Resumo do capítulo
O capítulo volta ao passado de Emma Bovary, a começar pelo convento, para explicar de onde vem o vocabulário do capítulo anterior. Ela entra aos treze anos, e não perde a fé por descrença, perde por saciedade sensorial: gostava da igreja pelas flores, da música pelas letras das canções, da religião pelo langor místico, nunca pela doutrina, e inventava pecados para ficar mais tempo no confessionário. Ao mesmo tempo, uma velha costureira que vem remendar a roupa branca contrabandeia romances baratos para o dormitório, cheios de amor, amantes e damas perseguidas desmaiando em pavilhões solitários, e Walter Scott e os livros de lembranças com gravuras completam o repertório. Emma consome os dois registros, devocional e romanesco, sem jamais distingui-los.
Análise
O efeito é uma sensibilidade treinada para reconhecer apenas emoções em forma de clichê, e é a chave de leitura do capítulo e do livro inteiro: Emma não é sensível ao mundo, é sensível ao que o mundo pode lhe dar de sensação.
She wanted to get some personal profit out of things, and she rejected as useless all that did not contribute to the immediate desires of her heart, being of a temperament more sentimental than artistic, looking for emotions, not landscapes
, ela queria tirar das coisas algum proveito pessoal, e rejeitava como inútil tudo que não contribuísse para os desejos imediatos do coração, sendo de temperamento mais sentimental que artístico, em busca de emoções, não de paisagens.
A fé do convento cai pelo mesmo critério. This nature, positive in the midst of its enthusiasms, that had loved the church for the sake of the flowers, and music for the words of the songs, and literature for its passional stimulus, rebelled against the mysteries of faith
, esta natureza, positiva no meio dos seus entusiasmos, que amara a igreja pelas flores, a música pelas letras das canções e a literatura pelo estímulo passional, revoltou-se contra os mistérios da fé.
Quando a mãe morre, Emma chora nos primeiros dias, manda fazer um quadro fúnebre com o cabelo da morta e escreve ao pai pedindo para ser enterrada no mesmo túmulo; depois se cansa do luto lamartiniano e continua por hábito. As freiras percebem que ela lhes escapa, o pai a tira do convento sem que ninguém lamente, e em casa ela logo enjoa do campo. Quando Charles Bovary aparece pela primeira vez no Bertaux, ela se julga sem nada mais a aprender ou a sentir, e a perturbação da novidade basta para convencê-la de que enfim sente a paixão que vira nos livros.
Para discutir No convento, Emma amava a igreja pelas flores e a música pelas palavras das canções, e inventava pequenos pecados para ficar mais tempo ajoelhada no confessionário. Isso é devoção ou apetite? O que muda na leitura da cena se a resposta for apetite?
Para discutir Emma procura "emoções, não paisagens", e rejeita como inútil tudo o que não serve aos desejos imediatos do coração. Que tipo de observadora do mundo isso produz, e o que ela deixa de ver?