Resumo do capítulo
No começo de abril, ao ouvir as ave-marias, Emma Bovary vai à igreja disposta a qualquer devoção e encontra o Abade Bournisien ocupado com os meninos do catecismo, sem perceber o que ela procura. Em casa, irritada, ela empurra a filha, que cai e fere a face, e depois acha a menina feia. Léon, cansado de amar sem esperança e de Yonville (ver Yonville), obtém o consentimento da mãe para ir terminar o curso de Direito em Paris e parte numa despedida contida, na ausência de Charles Bovary. Naquela noite Homais anuncia que os comícios agrícolas podem vir a ser realizados em Yonville.
A cena com o abade Bournisien é o contraponto exato da retórica do "infinito" que Emma e Léon trocaram no capítulo 2. Emma vai à igreja em busca de alguma coisa (ela mesma não sabe nomear o quê), e encontra um padre distraído pelas travessuras dos meninos do catecismo, que trata a angústia dela como indigestão:
Análise
- Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
Ela tenta dizer que há quem tenha pão e não tenha outra coisa, ele completa a frase com o fogo para o inverno, e é Emma quem replica "Que importa isso?"; o padre não entende ("Como? Que importa?") e atribui o mal-estar dela à digestão. A cena termina em silêncio mútuo, "frente a frente, sem dizer nada", e o padre volta ao catecismo alegando "o dever acima de tudo". É a instituição religiosa de Yonville recusando, por incompetência mais do que por má-fé, o pedido de socorro que Emma lhe faz sem conseguir dizê-lo.
De volta da igreja, Emma afasta Berthe Bovary com o cotovelo; a menina cai contra a cómoda e corta a face, e Emma diz a Charles que ela caiu a brincar. Velando-lhe o sono, pensa:
“É uma coisa estranha”, pensava Emma, “como esta criança é feia!”
No mesmo capítulo, Léon parte para Paris. A despedida é contida, quase muda: Léon pede para beijar Berthe, Emma encosta a testa no vidro da janela, e o aperto de mão final ganha o nome da formalidade, à inglesa, um gesto sem beijo, o oposto exato do que os dois sentem e não dizem.
- Então, à inglesa - disse ela, abandonando-lhe a sua e esforçando-se por rir.
Para discutir Emma vai à igreja em busca de algo que não sabe nomear, e o padre, ocupado com os meninos do catecismo, se diz "médico das almas" e atribui o mal-estar dela à digestão. O que ela pede sem conseguir dizer, e o que impede o padre de ouvi-la: distração, incompetência ou o próprio ofício?
Para discutir Depois de empurrar Berthe, que cai e corta a face, Emma diz a Charles que a menina caiu a brincar e, velando-lhe o sono, pensa: "como esta criança é feia!". O que a frase revela de Emma, e o que o narrador ganha ao registrar o pensamento sem condená-lo?