Resumo do capítulo
Em casa, Rodolphe Boulanger relê cartas antigas de mulheres, hesita e escreve a carta de ruptura, que manda no dia seguinte escondida sob folhas de parreira numa cesta de damascos. Emma Bovary encontra a carta na sala, corre ao sótão e, depois de uma crise à janela, desce para o jantar, onde Charles Bovary lhe fala dos damascos e diz que Rodolphe viajou. Ao ver passar na praça o tílburi azul de Rodolphe, ela cai desacordada; segue-se uma febre cerebral, e durante quarenta e três dias Charles não a deixa um instante, abandona os doentes e chama o doutor Larivière, e, na convalescência, ele começa a se preocupar com a falta de dinheiro.
Rodolphe escreve a carta de rompimento como quem monta um produto: testa frases, descarta a desculpa da fortuna perdida, escolhe a palavra que "produz sempre efeito". "Não!... O que eu desejaria era fazê-la sentar sobre um trono!" ele escreve, sabendo que é mentira. Pouco antes escrevera, na própria carta, a frase que ele mesmo julga "uma palavra que produz sempre efeito":
Análise
A culpa é da fatalidade!
A mesma palavra vazia que ele reconhece a si mesmo como eficaz. É a contrapartida exata da retórica do capítulo 9: lá, o destino comum seduzia, aqui, a fatalidade absolve. Ele até simula uma lágrima, pingando água sobre a tinta.
A recepção da carta é o ponto mais físico do romance até aqui. Emma sobe correndo ao sótão fechado, abre a água-furtada e, à beira da queda, pensa:
Porque não acabar com tudo? Quem a impediria?
Só a voz de Charles chamando por ela a detém. É a primeira vez que o romance a mostra à beira de se matar, e a tentação nasce não do luto por Rodolphe em si, mas do colapso completo da fantasia que sustentava a vida de Emma. A crise nervosa que se segue (o desmaio ao ver o tílburi azul de Rodolphe passando na praça, a febre cerebral, com Charles quarenta e três dias à cabeceira) fecha o capítulo com Charles, mais uma vez, dedicado e incapaz de entender o que se passa: quando ela acorda gritando "E a carta? E a carta?", ele só ouve delírio.
Para discutir Rodolphe escreve a carta de ruptura e escolhe "A culpa é da fatalidade!", palavra que, ele mesmo pensa, "produz sempre efeito". Se a palavra é eficaz e ao mesmo tempo falsa, o que significa que ela funcione sobre Emma e sobre quem a lê?
Para discutir Na água-furtada, Emma relê a carta e pensa: "Porque não acabar com tudo? Quem a impediria?", e conclui que era livre. Só o grito de Charles a chama de volta: o que o texto sugere ao pôr a interrupção nas mãos do marido que ela despreza?