O tema na obra
O romance abre com casamentos arranjados por outros. No capítulo 1 da Parte I, a mãe de Charles Bovary escolhe para ele a viúva Dubuc, mais velha e com renda; no capítulo 2 essa mulher o faz jurar sobre o livro de orações que não voltará ao Bertaux, e morre depois que a fortuna se revela falsa. No capítulo 3 o noivado com Emma Bovary se combina entre Charles e o pai Rouault, pelo sinal do postigo, e Emma, que queria casar à meia-noite com tochas, não é entendida. O capítulo 4 é a festa camponesa, e na manhã seguinte é Charles quem parece a virgem da véspera.
Em Tostes, no capítulo 5, o buquê da noiva morta ainda está no quarto, e Emma se pergunta o que seria feito do seu se ela morresse; a felicidade que o casamento devia trazer não vem, e ela conclui que se enganou ao julgar-se apaixonada. No capítulo 7 a conversa de Charles é banal como uma calçada, e ela se pergunta por que se casou; no capítulo 9 o próprio buquê de noiva vai para o fogo. Na Parte II, no capítulo 5, Emma se faz esposa exemplar enquanto a ternura do marido a empurra para o adultério; no 11, depois da operação desastrada de Hippolyte, ela despreza Charles; no 15, diante de Lucie de Lammermoor, lamenta não ter entregado a vida a um coração grande antes do casamento.
Na Parte III o casamento vira cobertura. Emma inventa as aulas de piano no capítulo 4, sustenta-as com um recibo falso no capítulo 5 e faz Charles refazer a procuração que a sogra queimou. No capítulo 6 encontra no adultério a insipidez do casamento. Morta, Charles a manda enterrar, no capítulo 9, de vestido de noiva; no capítulo 11, ainda sem saber de nada, manda felicitações pelo casamento de Léon, depois acha as cartas e o retrato, e morre segurando uma mecha do cabelo dela.
Ninguém no livro se casa por escolha clara: Charles casa duas vezes conduzido, primeiro pela mãe e depois por um desejo que não nomeia, e Emma casa com um vocabulário. Dois buquês e um vestido dão o desenho do tema, o buquê da morta achado no quarto, o de Emma queimado na mudança e o vestido de noiva no caixão: o casamento em que Charles acreditou até o fim existiu só para ele. E o adultério, que devia ser a saída, termina como cópia do que ela fugia.
Onde aparece
- Parte I, capítulo 1: a mãe escolhe para Charles a primeira mulher, pela renda.
- Parte I, capítulo 2: o ciúme de Héloïse, o juramento sobre o livro de orações e a fortuna falsa.
- Parte I, capítulo 3: o noivado se combina entre dois homens, e o casamento sonhado por Emma fica de fora.
- Parte I, capítulo 4: a festa de casamento e a noite de núpcias com os papéis invertidos.
- Parte I, capítulo 5: o buquê da noiva morta e a felicidade conjugal que não vem.
- Parte I, capítulo 7: a conversa de Charles e a pergunta de Emma sobre por que se casou.
- Parte I, capítulo 9: o buquê de noiva de Emma queima na mudança para Yonville.
- Parte II, capítulo 5: a esposa exemplar por fora, adúltera por dentro.
- Parte II, capítulo 11: o fracasso da operação expõe a Emma a mediocridade do marido.
- Parte II, capítulo 15: na ópera, Emma lamenta a conspurcação do casamento.
- Parte III, capítulo 2: o beijo do marido traz a lembrança do outro, e a procuração entra em cena.
- Parte III, capítulo 4: as aulas de piano viram o álibi das idas a Rouen.
- Parte III, capítulo 5: a vida de Emma vira uma coleção de mentiras ao marido.
- Parte III, capítulo 6: o adultério já tem a insipidez do casamento.
- Parte III, capítulo 9: Charles quer Emma enterrada de vestido de noiva.
- Parte III, capítulo 11: Charles manda felicitações pelo casamento de Léon, descobre as cartas e morre com a mecha de cabelo.
Passagens
Antes do casamento, Emma já quer outro casamento.
O noivado se arranja entre os dois homens, e o desejo de Emma já aparece fora da medida do mundo dela.Emma eût, au contraire, désiré se marier à minuit, aux flambeaux; mais le père Rouault ne comprit rien à cette idée, Emma teria preferido, ao contrário, casar-se à meia-noite, à luz de tochas; mas o pai Rouault não entendeu nada dessa ideia.
O casamento é medido contra as palavras dos livros, e perde.
O casamento não entrega o que o amor prometia, e Emma conclui que errou ao julgar-se apaixonada.Avant qu’elle se mariât, elle avait cru avoir de l’amour; mais le bonheur qui aurait dû résulter de cet amour n’étant pas venu, il fallait qu’elle se fût trompée, songeait-elle. Et Emma cherchait à savoir ce que l’on entendait au juste dans la vie par les mots de félicité, de passion et d’ivresse, qui lui avaient paru si beaux dans les livres, antes de casar-se, ela acreditara ter amor; mas, como a felicidade que deveria resultar desse amor não veio, era preciso que se tivesse enganado, pensava. E Emma procurava saber o que se entendia ao certo, na vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que lhe haviam parecido tão belas nos livros.
O buquê de noiva queima sem comentário de Emma.
The little pasteboard berries burst, the wire twisted, the gold lace melted; and the shriveled paper corollas, fluttering like black butterflies at the back of the stove, at last flew up the chimney, as pequenas bagas de papelão estouraram, o arame torceu, a renda dourada derreteu; e as corolas de papel ressecadas, esvoaçando como borboletas negras no fundo do fogão, por fim voaram pela chaminé.
O desprezo pelo marido se volta contra a própria esperança dela.
Emma, na frente dele, fitava-o, não participava da sua humilhação, mas sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse ter algum valor, como se não tivesse já verificado dezenas de vezes a sua mediocridade.
O adultério repete o que devia substituir.
Conhecia-se já demasiado para ter aquelas surpresas da posse que lhe centuplicam o gozo. Emma estava tão enfastiada de Léon como este cansado dela. Emma encontrava agora no adultério toda a insipidez do casamento