Resumo do capítulo
Depois que Woland deixa a capital, no anoitecer de sábado, Moscou tenta explicar o inexplicável: a investigação atribui tudo a uma quadrilha de hipnotizadores e ventríloquos, com as suspeitas pesando sobre Korôviev, capaz de convencer as pessoas de que coisas e gente estavam onde não estavam. A cidade prende dezenas de sobrenomes parecidos, mata gatos pretos por toda parte por suspeita de bruxaria, e nunca descobre quem era o "doente mental" sequestrado da clínica sob o número 118. Os personagens menores acomodam-se em destinos discretamente irônicos: Bengálski se aposenta incapaz de voltar ao palco, Stiôpa Likhodiêiev vira gerente de mercearia em Rostov, Rímski se demite para o teatro de bonecos, e Aloísi Mogarytch, o delator que denunciou o O mestre por seu apartamento, termina exatamente no cargo que Rímski recusou, o de diretor financeiro do Teatro de Variedades.
Análise
O Epílogo não junta as pontas soltas por acaso: é o próprio mecanismo de explicação racional, a "investigação", que vira personagem cômico, produzindo uma verdade oficial cada vez mais absurda (hipnose em massa, gato ventríloquo) para não admitir o sobrenatural. É o mesmo gesto que abre o romance no Patriarchi Prudý, quando Berlioz tenta provar a Ivan Nikoláievitch Bezdômny que o diabo não existe.
O centro do fechamento é Ivan Nikoláievitch (pseudônimo Bezdômny), agora professor do Instituto de História e Filosofia, curado da crise que teve na juventude, exceto por um sintoma que a ciência não toca: toda lua (ver A lua) cheia de primavera ele volta ao mesmo banco em Patriarchi Prudý, sente o mesmo desassossego, e segue até a mansão onde mora Nikolai Ivânovitch (o vizinho que Natacha transformou em porco, personagem à parte de Ivan Nikoláievitch, apesar do nome quase idêntico) e o vê gritar "Vênus!" para a janela vazia, invocando Vênus no lugar da bruxa que o carregou pelos ares.
Ivan aceita que foi vítima de hipnose e se cura da versão médica da história inteira; o que ele não consegue explicar é justamente o sintoma que sobra depois da cura, a lua cheia. O que significa dizer que alguém "entendeu tudo" quando o corpo continua reagindo a uma coisa que a razão já descartou?
Depois da injeção que a esposa aplica todo ano, Ivan sonha com Pôncio Pilatos e Yeshua Ha-Notzri subindo juntos o caminho lunar, o cão fiel atrás deles, e depois com o mestre e Margarida: ele confirma que tudo terminou assim, e ela o beija na testa.
Terminou assim, meu discípulo
Antes disso, no mesmo caminho lunar, a fala de Pilatos a Yeshua é uma súplica que nega o próprio crime; Ivan acorda em paz até a próxima lua cheia.
Que execução vil! Por favor, diga-me [...] que ela não existiu! Suplico, diga-me, não existiu?
A data que fecha o texto, "1929-1940", marca os onze anos de composição do romance, revisado por Bulgákov até poucas semanas antes de morrer; a obra só chegou ao público soviético em versão censurada, na revista Moskvá, entre o fim de 1966 e o começo de 1967, quase três décadas depois de escrita.
Para discutir A investigação oficial atribui tudo a hipnotizadores e ventríloquos, e a cidade mata gatos pretos por suspeita de bruxaria. Que explicação a sociedade escolhe para não admitir o inexplicável, e como o epílogo a retrata?
Para discutir Aloísi Mogarytch, o vizinho que denunciou o mestre para ficar com o apartamento dele, acaba no cargo de diretor financeiro do Teatro de Variedades, que Rímski recusou. O que esse destino diz sobre o que o romance pensa dos delatores e da justiça, e é ironia, castigo ou outra coisa?