Resumo do capítulo
Homais, leitor de um novo método para curar pés tortos, convence Emma Bovary e Charles Bovary de que operar o moço de cavalariça Hippolyte dará fama ao médico, e vence a resistência do rapaz com a vaidade e a promessa de que o aparelho sairá de graça. Charles corta o tendão de Aquiles e Homais escreve, na mesma noite, um artigo triunfal para o Fanal de Rouen. Cinco dias depois a perna de Hippolyte está inchada e, com o aparelho apertado, acaba gangrenada; o doutor Canivet, chamado de Neufchâtel, a amputa enquanto Charles espera em casa, humilhado, e Emma o olha com desprezo. Charles pede um beijo, ela o rejeita aos gritos e o barômetro cai da parede; à noite, Rodolphe Boulanger a reencontra no jardim.
Homais convence Emma e Charles a operar Hippolyte pelo prestígio, não pela cura: quer o artigo no jornal, quer a bola de neve. O convencimento do próprio Hippolyte começa pela vaidade, não pela ciência, e termina no argumento de que não lhe custará dinheiro:
Análise
Não és um homem, caramba? Que seria então se tivesses de servir no exército, de combater pela pátria?
O narrador eleva o momento da incisão a uma escala falsamente heroica, comparando Charles a cirurgiões históricos reais, só para deixar a ironia mais funda quando tudo desanda:
Nem Ambroise Paré, aplicando pela primeira vez desde Celso, após quinze séculos de intervalo, a laqueação imediata de uma artéria, nem Dupuytren, quando estava para abrir um abcesso através de uma espessa camada de encéfalo, nem Gensoul, quando fez a primeira ablação do maxilar superior, sentiram provavelmente palpitar tanto o coração
Como Charles diante de Hippolyte. É bathos puro: a mediocridade vestida de grandeza cirúrgica.
Homais escreve e lê em voz alta, na própria noite da operação, o artigo que vai mandar para o jornal:
Apesar dos preconceitos que cobrem ainda uma parte da face da Europa como uma rede, a luz começa contudo a penetrar nos nossos campos.
Relido em voz alta, o artigo dá ao paciente nome, sobrenome e ofício:
operou um pé aleijado a Hippolyte Tautain, moço de cavalariça há vinte e cinco anos no hotel do Leão de Ouro
O texto promete "os cegos verão, os surdos ouvirão e os coxos andarão", linguagem religiosa emprestada para vender ciência. Cinco dias depois a perna incha e, com o aparelho apertado, acaba gangrenada; o doutor Canivet, chamado por último, amputa, e o momento decisivo do capítulo não é médico, é o de Emma observando o marido em pânico. Ali o romance nomeia sem rodeio o que ela já sabia:
Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.
A cena termina com Charles pedindo um beijo e Emma explodindo ("Basta!"), e o barómetro caindo da parede: o objeto que antes marcava o tempo da sedução (no capítulo 9, era o barómetro que refletia o sol enquanto Rodolphe falava) agora se espatifa no chão.
Para discutir Homais convence Hippolyte pela vaidade ("Não és um homem, caramba?") e pela promessa de que não custará dinheiro, e o narrador compara Charles, na hora da incisão, a Ambroise Paré, Dupuytren e Gensoul. O que a comparação grandiosa faz com a operação e com quem a conduz?
Para discutir Diante de Charles em pânico, Emma sente uma humilhação própria: a "de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor". De quem é a responsabilidade por essa esperança ter existido, e o que o fato de ela ter apostado na operação diz sobre o que espera do marido?