Resumo do capítulo
Um homem descalço, de roupão de paciente, entra à noite pela varanda do quarto de Ivan Nikoláievitch Bezdômny no hospício e se apresenta aos poucos: ao saber que Ivan está ali por causa de Pôncio Pilatos, pede que ele lhe conte tudo o que aconteceu em Patriarchi Prudý. Ouve o relato inteiro com um interesse cada vez mais próximo do êxtase, reconhece no consultor descrito Woland e, ao final, confirma o que Ivan ainda resiste a aceitar.
Análise
Ontem, em Patriarchi Prudý, o senhor se encontrou com Satanás.
Perguntado por quem é, o visitante recusa o próprio nome ("renunciei a tudo na vida") e se apresenta só pela profissão.
Sou um mestre.
Para discutir O mestre passa o capítulo inteiro recusando o nome próprio, mas aceita sem hesitar o título que a amada lhe deu. O que isso diz sobre o que ele ainda considera seu, depois de perder tudo o mais?
Ele então narra a própria vida: historiador e tradutor, ganhou cem mil rublos numa bonificação de loteria, largou o museu, alugou dois cômodos no subsolo de um palacete perto da Arbat e passou a escrever, isolado e feliz, um romance sobre Pôncio Pilatos. Numa tarde de maio, na rua, cruzou com uma mulher desconhecida que levava flores amarelas.
Ela levava nas mãos flores abomináveis, de um amarelo inquietante.
Os dois se apaixonam na mesma hora, sem nunca terem se visto antes.
O amor surgiu diante de nós, como um assassino que surge do nada em uma travessa, e nos acertou em cheio.
Ela, casada com outro homem que nunca aparece na cena, passa a visitá-lo todos os dias, lê os manuscritos, incentiva-o e é quem começa a chamá-lo de mestre. O romance é concluído em agosto, mas o editor recusa publicá-lo sem antes submetê-lo a outros membros do conselho, e a resposta final, semanas depois, é negativa. Uma onda de artigos hostis assinados pelos críticos Ariman e Latunski e pelo literato Mstislav Lavrôvitch ataca o livro como apologia de Cristo e cunha contra ele a expressão "pilatismo". O mestre adoece de medo (chega a temer o escuro) e, numa noite de outubro, sozinho, queima o manuscrito (ver O manuscrito) no forno.
É muito difícil fazer isso, porque o papel escrito queima a contragosto.
Antes da queima, entre os artigos, o mestre separa como o pior o de Latunski, intitulado "Um militante do velho credo".
Garanto ao senhor que as obras de Ariman e Lavrôvitch não passavam de brincadeira em comparação com o que fora escrito por Latunski.
A amada chega correndo bem a tempo de salvar do fogo apenas um maço de folhas já queimadas e promete se libertar do marido para ficar com ele de vez.
Vou salvá-lo, vou salvá-lo. O que significa tudo isso?
O mestre recusa a oferta, doente e com medo de arrastá-la consigo, e ela promete voltar de manhã; quinze minutos depois de ela sair, batem à janela do subsolo, e o que veio a seguir ele só sussurra ao ouvido de Ivan. Em meados de janeiro, de noite, volta ao pátio de sobretudo sem botões, ouve um gramofone tocar nos cômodos que eram seus e atravessa a cidade a pé até a clínica de Stravinski (ver A clínica de Stravinski), onde está há quatro meses. Ivan sugere que escreva à amada, e ele responde que não a faria infeliz com uma carta de hospício: por isso não a procura.
O capítulo termina exatamente onde o capítulo 1 tinha começado: Ivan finalmente ouve confirmado, por dentro do próprio hospício, aquilo que ninguém em Moscou quis acreditar quando ele mesmo tentou contar.
Para discutir O mestre diz que o amor surgiu diante dele e da amada "como um assassino que surge do nada em uma travessa". Que imagem do amor essa comparação propõe, e como ela combina com o que o mestre conta em seguida sobre os dois?
Para discutir O mestre queima o romance depois dos artigos hostis e observa que "o papel escrito queima a contragosto". O que o capítulo deixa claro sobre o motivo de ele ter destruído o livro: a crítica, o medo ou outra coisa?