Resumo do capítulo
Charles Bovary, que vê as contas se acumularem durante a doença de Emma Bovary, acaba aceitando de Lheureux o capote, o saco de dormir e os dois baús que ela encomendara, e assina uma letra e uma promissória que, somadas, chegam a mil duzentos e cinquenta francos. Convalescente, Emma pede a comunhão ao julgar-se agonizante, vê o céu aberto e decide ser santa: pratica a caridade, compra rosários e lê os livros devotos que o abade Bournisien encomenda ao livreiro do bispo, mas não encontra satisfação. Na primavera, recobra a vontade, manda revolver o jardim, dispensa as visitas e vai menos à igreja. Numa tarde no caramanchão, Homais discute o teatro com o padre e aconselha Charles a levar Emma a Rouen para ouvir o tenor Lagardy, e Charles, à força de insistir, a convence a partir.
A promissória que Lheureux consegue de Charles tem a conta feita no próprio texto:
Análise
a soma de mil e setenta francos, o que, com os cento e oitenta já estipulados, perfazia justamente mil duzentos e cinquenta
Recuperando, Emma substitui o amante por Deus com o mesmo vocabulário de êxtase: durante a comunhão, que pede quando se julga agonizante, pensa sentir começar outra existência e ver anjos com asas de fogo descerem para levá-la, exatamente como antes sonhava ser raptada pelo amante para outro país. O Abade Bournisien, sem saber lidar com o fervor dela, escreve a Boulard, livreiro do bispo, pedindo "qualquer obra de qualidade superior, destinada a uma senhora que estava cheia de graça", e o que chega é literatura piedosa de qualidade duvidosa, que Emma lê rápido demais e sem satisfação.
No genuflexório gótico, a devoção repete a linguagem do adultério sem lhe dar a mesma resposta:
Quando se punha de joelhos sobre o genuflexório gótico, dirigia ao Senhor as mesmas palavras de suavidade que antes murmurara ao seu amante, durante as efusões do adultério.
nenhuma delícia descia dos Céus e ela erguia-se dali com os membros fatigados e um vago sentimento de um imenso logro
A devoção dura pouco: ela deixa de lado a caridade extrema (cose roupa para pobres, dá sopa a vadios na cozinha) e passa a querer o jardim revolvido, dispensa as visitas incômodas e, por fim, cede à insistência de Charles, que ouvira de Homais a sugestão de ir ao teatro em Rouen. É o próprio boticário quem planta a ideia que vai devolver Léon à vida de Emma.
Para discutir Ajoelhada no genuflexório gótico, Emma dirige ao Senhor "as mesmas palavras de suavidade" que murmurara ao amante, e ergue-se com "um vago sentimento de um imenso logro". O que permanece igual quando muda o destinatário do amor, e por que a devoção termina assim?
Para discutir O abade pede ao livreiro do bispo uma obra "destinada a uma senhora que estava cheia de graça", e chegam manuais e romances piedosos que Emma lê com pressa e sem proveito. O que o texto sugere ao entregar a cura espiritual de Emma a quem não sabe do que ela padece?