Resumo do capítulo
Toda quinta-feira Emma Bovary toma a diligência para Rouen e passa a tarde com Léon no hotel, voltando à noite a Charles Bovary, que nada percebe; quando ele diz que a professora de piano não a conhece, Emma sustenta a mentira com um recibo que aparece dentro da bota dele. Lheureux, que a viu à saída do hotel com Léon, cobra então cerca de dois mil francos em cortinas, tapete e vestidos, indica a venda do pardieiro de Barneville e a faz assinar quatro letras de mil francos, que o banqueiro Vinçart desconta, entregando-lhe só mil e oitocentos francos em dinheiro. Quando uma das letras chega a casa, Charles escreve à mãe, a viúva Bovary vem, arranca-lhe a promessa de anular a procuração e a queima; Emma tem um ataque de nervos, Charles toma o partido dela e, com muitos rogos, a leva ao tabelião para fazer outra. No hotel, Léon, que já copia sonetos para agradá-la, passa a ser a parte dependente do casal.
Este é o capítulo-chave da tese dos capítulos 1 a 6 da Parte III. Flaubert descreve, com detalhe quase burocrático, a rotina das quintas-feiras de Emma: a hora certa da diligência, o mesmo hotel, o mesmo cabeleireiro, o rodeio por ruelas para não ser vista. Rouen, vista do alto, ainda funciona como Babilônia romântica aos olhos de Emma:
Análise
desprendia-se qualquer coisa de vertiginoso daquelas existências amontoadas [...] como se as cento e vinte mil almas que ali palpitavam lhe enviassem [...] o vapor das paixões que ela lhes atribuía
Mas o próprio ritual mata a vertigem, e do lado de fora do quarto de hotel a vida de Emma vira administração de mentiras, a começar pelo recibo da professora de piano que aparece dentro da bota de Charles:
a sua vida não foi mais que uma colecção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder
Atrás das quintas-feiras corre a contabilidade de Lheureux: o romantismo de Emma passa a ter, literalmente, uma planilha por trás. A segunda procuração é feita em casa do tabelião Guillaumin, que dá à fraqueza de Charles uma desculpa lisonjeira:
- Compreendo perfeitamente - disse o notário. - Um homem de ciência não pode embaraçar-se com pormenores da vida prática.
A alegria da quinta-feira seguinte, no hotel, mostra o mesmo mecanismo do baile em La Vaubyessard (ver La Vaubyessard), nos capítulos 8 e 9 da Parte I: excitação seguida de tédio maior, agora em escala semanal:
tornava-se irritável, gulosa e voluptuosa
O capítulo também inverte os papéis: quando Emma lhe pede versos, Léon copia um soneto de um álbum, mais pelo desejo de lhe agradar do que por vaidade.
era ele quem realmente se comportava como se fosse uma amante
Para discutir Do alto, Rouen parece a Emma uma Babilônia, como se as "cento e vinte mil almas que ali palpitavam" lhe enviassem o vapor das paixões que ela lhes atribuía. O que a distância faz com a cidade, e o que a rotina das quintas-feiras faz com o amor?
Para discutir Léon copia um soneto de um álbum porque Emma lhe pede versos, e o narrador diz que era ele quem "se comportava como se fosse uma amante". O que a inversão de papéis mostra sobre o que Emma procura em um amante e sobre o que Léon aceita ser?