Resumo do capítulo
O capítulo abre com uma invocação do próprio narrador, fora da voz de qualquer personagem, sobre o cansaço de quem carregou um fardo pesado pela terra.
Análise
Deuses, meus Deuses! Como está triste a terra à noite! [...] entrega-se nas mãos da morte com o coração leve, sabendo que somente ela...
Durante o voo noturno, a lua (ver A lua) desfaz os disfarces de todos: Korôviev revela-se um cavaleiro sombrio que paga por "uma brincadeira infeliz" com um trocadilho sobre luz e trevas, Behemoth é na verdade um jovem pajem demoníaco, e o O mestre aparece grisalho, com esporas de estrelas nas botas.
A transformação do gato:
Aquele gato que divertia o príncipe das trevas revelou-se um jovem magrinho, um demônio pajem, o melhor bobo da corte que existia no mundo.
A de Azazello, cujo canino e olho torto se revelam falsos:
Agora, Azazello voava em sua aparência verdadeira, como um demônio do deserto sem água, demônio assassino.
O grupo desce numa planície pedregosa onde um homem de manto branco está sentado numa poltrona de pedra há quase dois mil anos, ao lado de um cão fiel, sofrendo de insônia toda vez que a lua cheia se aproxima.
Há aproximadamente dois mil anos ele está nesse local e dorme, mas, quando chega a lua cheia, como está vendo, fica atormentado pela insônia.
Woland retoma a frase de Yeshua Ha-Notzri ao apresentar o prisioneiro dos dois mil anos, e a usa para absolver quem estava ao lado dele. Caso seja verdade que a covardia é o pior defeito, então penso que o cachorro não é culpado.
Woland explica que Pôncio Pilatos sonha sempre a mesma coisa, seguir o caminho da lua para terminar a conversa que deixou pela metade com o prisioneiro Ha-Notzri no décimo quarto dia de Nissan, e que odeia, mais do que tudo, a própria imortalidade e a glória sem precedentes. Não é o crime de covardia que o condena a repetir a cena, é a frase interrompida: o castigo do procurador é ter fechado o processo sem fechar a fala.
Que pergunta ficou pendente demais para ser esquecida, mesmo depois de dois mil anos: a de Pilatos para Yeshua, ou a do leitor para o próprio livro, que só se resolve nesta cena?
Margarida pede clemência, Woland ri e devolve a decisão a quem já tem autoridade sobre aquele personagem: o próprio mestre, autor do romance sobre Pilatos.
Ao grito de Margarida para que deixem Pilatos ir, Woland responde que a intercessão já foi feita por outro. Não precisa interceder por ele, Margarida, pois aquele que quer conversar com ele o fez.
O mestre grita a frase que fecha o romance dentro do romance.
Está livre! Está livre! Ele está esperando por você!
As montanhas desabam, surge um jardim crescido durante mil luas, e Pilatos corre pelo caminho lunar atrás do cachorro, ao encontro de Yeshua. O mestre pergunta se deve ir atrás dele.
Não — respondeu Woland. — Para que ir atrás daquilo que já acabou?
Woland recusa ao mestre também voltar a Moscou, e oferece o destino que também é de Yeshua ("aquilo que Yeshua pediu por vocês"): não a cidade abandonada, não a luz do jardim, mas uma casa com parreiras, música de Schubert à noite e penas de ganso para escrever, "romântico mestre".
Para lá, para lá! Lá o aguardam uma casa e o velho escravo, as velas já estão acesas, mas logo se apagarão, porque você encontrará o amanhecer imediatamente.
O texto nunca diz a palavra "luz" para o que Pilatos recebe (um jardim que ele mesmo atravessa correndo, sem clareza sobre o que encontra do outro lado) nem a palavra "descanso" para o que o mestre recebe: dá ao mestre uma casa concreta, com música, velas e trabalho manual, o oposto de uma recompensa mística. É esse contraste, entre o perdão que se resolve numa conversa retomada e o refúgio (ver A casa do refúgio) que se resolve numa rotina doméstica, que fixa a ideia consagrada pela crítica de que Pilatos ganha a paz da conversa terminada e o mestre ganha o sossego de uma vida sem mais interrupção, nenhum dos dois a iluminação de quem já não precisa de mais nada.
Margarida guia o mestre até a casa eterna pela ponte de pedra musguenta.
Ouça o sossego [...] ouça e deleite-se com aquilo que não lhe deram em vida, o silêncio.
A memória do mestre, "perfurada de agulhas", começa a se apagar, do mesmo jeito que ele acabara de libertar Pilatos ao terminar o seu romance.
perdoado na véspera do domingo, o filho do rei astrólogo, o cruel quinto procurador da Judeia, o cavaleiro Pôncio Pilatos.
Para discutir Woland diz que, "Caso seja verdade que a covardia é o pior defeito", o cachorro de Pilatos não é culpado. O que essa frase absolve, e o que deixa sem absolver?
Para discutir O mestre recebe uma casa sob parreiras, com música de Schubert à noite e penas de ganso para escrever. Por que o romance imagina o descanso dele de forma tão concreta e doméstica, e isso é prêmio ou limite?