Clavis Libri

Madame Bovary · Parte II

Capítulo 15

Resumo do capítulo

Em Rouen, na ópera Lucie de Lammermoor, Emma Bovary se reconhece na heroína e, diante do tenor Lagardy, imagina para si uma vida de amor com o cantor, enquanto Charles Bovary, que não acompanha a trama, pede explicações que ela rejeita. No intervalo, ele volta do bufete com a notícia de que encontrou Léon, agora escriturário em Rouen, e o traz ao camarote. Emma não ouve mais nada da ópera e, com Léon e Charles, sai antes do fim para tomar sorvete no porto, onde Léon desdenha de Lagardy, Charles lamenta ter perdido o último ato e propõe que ela fique mais um dia em Rouen. Combinam rever-se às seis horas do dia seguinte.

Em Ruão, Emma assiste a Lucie de Lammermoor projetando nela mesma a história que a ópera encena: uma noiva que deveria ter resistido ao casamento.

Análise

Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.

A ironia é dupla: ela lamenta não ter resistido ao casamento, mas na lógica do próprio romance o casamento e o adultério nascem do mesmo apetite insaciável por um "coração grande e sólido" que não existe. Diante do tenor Lagardy, ela projeta uma terceira fantasia amorosa, ainda mais irreal que Rodolphe Boulanger, porque feita de pura encenação:

Rapta-me, leva-me, fujamos! Para ti, para ti!, todos os meus ardores e todos os meus sonhos!

Pensa, sem que o cantor sequer saiba que ela existe.

E então, no intervalo, Charles anuncia com orgulho de provinciano que encontrou "o senhor Léon", e o antigo escrevente de Yonville (ver Yonville) entra no camarote. O reencontro é registrado num só gesto:

Não a voltara a apertar depois daquela noite de Primavera em que chovia sobre as folhas verdes, quando se tinham despedido, de pé, junto da janela.

A ópera havia acabado de mostrar a Emma a forma que sua próxima paixão vai tomar: o capítulo termina com Charles insistindo, sem entender nada do que está fazendo, para que a mulher fique mais um dia em Ruão.

Para discutir Na ópera, Emma pensa que poderia ter entregue a vida "a algum coração grande e sólido", mas logo conclui que essa felicidade "era uma mentira inventada para causar o desespero de todo o desejo". Qual das duas Emmas tem razão, a que lamenta ou a que desconfia, e por que o narrador deixa os dois pensamentos lado a lado?

Para discutir Charles traz Léon ao camarote e, no fim, insiste para que Emma fique em Rouen, "desde que tenhas a mínima impressão de que te poderá fazer bem". Que efeito tem pôr nas mãos de Charles, sem que ele perceba, aquilo que Emma passa a desejar?