Clavis Libri

Personagem

Abade Bournisien

Quem é

O padre de Yonville. Entra no capítulo 1 da Parte II na cozinha da estalagem do Leão de Ouro só para pedir à dona que lhe mande ao presbitério o guarda-chuva que esquecera no convento de Ernemont, recusa a bebida oferecida e sai sem se demorar; assim que ele se vai, Homais o acusa de hipocrisia.

Trajetória

No capítulo 3 da Parte II se indigna no batismo de Berthe Bovary, quando o avô Bovary derrama champanhe na cabeça da criança, quase sai e é aplacado por súplicas. No capítulo 6 da Parte II Emma Bovary vai à igreja procurá-lo e o encontra distraído com as travessuras dos meninos do catecismo. Quando ele se diz "o médico das almas", é ela quem responde:

- Sim…, o senhor alivia todas as misérias.
Parte II, capítulo 6

Emma tenta falar das que têm pão e não têm outra coisa; ele completa a frase com o fogo para o inverno, e é ela quem replica "Que importa isso?", pergunta que ele não entende ("Como? Que importa?") e logo atribui à digestão. Os dois ficam "frente a frente, sem dizer nada", e ele volta ao catecismo alegando "o dever acima de tudo".

No capítulo 14 da Parte II, durante a devoção da convalescença de Emma, não se sente versado no fervor dela e escreve a Boulard, livreiro do bispo, pedindo "qualquer obra de qualidade superior, destinada a uma senhora que estava cheia de graça"; chega um embrulho de livros piedosos feito ao acaso, que ela lê com precipitação e que a irrita.

No capítulo 8 da Parte III dá a Emma a extrema-unção.

primeiro nos olhos, que tanto haviam cobiçado todas as sumptuosidades terrestres, depois nas narinas, ávidas de brisas cálidas e perfumes amorosos, depois na boca, que se abria para a mentira, que gemera de orgulho e gritara de luxúria, depois nas mãos, que se deleitavam com suaves contactos, e, finalmente, nas plantas dos pés, tão rápidos outrora quando corria a saciar os seus desejos e que não voltariam a caminhar.
Parte III, capítulo 8

No velório, no capítulo 9 da Parte III, discute religião com Homais junto do corpo, cada um citando a própria estante: de um lado Voltaire, D'Holbach e a Enciclopédia; do outro as "Cartas de Alguns Judeus Portugueses" e "A Razão do Cristianismo" de Nicolau. Na noite seguinte voltam a discutir, agora o celibato dos padres e a confissão, e acabam adormecendo um diante do outro, sem se mexer mais do que o cadáver ao lado.

A cena é o retrato mais econômico do romance sobre o que Homais e Bournisien têm em comum: nenhum dos dois está falando com o outro, os dois estão citando para vencer.
Parte III, capítulo 9

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Religião e Dever. A nota dos capítulos 1 a 8 da Parte II, na seção "A igreja que não escuta", lê a cena do capítulo 6 da Parte II como o ponto em que o romance fecha a porta da religião institucional como resposta ao vazio de Emma, e o guia da obra a lê como a cena em que o padre devolve Emma às sombras, tratando a angústia dela como fome ou frio.

As duas conversas longas de Bournisien no romance terminam do mesmo modo, sem palavra: com Emma, na igreja, os dois "frente a frente, sem dizer nada"; com Homais, no velório, os dois adormecidos um diante do outro junto do corpo dela.

Relações