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Madame Bovary · Parte II

Capítulo 8

Resumo do capítulo

No dia dos comícios agrícolas, Yonville (ver Yonville) se enfeita, a guarda nacional de Buchy e os bombeiros de Binet desfilam, e Homais, membro da comissão consultiva, vai ao palanque. No caminho, a dona do Leão de Ouro conta a Homais que Lheureux vai levar à penhora o rival Tellier, dono do Café Francês, com letras de câmbio. Rodolphe Boulanger se junta a Emma Bovary e a conduz à sala de sessões da prefeitura; enquanto o conselheiro Lieuvain, que veio no lugar do prefeito, discursa e o presidente do júri proclama os prêmios de gado, adubo e linho, ele lhe faz a corte, até tomar-lhe a mão. A criada Catherine Leroux recebe a medalha por cinquenta e quatro anos de serviço, e dois dias depois Homais publica no Fanal de Rouen um artigo entusiasmado sobre a festa.

A cena central dos capítulos 1 a 8 da Parte II. Flaubert monta três falas simultâneas na mesma plataforma: o discurso oficial do conselheiro Lieuvain (elogio ao rei, à indústria, à agricultura, ao "dever"), a sedução sussurrada de Rodolphe a Emma (destino, alma gêmea, "quem se surpreenderia com isso"), e o presidente anunciando prêmios de gado e adubo. As três vozes se intercalam frase a frase, sem hierarquia tipográfica: o efeito é que o vocabulário do amor absoluto soa, ao lado dos prêmios de porcos e do elogio ao rei, tão convencional e mecânico quanto os dois outros discursos que o cercam.

Rodolphe formula ali a tese que resume sua moral, e que é também a tese que a construção do capítulo já provou por meios formais.

Análise

Ah!, mas é que existem duas [...] a mesquinha, a convencional, a dos homens, a que varia constantemente e berra tão alto que se agita no chão, terra a terra [...] Mas a outra, a eterna, essa circunda tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos rodeia e o céu que nos ilumina.

A ironia é dura: é precisamente citando essa "moral eterna" que ele consuma um adultério calculado como uma venda.

O ponto de contraste que Flaubert planta no meio do próprio comício é Catherine Nicaise Élisabeth Leroux, criada premiada por cinquenta e quatro anos de serviço na mesma fazenda, com uma medalha de prata de vinte e cinco francos.

Aproxime-se, veneranda Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux!

Ela sobe ao palco sem entender por que a multidão a empurra, recebe a medalha e sai murmurando que vai dá-la "ao nosso prior, para dizer missas por mim". Homais, ao lado, chama isso de "fanatismo". A cena é o contrapeso moral do capítulo: ao lado da retórica inflada do amor-destino de Rodolphe e do amor-pátria do conselheiro, a única virtude real e não-encenada do comício (meio século de trabalho sem recompensa) rende vinte e cinco francos e um comentário de desprezo.

Rodolphe segura a mão de Emma exatamente enquanto o presidente anuncia o prêmio da raça porcina.

Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo.

A pomba presa é Emma, mas também é a cena inteira: o desejo verdadeiro dela, cercado e enquadrado por três formas de discurso público (estado, comércio, sedução) que competem para nomeá-lo primeiro.

Para discutir No palanque, o discurso do conselheiro, a corte de Rodolphe e o anúncio dos prêmios de gado e de adubo se alternam frase a frase. O que acontece com as palavras de amor quando ouvidas ao lado de elogios ao rei e de prêmios de adubo, e a quem esse efeito favorece, a Rodolphe ou a Emma?

Para discutir A criada Catherine Leroux sobe ao estrado sem entender por que a empurram, recebe a medalha por cinquenta e quatro anos de serviço e diz que vai dá-la ao padre para mandar rezar missas. O que o narrador faz com essa figura no meio da retórica do comício, e o que ela tem que nem o conselheiro nem Rodolphe têm?