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Madame Bovary · Parte II

Capítulo 1

Resumo do capítulo

O livro passa a Yonville-l'Abbaye (ver Yonville), burgo a oito léguas de Rouen, nos confins da Normandia, que o narrador percorre da ponte à igreja, da prefeitura em forma de templo grego à farmácia de Homais, declarando que nada ali mudou desde os fatos que vai contar. Na véspera do dia de mercado, a viúva Lefrançois, dona da estalagem do Leão de Ouro, prepara o jantar enquanto Homais discute com ela o bilhar e a religião, e o tesoureiro Binet ocupa às seis em ponto o seu lugar na saleta. O padre Abade Bournisien aparece só para buscar o guarda-chuva, e Homais o acusa de hipocrisia assim que ele sai. Por fim chega a diligência Andorinha, atrasada porque a galga de Emma fugiu pelos campos, trazendo os Bovary, Emma Bovary e Charles Bovary, e o mercador Lheureux.

A abertura é geográfica antes de ser narrativa: Yonville fica na fronteira entre Normandia, Picardia e Ilha de França. A edição portuguesa começa depois deste trecho, que vem da tradução inglesa de Eleanor Marx-Aveling:

Análise

a bastard land whose language is without accent and its landscape is without character

É a moldura moral do livro: um lugar sem identidade própria, que recebeu uma nova saída e mesmo assim, diz o narrador, ficou estacionária. Nada em Yonville se move, exceto o que os personagens trazem de fora.

No original francês, a data da estrada vem dita sem adorno (em tradução de trabalho: até 1835, não havia estrada praticável para chegar a Yonville):

Jusqu’en 1835, il n’y avait point de route praticable pour arriver à Yonville

A espera pela diligência, na cozinha do Leão de Ouro, apresenta três das figuras que vão organizar toda a Parte II: Homais, cuja farmácia, e não a igreja, é "aquilo que mais atrai a vista" em Yonville, com o nome dele em letras douradas repetido no letreiro da loja e na porta do laboratório, como uma assinatura que se basta a si mesma. Binet, o tesoureiro com o seu torno, é figura de repetição vazia, e o abade Bournisien, que só passa pela cozinha para buscar um guarda-chuva esquecido, recusa a bebida oferecida e sai sem se demorar. É Homais quem fala de religião nesse capítulo, não o padre: assim que o eclesiástico se vai, o farmacêutico o acusa de hipocrisia. A ordem de entrada em cena já avisa quem vai ocupar o lugar de autoridade moral em Yonville.

E o letreiro, que ocupa toda a largura da loja, diz em letras douradas: Homais, farmacêutico.

Para discutir O narrador percorre Yonville da ponte à igreja e à prefeitura em forma de templo grego, e diz que o que mais atrai o olhar é a farmácia de Homais, com o nome dele em letras douradas no letreiro e de novo na porta do laboratório. Que ordem de valores esse percurso revela, e o que sobra nele para a igreja?

Para discutir Assim que o abade sai da cozinha do Leão de Ouro, depois de recusar com educação a bebida que lhe ofereceram, Homais chama aquela recusa de "hipocrisia" e fala dos padres que bebem às escondidas. O que a cena sugere sobre quem tem a palavra em Yonville, e por que o padre aparece só de passagem e o farmacêutico em discurso?