Resumo do capítulo
Aqui o baile deixa de ser memória e vira doença. Emma Bovary abre a cigarreira (ver A cigarreira verde) sozinha, cheira o forro, pergunta-se de quem seria, se do Visconde, e inventa uma história de amor para o dono: talvez um presente da amante dele, bordado durante horas.
Análise
A breath of love had passed over the stitches on the canvas; each prick of the needle had fixed there a hope or a memory, and all those interwoven threads of silk were but the continuity of the same silent passion
, um sopro de amor passara sobre os pontos da tela; cada picada da agulha ali fixara uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de seda entrelaçados eram apenas a continuidade da mesma paixão silenciosa.
Compra um mapa de Paris e o percorre com o dedo. Assina revistas de moda. Lê Balzac e George Sand procurando nos livros o mesmo que já buscava neles quando criança, satisfação por procuração, agora com um nome próprio de cidade e um rosto (o Visconde) para fixar o desejo. Charles Bovary, enquanto isso, trota pelos campos de médico sem ambição, lê um jornal de medicina que o faz dormir em cinco minutos, e Emma, que gostaria de ver o nome Bovary ilustre, irrita-se com ele até no modo de tomar a sopa.
O tédio que segue não é ausência de acontecimento, é a certeza de que o único acontecimento real da vida de Emma já passou e não volta. Ela abandona o desenho, o bordado, o piano, toda habilidade de convento que só fazia sentido como espetáculo para um público que Tostes não tem.
What was the good of playing? Who would hear her?
, de que adiantava tocar? Quem a ouviria?
O capítulo, e a Parte I, fecham em dois gestos simétricos. Primeiro, a espera por algo que mude o rumo dos dias.
Like shipwrecked sailors, she turned despairing eyes upon the solitude of her life, seeking afar off some white sail in the mists of the horizon
, como náufragos, ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.
Depois vêm o inverno severo, as crises de nervos, as receitas de Charles (valeriana e banhos de cânfora) e a mudança para Yonville (ver Yonville), decidida por ele como remédio contra um mal que ele não entende. No meio da arrumação, o buquê de noiva da própria Emma, farpado numa gaveta, vai para o fogo.
The little pasteboard berries burst, the wire twisted, the gold lace melted; and the shriveled paper corollas, fluttering like black butterflies at the back of the stove, at last flew up the chimney
, as pequenas bagas de papelão estouraram, o arame torceu, a renda dourada derreteu; e as corolas de papel ressecadas, esvoaçando como borboletas negras no fundo do fogão, por fim voaram pela chaminé.
Ela observa a própria história de noiva queimar sem comentário. A Parte I termina com ela grávida, partindo para Yonville em março, sem que uma única palavra sua registre alegria ou medo pela gravidez.
Para discutir Emma cheira o forro da cigarreira, imagina de quem seria e inventa uma amante que a teria bordado, em cujos pontos "cada picada de agulha" teria fixado uma esperança ou uma lembrança. O que ela faz ao ler uma vida inteira num objeto, e em que isso se parece com o modo como lê os romances?
Para discutir Em meio à arrumação da mudança, Emma joga o buquê de noiva no fogo e o olha queimar, e as corolas de papel sobem pela chaminé "como borboletas negras". O que significa esse gesto feito sem uma palavra, e por que o narrador o põe justamente quando o casal se prepara para partir?