A cidade em que o diabo desembarca
A Moscou do romance é a da União Soviética de Stálin, descrita com olho de cronista. A falta de moradia aparece logo: na casa Griboiêdov, a fila mais comprida é a da porta com o letreiro "Problemas habitacionais" (capítulo 5), e o síndico Nikanor Bossôi recebe trinta e duas petições de vizinhos que querem os cômodos do morto Berlioz (capítulo 9). Nas grandes cidades soviéticas era comum várias famílias dividirem um mesmo apartamento, com cozinha e banheiro coletivos, e um cômodo próprio era privilégio disputado. Por isso Woland, no meio da sessão de magia, depois da chuva de dinheiro, diz que só o problema habitacional corrompeu os moscovitas (capítulo 12).
O medo da denúncia também vem da época. Nos anos 1930, a polícia política prendia e fazia desaparecer pessoas, muitas vezes por acusação de vizinhos ou colegas. O apartamento 50 já tinha fama sinistra porque a proprietária e os inquilinos haviam sumido um a um (capítulo 7); Aloísi Mogarytch denuncia o mestre por guardar "literatura ilegal" só para ficar com o apartamento dele (capítulo 24); e Nikanor vai preso por dólares que jura nunca ter tido (capítulo 9).
O Estado queria, ainda, as divisas e os metais preciosos dos cidadãos. A rede de lojas Torgsin, que funcionou de 1931 a 1936, trocava alimentos por moeda estrangeira, ouro e prata, e é nela que Korôviev e Behemoth ateiam fogo (capítulo 28). No pesadelo de Nikanor, uma plateia de homens é chamada ao palco para entregar o dinheiro estrangeiro escondido em casa (capítulo 15).
Escritores, crítica e ateísmo oficial
Desde 1925 existia a Liga dos Ateus Militantes, que fazia propaganda contra a religião. O poema antirreligioso que Berlioz encomenda a Ivan nasce desse clima: o editor o repreende porque o poeta pintou um Jesus de traços negativos, quando o correto era negar que Jesus tenha existido (capítulo 1).
A vida literária era igualmente dirigida pelo Estado. No começo da década de 1930 o Partido dissolveu os grupos de escritores e, em 1934, reuniu todos numa só União. A Massolit do romance, inspirada em organizações reais da época, dá aos sócios carteirinha, casa de veraneio, restaurante e férias criativas em Ialta (capítulo 5). É por esse sistema que o mestre cai: o editor recusa o romance dele sobre Pilatos, e artigos de Ariman, Lavrôvitch e Latunski o atacam como apologia de Cristo e "pilatismo" (capítulo 13).
De onde vêm as histórias
O romance dentro do romance reescreve os Evangelhos. Pôncio Pilatos governou a Judeia de 26 a 36 d.C. e o livro o chama de procurador, como o historiador Tácito; a inscrição conhecida como Pedra de Pilatos o dá como prefeito. A cena do interrogatório reúne figuras evangélicas: o sumo sacerdote Caifás, o bandido Bar-Raban solto na Páscoa, Judas de Kerioth e Mateus, o ex-cobrador de impostos (capítulo 2). Dismas e Gestas, os dois condenados ao lado de Yeshua, são nomes que os Evangelhos não dão aos ladrões e que uma tradição posterior atribui a eles (capítulo 16). O próprio Berlioz nota que a história do estrangeiro não coincide com a dos Evangelhos (capítulo 3).
Outras fontes aparecem no texto. O estrangeiro diz ter sido chamado a Moscou para decifrar manuscritos de Gerbert d'Aurillac, personagem real do século X que chegou a papa, como Silvestre II, e na Idade Média ficou conhecido também como mago (capítulo 1). E a epígrafe, em que o diabo se define como parte da força que sempre quer o mal e sempre faz o bem, é de Fausto, de Goethe, na fala de Mefistófeles.
Lugares que existem
Boa parte do mapa é real. Patriarchi Prudý, o parque da conversa inicial, é um lugar de Moscou (capítulo 1). A casa Griboiêdov foi modelada na Casa Herzen, no Bulevar Tverskoi, que abrigou organizações de escritores nos anos 1920 e, até 1931, um restaurante para eles (capítulo 5). E o prédio da rua Sadôvaia, onde o romance põe o apartamento 50, é aquele em que o autor morou nos anos 1920 e que hoje abriga um museu dedicado a ele (capítulo 9).