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Madame Bovary · Parte II

Capítulo 12

Resumo do capítulo

Emma Bovary e Rodolphe Boulanger voltam a se amar, e ela passa a mandar chamá-lo em plena luz do dia, a queixar-se do marido e a pedir que fujam juntos; ele ri e muda de assunto. Enquanto cobre o amante de presentes comprados a crédito do mercador Lheureux, que também encomenda a perna de pau de Hippolyte, Emma se vê apertada por uma fatura e a paga, por ora, com o dinheiro que o senhor Derozerays manda ao marido. Depois de uma briga com a sogra por causa da criada Félicité, ela implora a Rodolphe que a leve embora, e ele, comovido, aceita; a fuga é marcada, depois de muitos adiamentos, para segunda-feira, 4 de setembro, e Emma encomenda a Lheureux capote, baú e saco de dormir. No sábado da antevéspera, Rodolphe ouve Emma jurar que será feliz com ele e, voltando a pé pela pradaria, decide que não vai partir.

Com o vexame público de Charles Bovary ao fundo, Emma se afasta ainda mais dele e intensifica o culto ao amante: unhas cuidadas, perfumes, joias, o quarto preparado como se arranjava uma cortesã que espera um príncipe. Rodolphe, por sua vez, já não distingue Emma das outras mulheres que teve: "o encanto da novidade, pouco a pouco, caindo como a roupa que se despe, deixava a nu a eterna monotonia da paixão".

Análise

Rodolphe não separa a paixão de Emma das frases que ouviu de outras, e o narrador responde ao juízo dele: a palavra humana é como um caldeirão rachado em que se batem melodias para fazer dançar os ursos, quando o que se pretendia era enternecer as estrelas

É neste capítulo que Lheureux volta à cena, o vendedor que nunca reclama dinheiro: encarrega-se da encomenda da perna de pau que Emma oferece a Hippolyte (paga por Charles) e traz de Rouen o pingalim que ela quer dar a Rodolphe, cuja fatura apresenta logo no dia seguinte à entrega. A fatura chega quando as gavetas da secretária de Emma estão vazias:

com uma factura de duzentos e setenta francos, sem contar os centavos

O crédito de Lheureux funciona exatamente como o discurso de Rodolphe: promete sem custo aparente e cobra depois, com juros. É também aqui que nasce o plano de fuga, combinado para 4 de setembro, que Rodolphe vai adiando semana a semana até decidir, sozinho, que não vai.

Com a perna de pau, Hippolyte volta a percorrer a aldeia, e o vexame da operação passa a ter um som que Charles evita:

quando Charles ouvia de longe o bater seco da sua perna de pau sobre a calçada, apressava-se rapidamente a tomar por outro caminho

Os presentes que Rodolphe recebe cobrem por um tempo a mesma falta: o sinete "Amor nel cor", o pingalim, um lenço. Entre eles está uma caixa de charutos (ver A cigarreira verde) que o texto liga à que Charles achara na volta do baile do capítulo 8 da Parte I:

uma caixa para charutos igualzinha à do visconde, que Charles em tempos achara na estrada e que Emma conservava consigo

Para discutir Rodolphe, que já ouviu frases iguais de outras mulheres, só vagamente acredita na ingenuidade das de Emma, e o narrador responde que a palavra humana é "como um caldeirão rachado em que se batem melodias para fazer dançar os ursos, quando o que se pretendia era enternecer as estrelas". Em que a frase julga Rodolphe, e em que julga o próprio narrador, que também só tem palavras?

Para discutir Emma encomenda a Lheureux capote, baú e saco de dormir para a fuga, enquanto Rodolphe, voltando a pé pela pradaria, decide que não partirá. Por que o narrador entrega a decisão dele ao leitor antes de Emma saber, e o que isso muda na leitura dos preparativos dela?