Resumo do capítulo
Em Rouen, na ópera Lucie de Lammermoor, Emma Bovary se reconhece na heroína e, diante do tenor Lagardy, imagina para si uma vida de amor com o cantor, enquanto Charles Bovary, que não acompanha a trama, pede explicações que ela rejeita. No intervalo, ele volta do bufete com a notícia de que encontrou Léon, agora escriturário em Rouen, e o traz ao camarote. Emma não ouve mais nada da ópera e, com Léon e Charles, sai antes do fim para tomar sorvete no porto, onde Léon desdenha de Lagardy, Charles lamenta ter perdido o último ato e propõe que ela fique mais um dia em Rouen. Combinam rever-se às seis horas do dia seguinte.
Em Ruão, Emma assiste a Lucie de Lammermoor projetando nela mesma a história que a ópera encena: uma noiva que deveria ter resistido ao casamento.
Análise
Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.
A ironia é dupla: ela lamenta não ter resistido ao casamento, mas na lógica do próprio romance o casamento e o adultério nascem do mesmo apetite insaciável por um "coração grande e sólido" que não existe. Diante do tenor Lagardy, ela projeta uma terceira fantasia amorosa, ainda mais irreal que Rodolphe Boulanger, porque feita de pura encenação:
Rapta-me, leva-me, fujamos! Para ti, para ti!, todos os meus ardores e todos os meus sonhos!
Pensa, sem que o cantor sequer saiba que ela existe.
E então, no intervalo, Charles anuncia com orgulho de provinciano que encontrou "o senhor Léon", e o antigo escrevente de Yonville (ver Yonville) entra no camarote. O reencontro é registrado num só gesto:
Não a voltara a apertar depois daquela noite de Primavera em que chovia sobre as folhas verdes, quando se tinham despedido, de pé, junto da janela.
A ópera havia acabado de mostrar a Emma a forma que sua próxima paixão vai tomar: o capítulo termina com Charles insistindo, sem entender nada do que está fazendo, para que a mulher fique mais um dia em Ruão.
Para discutir Na ópera, Emma pensa que poderia ter entregue a vida "a algum coração grande e sólido", mas logo conclui que essa felicidade "era uma mentira inventada para causar o desespero de todo o desejo". Qual das duas Emmas tem razão, a que lamenta ou a que desconfia, e por que o narrador deixa os dois pensamentos lado a lado?
Para discutir Charles traz Léon ao camarote e, no fim, insiste para que Emma fique em Rouen, "desde que tenhas a mínima impressão de que te poderá fazer bem". Que efeito tem pôr nas mãos de Charles, sem que ele perceba, aquilo que Emma passa a desejar?