Resumo do capítulo
Berlioz, editor de revista e presidente do conselho da associação literária Massolit, e o jovem poeta Ivan Nikoláievitch Bezdômny discutem, num entardecer quente em Patriarchi Prudý, o poema antirreligioso que Ivan escreveu por encomenda: Berlioz quer que o poeta pare de retratar um Jesus com traços negativos e passe a negar que ele tenha existido, citando Fílon de Alexandria e Flávio Josefo como historiadores que jamais o mencionaram.
Análise
É a tese que a cena inteira vai desmontar: o romance não refuta o ateísmo dos dois com um argumento, refuta com um fato que acontece.
Um estrangeiro de olhos desparelhados (um verde, um preto) senta-se ao lado deles, defende a sexta prova de Kant sobre a existência de Deus e assusta os dois ao perguntar, então, quem administra a vida humana, já que ninguém consegue nem garantir o próprio dia de amanhã.
A objeção que Berlioz prepara é a do bom senso, que o ser humano é mortal, e o estrangeiro a desmonta acrescentando um advérbio. É, o ser humano é mortal, mas isso ainda seria só metade da desgraça. O ruim é que às vezes ele é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em geral ele não pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
É a dobradiça do argumento inteiro do capítulo, e é o que faz dele uma cena de abertura tão citada fora do romance: a questão não é a mortalidade, que ninguém nega, é a impossibilidade de administrar o próprio prazo. Quem não pode responder pela própria tarde não governa coisa alguma, e é dessa brecha que sai a pergunta sobre quem administra a vida humana.
Um tijolo [...] não cai nunca sem mais nem menos na cabeça de ninguém. E eu lhe garanto que isso, particularmente, não o ameaça de jeito nenhum. O senhor morrerá de morte diferente
Perguntado por quem o mataria, o estrangeiro consulta signos invisíveis no ar e anuncia a sentença.
Vão cortar sua cabeça!
Para discutir Por que o romance escolhe fazer a profecia mais exata da obra ser dita por um estrangeiro sem nome, a dois homens que acabaram de negar que exista qualquer poder além do humano?
O estrangeiro ainda prevê que a reunião da Massolit daquela noite não vai acontecer, porque uma tal Ánnuchka já derramou o óleo de girassol que vai fazer alguém escorregar.
Ánnuchka já comprou o óleo de girassol, e não só comprou como já o derramou. Não haverá reunião
Ivan desconfia que o estrangeiro seja um espião disfarçado, mas ele se apresenta com um cartão de visita, um passaporte e um convite para vir a Moscou como consultor, e Ivan só consegue ler a inicial do sobrenome, um "W". Perguntado sobre sua especialidade, o estrangeiro responde que é magia negra, contratado para decifrar manuscritos do necromante Gerbert D'Aurillac descobertos na biblioteca estatal. No fecho do capítulo, chamando os dois para perto de si, ele muda de assunto sem aviso.
Saibam que Jesus existiu
E começa a narrar, como se tivesse estado lá, a manhã em que Pôncio Pilatos julgou um prisioneiro na Judeia.
Para discutir Berlioz sustenta sua tese com historiadores, e o estrangeiro responde com previsões sobre a tarde que Berlioz ainda vai viver. O que cada modo de convencer exige de quem escuta, e qual dos dois o romance parece favorecer?
Para discutir Quando o estrangeiro diz que o ser humano às vezes "é mortal de repente", o que ele acrescenta à objeção de que todo homem é mortal? Por que isso basta para recolocar a pergunta sobre quem governa a vida humana?