Clavis Libri

Madame Bovary · Parte I

Capítulo 9

Resumo do capítulo

Aqui o baile deixa de ser memória e vira doença. Emma Bovary abre a cigarreira (ver A cigarreira verde) sozinha, cheira o forro, pergunta-se de quem seria, se do Visconde, e inventa uma história de amor para o dono: talvez um presente da amante dele, bordado durante horas.

Análise

A breath of love had passed over the stitches on the canvas; each prick of the needle had fixed there a hope or a memory, and all those interwoven threads of silk were but the continuity of the same silent passion, um sopro de amor passara sobre os pontos da tela; cada picada da agulha ali fixara uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de seda entrelaçados eram apenas a continuidade da mesma paixão silenciosa.

Compra um mapa de Paris e o percorre com o dedo. Assina revistas de moda. Lê Balzac e George Sand procurando nos livros o mesmo que já buscava neles quando criança, satisfação por procuração, agora com um nome próprio de cidade e um rosto (o Visconde) para fixar o desejo. Charles Bovary, enquanto isso, trota pelos campos de médico sem ambição, lê um jornal de medicina que o faz dormir em cinco minutos, e Emma, que gostaria de ver o nome Bovary ilustre, irrita-se com ele até no modo de tomar a sopa.

O tédio que segue não é ausência de acontecimento, é a certeza de que o único acontecimento real da vida de Emma já passou e não volta. Ela abandona o desenho, o bordado, o piano, toda habilidade de convento que só fazia sentido como espetáculo para um público que Tostes não tem.

What was the good of playing? Who would hear her?, de que adiantava tocar? Quem a ouviria?

O capítulo, e a Parte I, fecham em dois gestos simétricos. Primeiro, a espera por algo que mude o rumo dos dias.

Like shipwrecked sailors, she turned despairing eyes upon the solitude of her life, seeking afar off some white sail in the mists of the horizon, como náufragos, ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.

Depois vêm o inverno severo, as crises de nervos, as receitas de Charles (valeriana e banhos de cânfora) e a mudança para Yonville (ver Yonville), decidida por ele como remédio contra um mal que ele não entende. No meio da arrumação, o buquê de noiva da própria Emma, farpado numa gaveta, vai para o fogo.

The little pasteboard berries burst, the wire twisted, the gold lace melted; and the shriveled paper corollas, fluttering like black butterflies at the back of the stove, at last flew up the chimney, as pequenas bagas de papelão estouraram, o arame torceu, a renda dourada derreteu; e as corolas de papel ressecadas, esvoaçando como borboletas negras no fundo do fogão, por fim voaram pela chaminé.

Ela observa a própria história de noiva queimar sem comentário. A Parte I termina com ela grávida, partindo para Yonville em março, sem que uma única palavra sua registre alegria ou medo pela gravidez.

Para discutir Emma cheira o forro da cigarreira, imagina de quem seria e inventa uma amante que a teria bordado, em cujos pontos "cada picada de agulha" teria fixado uma esperança ou uma lembrança. O que ela faz ao ler uma vida inteira num objeto, e em que isso se parece com o modo como lê os romances?

Para discutir Em meio à arrumação da mudança, Emma joga o buquê de noiva no fogo e o olha queimar, e as corolas de papel sobem pela chaminé "como borboletas negras". O que significa esse gesto feito sem uma palavra, e por que o narrador o põe justamente quando o casal se prepara para partir?