Clavis Libri

Tema em O Vermelho e o Negro

Classe social

A posição social e a fronteira entre as camadas: aristocracia, burguesia, povo, a ascensão e a queda de posição.

O tema na obra

Verrières tem régua própria, e o narrador a escreve em maiúsculas no capítulo 2 do Livro I: dar lucro. Monsieur de Rênal compra terreno e ergue muros para ser respeitado (cap. 1), contrata o preceptor porque Valenod acaba de comprar dois cavalos normandos (cap. 3) e trata Julien Sorel de criado (cap. 7). Julien, filho de um serrador que despreza nele a leitura (cap. 4), entra na casa recusando ser criado e perguntando com quem comerá (cap. 5), e odeia a sociedade que o admite na outra ponta da mesa (cap. 7).

A fronteira passa também pelo amor. Ao dizer "tão bem-nascidos" dos filhos dela, Julien sente que, aos olhos da Madame de Rênal, ele não é (cap. 13), e quando um elogio a Napoleão lhe escapa, ela franze a testa porque aquilo soa a pensamento de criado (cap. 17). Em Paris a régua passa do dinheiro ao nascimento: o Marquês de La Mole desanima diante de um erro de ortografia (Livro II, cap. 2), o salão converte toda ideia viva em grosseria (cap. 4), e um traje azul basta para fazê-lo, à noite, irmão caçula de um conde, enquanto de manhã, de preto, volta a ser secretário (cap. 7).

Mathilde de La Mole inverte a régua sem aboli-la: para ela a origem nobre tira a força de caráter (cap. 8), e é por Julien não ser nobre que o amor deixa de ser uma aliança desigual (cap. 12). Quando a gravidez obriga o marquês a escolher, ele não suporta ver a filha chamar-se sra. Sorel em vez de duquesa (cap. 33) e resolve o problema inventando um nome, La Vernaye (cap. 34), e uma origem em que o carpinteiro aparece só como quem cuidou do menino (cap. 35). No tribunal, Julien nomeia a linha que o romance traçou desde Verrières: não é julgado por seus pares, e querem puni-lo pela origem (cap. 41). Na prisão, o pai, Sorel pai, ainda lhe apresenta a conta da educação (cap. 44).

O livro mostra duas réguas, e Julien não cabe em nenhuma. Em Verrières o talento vale enquanto der lucro; em Paris vale enquanto se disfarçar de nascimento. O romance recusa a saída que a época prometia: nem o dinheiro da província nem o mérito posto a serviço da nobreza apagam a linha, e a única vez em que Julien a enfrenta de frente é quando desiste de se defender. O discurso ao júri é a primeira fala pública dele sem cálculo, e é a que o condena.

Onde aparece

Passagens

A régua da província, escrita em maiúsculas pelo narrador:

O narrador entrega a chave da cidade numa única frase maiúscula, que funciona como epígrafe interna do capítulo II: Eis a grande palavra que decide tudo em Verrières: DAR LUCRO. Por si só representa o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes.
Livro I, capítulo 2: Um prefeito

A linha aparece dentro do próprio amor, no franzir de sobrancelhas da sra. de Rênal:

O franzir de sobrancelhas mostra a Julien de que lado ela foi educada: Ela é boa e gentil, tem por mim uma afeição viva, mas foi criada em campo inimigo.
Livro I, capítulo 17: O primeiro-adjunto

Em Paris, a régua é outra, e nenhum dinheiro a compra:

Não há cem mil escudos de renda nem condecoração que possa lutar contra essa norma de salão. Uma ideia viva, mínima que fosse, parecia uma grosseria.
Livro II, capítulo 4: A mansão de La Mole

Mathilde ama justamente a distância que o salão não perdoa:

Se, apesar de sua pobreza, Julien fosse nobre, meu amor não passaria de uma tolice vulgar, apenas uma aliança desigual; isso eu não aceitaria; não haveria o que caracteriza as grandes paixões: a enorme dificuldade a ser vencida e a obscura incerteza dos acontecimentos.
Livro II, capítulo 12: Será um Danton

E no tribunal Julien a nomeia antes de qualquer defesa:

Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.
Livro II, capítulo 41: O julgamento