Clavis Libri

Personagem

Emma Bovary

Quem é

Filha de Rouault, de cuja fazenda Charles Bovary a tira para casar depois de enviuvar, e mãe de Berthe Bovary. o guia da obra a resume como uma mulher educada por romances que espera da vida o que só existe em romance. O capítulo 6 da Parte I volta ao convento para mostrar de onde vem esse vocabulário: a devoção consumida pelas flores, pelas letras das canções e pelo langor místico, e os romances baratos contrabandeados por uma costureira, lidos sem distinguir um registro do outro.

She wanted to get some personal profit out of things, and she rejected as useless all that did not contribute to the immediate desires of her heart, being of a temperament more sentimental than artistic, looking for emotions, not landscapes, ela queria tirar das coisas algum proveito pessoal, e rejeitava como inútil tudo que não contribuísse para os desejos imediatos do coração, sendo de temperamento mais sentimental que artístico, em busca de emoções, não de paisagens.
Parte I, capítulo 6

Trajetória

No capítulo 4 da Parte I casa com Charles; no capítulo 5 da Parte I, no quarto do casal, vê o buquê de flores de laranjeira da noiva morta e imagina o que seria feito do seu se ela morresse. No capítulo 7 da Parte I tenta amar o marido por teoria, recitando versos ao luar. No capítulo 8 da Parte I, o baile em La Vaubyessard lhe mostra por uma noite o que falta, e ela guarda A cigarreira verde que Charles acha na estrada de volta.

Her journey to Vaubyessard had made a hole in her life, like one of those great crevices that a storm will sometimes make in one night in mountains, sua viagem a Vaubyessard (ver La Vaubyessard) tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas.
Parte I, capítulo 8

No capítulo 9 da Parte I, em Tostes, abandona o desenho, o bordado e o piano, espera alguma coisa que mude o rumo dos dias e joga no fogo o próprio buquê de noiva, achado numa gaveta durante os preparativos da mudança. Parte grávida para Yonville.

What was the good of playing? Who would hear her?, de que adiantava tocar? Quem a ouviria?
Parte I, capítulo 9
Like shipwrecked sailors, she turned despairing eyes upon the solitude of her life, seeking afar off some white sail in the mists of the horizon, como náufragos, ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.
Parte I, capítulo 9

No capítulo 2 da Parte II constrói com Léon, no jantar de chegada, um repertório comum de pores do sol, lagos da Suíça e livros lidos junto à lareira. No capítulo 3 da Parte II desmaia quando sabe que teve uma menina, porque queria um filho homem.

Ela desejava um rapaz, seria forte e moreno, chamar-se-ia Georges, e esta ideia de ter um filho varão era uma espécie de desejo de desforra de todas as suas frustrações passadas. Um homem, pelo menos, é livre, pode explorar todas as paixões e todas as terras, atravessar os obstáculos, tomar o gosto das venturas mais distantes. Mas uma mulher é continuamente impedida de tudo.
Parte II, capítulo 3

No capítulo 4 da Parte II, nos serões em casa de Homais, forma com Léon uma cumplicidade em que nada acontece, e é nesse ambiente que o texto registra a ideia de amor que ela traz.

o amor, segundo acreditava, devia surgir de repente, com grande tumulto e fulgurações [...] tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro.
Parte II, capítulo 4

No capítulo 6 da Parte II vai à igreja procurar o Abade Bournisien, que trata a angústia dela como fome ou frio. Léon parte para Paris sem se declarar; no capítulo 7 da Parte II, na ausência dele, ela se amaldiçoa por não o ter amado; apagada a saudade, consola-se comprando um genuflexório gótico, um vestido de caxemira azul e a mais bonita das estolas de Lheureux. No comício do capítulo 8 da Parte II, Rodolphe Boulanger lhe segura a mão enquanto o presidente anuncia os prêmios de gado.

Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo.
Parte II, capítulo 8

No capítulo 9 da Parte II cede a Rodolphe na cavalgada no bosque e, sozinha diante do espelho, repete a frase que a põe dentro do tipo de mulher apaixonada que invejava nos romances.

Tenho um amante! Um amante!
Parte II, capítulo 9

No capítulo 11 da Parte II, depois da operação de Hippolyte, olha o marido em pânico, e o texto nomeia o que ela pensa dele.

Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.
Parte II, capítulo 11

No capítulo 12 da Parte II passa a comprar a crédito de Lheureux e combina com Rodolphe uma fuga para 4 de setembro. No capítulo 13 da Parte II, a carta de ruptura a leva ao sótão, à beira da água-furtada, e só a voz de Charles chamando por ela a detém; seguem uma febre cerebral e quarenta e três dias com Charles à cabeceira. No capítulo 14 da Parte II vêm a devoção da convalescença e, por sugestão de Homais, a ida à ópera; no capítulo 15 da Parte II, em Rouen, projeta no tenor Lagardy uma nova fantasia, e Léon reaparece.

Porque não acabar com tudo? Quem a impediria?
Parte II, capítulo 13
Rapta-me, leva-me, fujamos! Para ti, para ti!, todos os meus ardores e todos os meus sonhos!
Parte II, capítulo 15

No capítulo 1 da Parte III reencontra Léon em Rouen e sai com ele da catedral para O fiacre; no capítulo 2 da Parte III obtém de Charles a procuração; no capítulo 3 da Parte III passa três dias com ele no Hotel de Boulogne; nos capítulos 4 e 5 da Parte III inventa aulas de piano com Mademoiselle Lempereur para ir a Rouen toda quinta-feira, e no capítulo 5 da Parte III assina as letras de câmbio de Lheureux.

a sua vida não foi mais que uma colecção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder
Parte III, capítulo 5
Conhecia-se já demasiado para ter aquelas surpresas da posse que lhe centuplicam o gozo. Emma estava tão enfastiada de Léon como este cansado dela. Emma encontrava agora no adultério toda a insipidez do casamento
Parte III, capítulo 6

No capítulo 6 da Parte III chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e Lheureux lhe fecha a porta.

No capítulo 7 da Parte III a casa é penhorada, e ela pede dinheiro a Léon e depois ao tabelião Guillaumin, e recusa o assédio dele. No capítulo 8 da Parte III, pede-o por fim a Rodolphe, ouve a recusa dele, entra no laboratório de Homais e come o arsênico do frasco azul.

O senhor aproveita-se impunemente da minha aflição! Eu sou para lastimar, mas não para vender!
Parte III, capítulo 7
retirando-a cheia de um pó branco, pôs-se a comê-lo directamente
Parte III, capítulo 8
Não acusem ninguém…
Parte III, capítulo 8

Bournisien a unge na extrema-unção, órgão por órgão, e o capítulo 8 da Parte III fecha com uma frase de três palavras.

Deixara de existir.
Parte III, capítulo 8

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ela são Desejo, Sonho e fantasia, Casamento, Amor, Religião e Dinheiro e riqueza. A leitura do capítulo 6 da Parte I sobre o que a formação do convento lhe deu:

O efeito é uma sensibilidade treinada para reconhecer apenas emoções em forma de clichê, e é a chave de leitura do capítulo e do livro inteiro: Emma não é sensível ao mundo, é sensível ao que o mundo pode lhe dar de sensação.
Parte I, capítulo 6

E as duas leituras do índice da obra que a põem dos dois lados da distinção entre vício e incontinência:

No adultério, Emma está do lado do vício: o mal não se mostra a ela como mal, porque o vocabulário dos romances o vestiu de virtude, e diante do espelho ela o celebra.
Madame Bovary
Na devoção depois de Rodolphe, no capítulo 14 da Parte II, e nos momentos em que reconhece a filha, ela se arrepende e tenta voltar, que é o sinal do incontinente pelo critério de Tomás. As duas fases convivem, e nenhuma explica a outra.
Madame Bovary

Duas vezes o romance põe na cabeça de Emma uma pergunta do mesmo feitio: "Quem a ouviria?", quando ela abandona a música em Tostes, e "Quem a impediria?", no sótão, depois da carta de Rodolphe. Na primeira não há resposta; na segunda a resposta vem de fora, pela voz de Charles chamando por ela.

Relações