Resumo do capítulo
Morta Emma Bovary, Charles Bovary precisa ser arrastado para fora do quarto, e Homais volta às suas ocupações, inclusive a de espalhar que Emma tomou arsênico por açúcar; é o padre quem convence Charles a decidir o enterro, e ele escreve que a quer enterrada de vestido de noiva, sapatos brancos e grinalda, em três caixões, de carvalho, mogno e chumbo. Em duas noites de velório, Homais e o Abade Bournisien discutem religião e celibato sem se escutar e adormecem diante do corpo, que a viúva Bovary, Félicité e a estalajadeira vestem para o enterro, e Homais corta à tesourada a mecha de cabelo que Charles pede. Os operários encaixam o caixão de carvalho nos outros dois, e o tio Rouault chega e desmaia na praça quando vê o pano preto.
Charles cai em um luto sem forma (frases repetidas, olhar vazio); Homais volta ao trabalho no mesmo dia, porque a farmácia e o jornal não param por causa de uma morte alheia. Junto do corpo, à noite, farmacêutico e padre discutem religião citando autoridades um contra o outro sem se escutar, cada um armado da própria estante. A primeira troca já mostra o método dos dois:
Análise
quanto aos textos, é só abrir a história, sabe-se que foram falsificados pelos Jesuítas.
Depois que Charles sai do quarto, a disputa recomeça e cada um recomenda ao outro a sua estante:
Leia Voltaire! [...] Leia Holbach, leia a Enciclopédia!
A cena é o retrato mais econômico do romance sobre o que Homais e Bournisien têm em comum: nenhum dos dois está falando com o outro, os dois estão citando para vencer.
Na noite seguinte, depois de nova discussão (o celibato dos padres, a confissão), os dois adormecem um diante do outro, tão parados quanto o cadáver que velavam, prova final de que o debate não movia nada, nem eles mesmos. Ao amanhecer do enterro, os operários encaixam o caixão de carvalho dentro dos outros dois, como Charles pedira na carta, e foi preciso encher os vãos com a lã de um colchão.
Para discutir Junto ao corpo de Emma, Homais e o abade discutem, e cada um recomenda ao outro a sua estante: "Leia Voltaire!", "Leia as Cartas de Alguns Judeus Portugueses!". Se nenhum escuta o outro, por que a discussão se dá diante do cadáver, e o que o corpo faz na cena?
Para discutir Charles escreve que quer Emma enterrada com o vestido de noiva, sapatos brancos e uma grinalda, em três caixões, de carvalho, de mogno e de chumbo, e as pessoas se admiram de suas "ideias românticas". O que essa vontade diz sobre o que Charles sabe e não sabe de Emma, e o que o romance faz com o primeiro vestido dela?