Dizer uma coisa querendo que se entenda outra, muitas vezes o contrário. O sentido verdadeiro fica por conta de quem lê ou de quem ouve.
Em Dom Quixote
não afrontam as feridas que se dão com os instrumentos que por acaso se acham nas mãos; e isto está na lei do duelo, escrito por palavras expressas: que se o sapateiro dá em outro com a forma que tem na mão, ainda que de verdade seja de pau, nem por isso se dirá que fica apaleado aquele a quem ela acertou.
A «lei do duelo», citada «por palavras expressas», serve para dizer que a surra não conta como surra, e a solenidade da regra torna ainda mais cômico o consolo de um homem moído pelas estacas.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem, dom Quixote, a Sancho, depois da surra dos arrieiros
se não se deixam ver, deixam-se sentir, disse Sancho; senão, digam-no minhas costas.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem, Sancho Pança, ao amo, na estalagem tomada por castelo
como se eu não soubesse quantas são cinco e onde me aperta o sapato! [...] estando impresso com licença dos senhores do Conselho Real, como se eles fossem gente que havia de deixar imprimir tanta mentira junta.
tudo isso eu creria, respondeu Sancho, se também o meu manteamento fosse coisa dessa laia, mas não foi, e sim real e verdadeiramente; e vi eu que o estalajadeiro que aqui está hoje tinha uma ponta da manta e me empurrava para o céu com muito donaire e brio, e com tanto riso como força; e onde se conhecem as pessoas, tenho para mim, ainda que simples e pecador, que não há encantamento algum, mas muita moedura e muita má ventura.
Primeira Parte: O Curioso Impertinente, Sancho Pança, ao amo, na estalagem
tomai, senhora, essa mão, ou, por melhor dizer, esse verdugo dos malfeitores do mundo; tomai essa mão, digo, a quem não tocou outra de mulher alguma, nem mesmo a daquela que tem inteira posse de todo o meu corpo.
o qual autor não pede aos que a lerem, em prêmio do imenso trabalho que lhe custou inquirir e buscar todos os arquivos manchegos, para a tirar à luz, senão que lhe deem o mesmo crédito que costumam dar os discretos aos livros de cavalarias, que tão valorizados andam no mundo.
Primeira Parte: A jaula e o cônego, o narrador, no fim da Primeira Parte
gostarias que eu o tratasse de asno, de mentecapto e de atrevido, mas isso nem me passa pelo pensamento: que o seu pecado o castigue, que coma o seu pão e se arranje.
Segunda Parte: O livro impresso, Cervantes, no prólogo da Segunda Parte, ao leitor
o generoso leão, mais comedido que arrogante, sem fazer caso de meninices nem de bravatas, depois de olhar para uma e outra parte, voltou as costas e mostrou a dom Quixote suas partes traseiras, e com grande fleuma e remanso tornou a deitar-se na jaula.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho, o narrador, quando o leão fica diante do fidalgo
voltaram às suas bestas, e a ser bestas, dom Quixote e Sancho, e este fim teve a aventura do encantado barco.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo, o narrador, no fim da aventura do barco
Sancho, pois vós quereis que se vos creia o que vistes no céu, eu quero que vós me creiais a mim o que vi na gruta de Montesinos; e não vos digo mais.
nem tiro rei, nem ponho rei, respondeu Sancho, mas ajudo a mim mesmo, que sou meu senhor.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona, Sancho, ao amo, quando este tenta açoitá-lo à força
abre os olhos, desejada pátria, e vê que volta a ti Sancho Pança, teu filho, se não muito rico, muito bem açoitado. Abre os braços e recebe também teu filho dom Quixote, que, se vem vencido dos braços alheios, vem vencedor de si mesmo; que, segundo ele me disse, é o maior vencimento que se pode desejar. Dinheiros levo, porque, se bons açoites me davam, bem cavaleiro eu ia.
Segunda Parte: A derrota e a morte, Sancho, de joelhos, ao avistar a aldeia, com o amo ao lado
Assinatura
A explicação de cada passagem, em todos os recursos e em todas as obras, está na assinatura.