. - É coisa corrente em Paris!
  • Para onde você quiser! - respondeu Léon, empurrando Emma para dentro do carro.
uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio
uma mão sem luva atravessou as pequenas cortinas de tecido amarelo e lançou fora pedaços de papel rasgado que se dispersaram ao vento

Parte III, capítulo 2

ao contacto dos seus lábios, apoderou-se dela a recordação do outro

Lheureux planta a procuração entre uma gentileza e outra: com uma procuração, seria simples, e então poderíamos fazer uns negociozinhos

Parte III, capítulo 3

Anda lá, conta-nos qualquer coisa…, Adolphe…, Dodolphe… creio eu.
Emma fez-lhe recomendações tão precisas sobre a maneira de utilizar um duplo sobrescrito, que ele ficou muito admirado com a sua astúcia amorosa

Parte III, capítulo 4

as lições [...] só aproveitam se forem seguidas

Parte III, capítulo 5

desprendia-se qualquer coisa de vertiginoso daquelas existências amontoadas [...] como se as cento e vinte mil almas que ali palpitavam lhe enviassem [...] o vapor das paixões que ela lhes atribuía
a sua vida não foi mais que uma colecção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder
  • Compreendo perfeitamente - disse o notário. - Um homem de ciência não pode embaraçar-se com pormenores da vida prática.
tornava-se irritável, gulosa e voluptuosa
era ele quem realmente se comportava como se fosse uma amante

Parte III, capítulo 6

Conhecia-se já demasiado para ter aquelas surpresas da posse que lhe centuplicam o gozo. Emma estava tão enfastiada de Léon como este cansado dela. Emma encontrava agora no adultério toda a insipidez do casamento

Nas cartas que continua a escrever a Léon, o destinatário já é outro: via outro homem, um fantasma construído das suas mais ardentes recordações, das suas mais belas leituras, dos seus mais fortes desejos

Lheureux responde às súplicas de Emma fechando a porta e dizendo: Não tenho mais que me ralar com isso!

Parte III, capítulo 7

e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
Tudo, quer dentro quer fora dela, a abandonava.
O doutor Guillaumin já a conhecia, por estar secretamente ligado ao mercador de tecidos, em casa de quem encontrava sempre capitais para os empréstimos hipotecários que o encarregavam de contratar.
O senhor aproveita-se impunemente da minha aflição! Eu sou para lastimar, mas não para vender!

Parte III, capítulo 8

Não os tenho, minha querida senhora.
porque um pedido pecuniário é a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor.
Quero-a! Dá-ma.
retirando-a cheia de um pó branco, pôs-se a comê-lo directamente
Não acusem ninguém…
  • Tenho medo! - disse a pequena, recuando.
primeiro nos olhos, que tanto haviam cobiçado todas as sumptuosidades terrestres, depois nas narinas, ávidas de brisas cálidas e perfumes amorosos, depois na boca, que se abria para a mentira, que gemera de orgulho e gritara de luxúria, depois nas mãos, que se deleitavam com suaves contactos, e, finalmente, nas plantas dos pés, tão rápidos outrora quando corria a saciar os seus desejos e que não voltariam a caminhar.
E pôs-se a rir, com um riso atroz, frenético, desesperado
Deixara de existir.

Parte III, capítulo 9

quanto aos textos, é só abrir a história, sabe-se que foram falsificados pelos Jesuítas.
Leia Voltaire! [...] Leia Holbach, leia a Enciclopédia!

Parte III, capítulo 10

Era Hippolyte, o moço do Leão de Ouro. Pusera a sua perna nova.
a madeira do caixão, atingida pelas pedras, fez aquele formidável ruído que nos parece ser o retumbar da eternidade.

Parte III, capítulo 11

Ela perguntou pela mamã. Responderam-lhe que estava ausente e que Lhe traria brinquedos.
Como a minha pobre mulher se teria sentido feliz!
Coragem, Emma! Tenha coragem! Não quero fazer a infelicidade da sua existência
Foi culpa da fatalidade!
E, acreditando que ele estivesse a brincar, empurrou-o levemente. Caiu no chão. Estava morto.
Essa tia é pobre e manda a pequena trabalhar numa fábrica de fiação para ganhar a vida.
Acaba de receber a Legião de Honra.