Resumo do capítulo
Em Rouen, Léon, de volta de Paris e já sem a timidez de antes, vai à estalagem da Cruz Vermelha, onde Emma Bovary ficou hospedada, e as confidências de melancolia dos dois acabam na declaração dele, que ela afasta sem encerrar: aceita encontrá-lo no dia seguinte, às onze horas, na catedral, depois de escrever uma carta para desfazer o encontro e não a entregar. Na catedral, Emma se ajoelha na capela da Virgem e o suíço, o guia do templo, arrasta os dois por túmulos e relíquias até Léon fugir e mandar buscar um fiacre. Com Emma dentro, o carro de estores descidos percorre Rouen sem destino até as seis da tarde, e dele desce uma mulher de véu.
Léon muda antes de Emma mudar. Depois dos estudos de Direito em Paris, perdeu a timidez de escriturário provinciano e volta a Rouen desprezando tudo o que não fosse a elegância da capital. Na véspera seguiu de longe o casal até a estalagem e passou a noite a meditar num plano. O narrador nomeia o mecanismo antes de encená-lo:
Análise
O aprumo depende do meio onde se está: não se fala na sobreloja como no quarto andar
Léon não seduz Emma por impulso, seduz porque calculou o ambiente certo, a mulher do "medicozinho" de província, diante de quem ele finalmente pode brilhar. A conversa entre os dois é toda construída sobre confissões recíprocas de melancolia que nenhum dos dois de fato sente com a intensidade que professa: ele não diz que a esquecera, ela não confessa a paixão por Rodolphe Boulanger, e cada um usa a tristeza do outro como espelho para a própria encenação. A cena se passa no quarto da estalagem, com um efeito que o capítulo 9 da Parte I já tinha ensaiado com a cigarreira (ver A cigarreira verde) do Visconde: o presente se dissolve em nostalgia fabricada.
o passado, o futuro, as reminiscências e os sonhos, tudo se achava confundido na doçura daquele êxtase
No dia seguinte, o encontro marcado na catedral de Rouen é a peça mais irônica do capítulo. Léon chega com flores compradas pela primeira vez na vida para uma mulher, mas Emma se refugia numa capela para rezar, e o desejo de Léon, em vez de crescer, se choca com um guia turístico incansável (o suíço) que insiste em mostrar túmulos e relíquias aos dois. O romance faz o amor competir literalmente com a paróquia pelo tempo do casal, e quem vence não é nenhum dos dois: é a logística.
Léon fugia, porque tinha a impressão de que o seu amor [...] se iria agora evaporar
À porta da igreja, enquanto um garoto vai buscar o carro, Emma hesita e diz que não é decente; Léon a decide com um argumento de lugar:
- Porquê? - replicou o escriturário. - É coisa corrente em Paris!
Ao cocheiro, que pergunta para onde, ele não dá destino nenhum:
- Para onde você quiser! - respondeu Léon, empurrando Emma para dentro do carro.
A fuga da igreja termina na cena mais citada do romance: os dois entram num fiacre (ver O fiacre) de cortinas fechadas que passa horas cruzando Rouen sem destino, só para que dentro dele aconteça o que a cidade inteira, do lado de fora, só pode imaginar. Flaubert nunca mostra o que se passa dentro do fiacre, mostra só o efeito sobre quem vê de fora, e a imagem resume o capítulo inteiro: o amor de Emma sempre precisa de um espaço fechado, em movimento, sem endereço fixo.
uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio
O único sinal que sai lá de dentro, a meio do dia, também é visto de fora: uma mão, e papéis ao vento. Pelas seis horas o carro para numa ruela do bairro Beauvoisine, e dele desce, sem nome no texto, uma mulher de véu descido que segue sem voltar a cabeça.
uma mão sem luva atravessou as pequenas cortinas de tecido amarelo e lançou fora pedaços de papel rasgado que se dispersaram ao vento
Para discutir Quando Emma diz que não é decente entrar no fiacre, Léon responde: "É coisa corrente em Paris!", e o narrador diz que essa palavra, "como argumento irresistível", a decidiu. Que tipo de argumento é esse, e por que um lugar basta para decidir uma questão moral?
Para discutir O narrador nunca mostra o que se passa dentro do fiacre, só a carruagem "mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio" e uma mão que lança papéis rasgados pela cortina. O que se ganha ao deixar a cena fora de campo, e o que o leitor faz com a lacuna?