Resumo do capítulo
Depois de seis semanas de ausência, Rodolphe Boulanger volta e declara-se a Emma Bovary, que está só; Charles Bovary, que chega no meio da cena, apoia a ideia de que ela monte a cavalo para a saúde e manda fazer o traje de amazona. No começo de outubro os dois cavalgam até a floresta, onde Emma, depois de resistir, cede. Nas semanas seguintes encontram-se numa cabana de tamanqueiros, trocam cartas escondidas numa fresta do terraço e Emma vai de madrugada à casa dele, em La Huchette, até que Rodolphe a adverte de que as visitas a comprometem.
A volta de Rodolphe, depois das seis semanas, é por cálculo frio, não por impulso: ele espera o efeito da ausência trabalhar a favor dele.
Análise
Ora, se ela me amou desde o primeiro dia, pela impaciência de me voltar a ver, deve amar-me ainda mais. Portanto, continuemos!
Esse é o registro do romance nesse trecho: o narrador mostra primeiro o cálculo de Rodolphe e depois o discurso sedutor (grandiloquente, cheio de "não se pode lutar contra o Céu"), e é essa dupla camada, o que se calcula e o que se diz, que o leitor vê e Emma não.
Na visita em que volta, ainda em casa de Emma, ele monta a retórica do destino comum.
Somos sempre arrastados pelo que é belo, encantador, adorável!
Diz Rodolphe, e o texto registra que era a primeira vez que Emma ouvia alguém dizer-lhe estas coisas.
Charles, que chega no meio da cena, apoia por conta própria a ideia de Rodolphe, a cavalgada como remédio para as opressões de Emma, e derruba a última objeção dela, a falta de traje de amazona, mandando fazer um:
O fato decidiu-a.
A rendição física vem depois, na cavalgada no bosque. Depois, sozinha diante do espelho, ela repete para si mesma a frase que resume toda a segunda metade do romance:
Tenho um amante! Um amante!
"Deleitando-se nesta ideia como se fosse a da chegada de uma nova puberdade." O amante é, antes de ser Rodolphe, uma categoria: Emma está se vendo dentro do "tipo de mulher apaixonada que tanto invejara" nos romances. A rotina que se segue (as cartas escondidas na fresta do terraço, as visitas de madrugada à Huchette) já mostra o mecanismo que vai se repetir até o capítulo 15 da Parte II: o amor precisa de rituais e objetos para não esvaziar.
Para discutir Rodolphe raciocina que, se Emma o amou desde o primeiro dia, "deve amar-me ainda mais", e conclui: "continuemos!". Por que o narrador mostra primeiro o cálculo dele e só depois a fala sedutora, e o que Emma perde por ouvir apenas a segunda camada?
Para discutir Depois de ceder, Emma repete diante do espelho "Tenho um amante! Um amante!", deleitando-se com a ideia "como se fosse a da chegada de uma nova puberdade". A quem ela dirige essa frase: a Rodolphe, a si mesma ou às heroínas dos romances que leu?