Resumo do capítulo
No dia seguinte à intimação, o oficial de diligências Hareng, com duas testemunhas, faz o inventário dos bens de Emma Bovary, e no domingo ela percorre Rouen atrás de dinheiro: os banqueiros recusam, e Léon, no hotel, promete três mil francos que não consegue, depois de ela lhe sugerir que os tire do cartório. Na volta, Emma julga ver passar o visconde numa carruagem e, na diligência, assiste a Homais dando conselhos e prometendo uma pomada ao cego da estrada, a quem ela atira cinco francos. Na manhã seguinte o cartaz da venda dos móveis está na praça, e Emma vai a Guillaumin, que se aproveita da aflição dela para uma investida e a vê sair; depois implora a Binet, o tesoureiro, que recua horrorizado sob o olhar de duas vizinhas escondidas no sótão, e se refugia na casa da ama, a tia Rolet, até decidir pedir ajuda a Rodolphe Boulanger.
O inventário transforma a intimidade de Emma em espetáculo público, o mesmo gesto que o romance inteiro fará com ela até a última linha: expor por fora o que era de dentro.
Análise
e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
Na volta de Rouen, derrotada, Emma julga ver o visconde, e a sensação de abandono deixa de ter fronteira entre o que está dentro e o que está fora dela:
Tudo, quer dentro quer fora dela, a abandonava.
A porta que resta é a do tabelião. Antes do assédio, o narrador avisa por que Guillaumin já conhecia a dívida por dentro:
O doutor Guillaumin já a conhecia, por estar secretamente ligado ao mercador de tecidos, em casa de quem encontrava sempre capitais para os empréstimos hipotecários que o encarregavam de contratar.
A recusa dela é a única vitória moral do capítulo, ainda que estéril: sai de mãos vazias, mas sai.
O senhor aproveita-se impunemente da minha aflição! Eu sou para lastimar, mas não para vender!
A frase de recusa a Guillaumin é o espelho exato do que Rodolphe dirá poucas páginas depois, mas ao contrário: ela recusa vender o corpo, ele recusará emprestar o dinheiro.
O capítulo termina com Emma a caminho de La Huchette, disposta a pedir a Rodolphe o que recusou a Guillaumin.
Para discutir Durante a penhora, a vida de Emma é exposta "até aos recantos mais íntimos", "como um cadáver a que se faz a autópsia", aos olhares de três homens. O que o narrador sugere ao descrever a perda dos bens como uma violação do corpo, e por que isso se passa diante do oficial de diligências e de duas testemunhas?
Para discutir Ao recusar o notário, que sabia da dívida por estar secretamente ligado a Lheureux, Emma diz: "Eu sou para lastimar, mas não para vender!". O que a frase recusa e o que aceita, e o que o texto ganha ao dar essa dignidade a Emma precisamente diante de quem lucra com a aflição dela?