Resumo do capítulo
À noite, atormentado, Pôncio Pilatos brinca com o cão Banga na varanda enquanto Afrânio põe o plano em movimento: destaca soldados para fora da cidade, veste-se de civil e vai até a Cidade Baixa combinar algo com uma mulher chamada Niza. É Niza quem, horas depois, atrai Judas de Kerioth para o jardim de Getsêmani com a promessa de um encontro, e o abandona ali. Dois homens saltam da escuridão, cravam a faca em Judas depois de arrancar-lhe a bolsa de trinta tetradracmas, e um terceiro, encapuzado, supervisiona a cena e entrega o bilhete que os assassinos embrulham junto com a bolsa.
Análise
A cena repete, em espelho, o próprio esquema que Judas usou contra Yeshua Ha-Notzri: também ele é atraído por afeto fingido e vendido por dinheiro, e a réplica narrativa é deliberada, porque devolve ao traidor a lógica exata da traição.
Trinta tetradracmas! Trinta tetradracmas! Tudo que recebi está comigo. Está aqui o dinheiro! Tomem, mas me deixem viver
O saco é jogado, com um bilhete, no pátio do palácio de Caifás, para simular a vingança de admiradores anônimos de Yeshua.
Devolvo o dinheiro maldito
Ainda de noite, sob a lua (ver A lua), Pilatos é acordado com a chegada de Afrânio, que relata tudo como se a própria guarda tivesse falhado em proteger Judas, e o procurador finge indignação, elogia o trabalho do chefe da guarda e trata do sepultamento dos três executados, entre eles Yeshua, cujo corpo Mateus Levi levara para uma caverna do monte, reclamando o direito de sepultá-lo.
Peço que me entregue ao tribunal, procurador. O senhor estava certo. Eu não soube proteger o Judas de Kerioth, ele foi esfaqueado e morto. Quero ser julgado e demitido.
Perguntado se Judas não teria se matado, Afrânio recusa a hipótese e descreve o crime com um olhar irônico para o procurador; no fim da conversa recebe de Pilatos um anel, "como uma recordação".
Foi morto com uma habilidade impressionante, procurador
Levado à presença de Pilatos, Mateus Levi recusa a oferta de servir na biblioteca do procurador em Cesareia e declara que vai dedicar o resto da vida a vingar Yeshua matando Judas.
Vou matar Judas de Kerioth; a isso, sim, dedicarei o resto da minha vida
Pilatos então revela o que fizera:
Fui eu
A revelação fecha a conversa com Levi: a autoridade que condenou Yeshua por covardia perante César é a mesma que, à traição, executa em segredo a justiça que a lei não lhe permitiria fazer em público.
Para discutir Judas é atraído a Getsêmani por uma mulher que finge afeto e morto por homens que lhe tomam a bolsa de dinheiro, depois de ter entregado Yeshua por dinheiro, após acolhê-lo em casa. Esse paralelo é justiça ou é outra traição?
Para discutir Pilatos diz a Levi "Fui eu" ao revelar quem fez aquilo com Judas. O que muda no sentido da palavra justiça quando ela é feita em segredo por quem, em público, condenou Yeshua?