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Madame Bovary · Parte III

Capítulo 8

Resumo do capítulo

Emma Bovary vai a La Huchette pedir três mil francos a Rodolphe Boulanger, que recusa com calma, dizendo não os ter; ela o acusa e sai. De volta a Yonville, pede a Justin a chave do cafarnaum e, no gabinete de Homais, come o arsênico do frasco azul; à noite deixa a Charles Bovary uma carta que ele lê quando os vômitos começam. Charles chama o doutor Canivet e o professor Larivière; Berthe Bovary é levada ao leito da mãe e recua assustada; Canivet receita um vomitório e Larivière, ao ver Emma, diz que não há o que fazer e vai almoçar na casa de Homais. Depois da extrema-unção dada pelo Abade Bournisien, o cego passa na rua cantando, Emma ri com um riso atroz e morre.

Rodolphe a recebe com palavras vagas e recusa o dinheiro com calma perfeita. O narrador comenta, e é o comentário, não o personagem, que carrega a ideia mais dura do capítulo: o pedido de dinheiro é o que revela o amor romântico como transação sempre adiada.

Análise

Não os tenho, minha querida senhora.
porque um pedido pecuniário é a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor.

De volta a Yonville, Emma não diz a Justin para que quer a chave (logo depois alega precisar matar os ratos): repete o pedido em voz baixa, num tom meigo.

Quero-a! Dá-ma.

No gabinete de Homais, ela vai direto à terceira prateleira e come o arsênico, sem hesitação nem discurso:

retirando-a cheia de um pó branco, pôs-se a comê-lo directamente

O bilhete que deixa é o oposto de tudo que ela disse em vida: não uma explicação, uma ausência de explicação.

Não acusem ninguém…

Na agonia, Emma pede a filha. Berthe chega nos braços da criada, meio a dormir, procura o sapatinho onde costumava receber os presentes, olha a mãe e recua:

  • Tenho medo! - disse a pequena, recuando.

A agonia é longa e clínica (vômito, convulsão, os médicos sem remédio), até a extrema-unção, em que o padre unge um a um os órgãos que a levaram à ruína: os olhos que cobiçaram, o nariz que respirou perfumes de amante, a boca que mentiu, as mãos que tocaram, os pés que correram atrás do desejo.

primeiro nos olhos, que tanto haviam cobiçado todas as sumptuosidades terrestres, depois nas narinas, ávidas de brisas cálidas e perfumes amorosos, depois na boca, que se abria para a mentira, que gemera de orgulho e gritara de luxúria, depois nas mãos, que se deleitavam com suaves contactos, e, finalmente, nas plantas dos pés, tão rápidos outrora quando corria a saciar os seus desejos e que não voltariam a caminhar.

No fim, o cego que ela vira na estrada passa cantando na rua, e o riso de Emma, atroz e sem sentido para quem a cerca, é a última coisa que ela faz:

E pôs-se a rir, com um riso atroz, frenético, desesperado

O capítulo fecha com uma frase de três palavras para o evento mais longo dele.

Deixara de existir.

Para discutir O narrador garante sobre Rodolphe: "Não mentia." Se tivesse o dinheiro, dá-lo-ia, e ainda assim o narrador chama o pedido de dinheiro "a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor". Se ele diz a verdade, de que Emma o acusa, e o que o dinheiro revela entre os dois que as palavras de amor tinham escondido?

Para discutir Na extrema-unção, o padre unge os olhos que cobiçaram, as narinas ávidas de perfumes amorosos, a boca que se abria para a mentira, as mãos e os pés tão rápidos. Esse inventário do corpo de Emma é um julgamento, uma compaixão ou uma despedida?