Clavis Libri

Tema em O Mestre e Margarida

Sobrenatural

O que excede a natureza dentro da obra: fantasma, magia, bruxaria, monstro, o oculto.

O tema na obra

O romance começa por uma aposta contra o sobrenatural. No capítulo 1, Berlioz explica a Ivan Nikoláievitch Bezdômny que Jesus não existiu, e o estrangeiro que se senta ao lado deles fala das provas de Kant, pergunta quem administra a vida humana se ninguém responde pelo próprio dia seguinte e anuncia a Berlioz que vão cortar a sua cabeça. No capítulo 3 ele afirma ter estado com Pilatos em pessoa, e minutos depois Berlioz escorrega no óleo derramado por Ánnuchka, cai sob o bonde e é decapitado.

Daí em diante Moscou passa o livro explicando o que lhe acontece. Ivan, que conta a verdade, é diagnosticado com esquizofrenia no capítulo 6 e levado pelo doutor Stravinski, no 8, a dizer que é normal. No capítulo 10, Rímski e Variênukha não conseguem encaixar os telegramas de Ialta em explicação nenhuma; no 12, Bengálski chama o espetáculo de magia negra de hipnose em massa. Só no hospício, no capítulo 13, alguém diz a Ivan o nome do que ele viu: o mestre lhe garante que ele se encontrou com Satanás. No baile, no capítulo 23, Woland diz à cabeça de Berlioz que a teoria dele, de que a morte é o fim, também se cumpre, porque a cada um é dado de acordo com a sua crença.

A investigação do capítulo 27 e a do Epílogo fecham o círculo: a versão oficial atribui tudo a uma quadrilha de hipnotizadores, prende homens de sobrenome parecido, e pela cidade se matam gatos pretos. Ivan, agora professor do Instituto de História e Filosofia, aceita a explicação médica, mas toda lua cheia de primavera volta ao banco de Patriarchi Prudý.

O sobrenatural de Bulgákov não pede fé, pede apenas que se pare de negar o que se viu, e é isso que a cidade não consegue fazer. O romance não discute com o ateísmo de Berlioz, deixa que um fato o desminta, e a frase de Woland no baile mostra que nem assim o desmente para ele: Berlioz recebe exatamente a inexistência em que acreditava. O que sobra de Patriarchi Prudý no fim é Ivan, curado de tudo menos da lua cheia, e esse resto é o modo de o livro dizer que a explicação racional ganhou o processo, não a pessoa.

Onde aparece

Passagens

O argumento com que o estrangeiro abala a confiança de Berlioz.

A objeção que Berlioz prepara é a do bom senso, que o ser humano é mortal, e o estrangeiro a desmonta acrescentando um advérbio. É, o ser humano é mortal, mas isso ainda seria só metade da desgraça. O ruim é que às vezes ele é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em geral ele não pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
Primeira Parte, capítulo 1: Nunca falem com estranhos

A declaração de testemunha ocular, que ninguém em Patriarchi leva a sério.

Eu presenciei tudo isso pessoalmente. Estive na varanda com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele conversou com Caifás, estive também no palanque, só que às escondidas, incógnito
Primeira Parte, capítulo 3: A sétima prova

O diagnóstico que transforma o relato em sintoma.

Excitação motora e verbal... interpretações delirantes... um caso complexo, pelo visto... Esquizofrenia, deve-se supor. E, ainda por cima, o alcoolismo...
Primeira Parte, capítulo 6: Esquizofrenia, como foi dito

O nome dito pela primeira vez, dentro do hospício.

Ontem, em Patriarchi Prudý, o senhor se encontrou com Satanás.
Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói

Woland diante da cabeça de Berlioz, no fim do baile.

Isso é fato. E um fato é a coisa mais teimosa do mundo.
Segunda Parte, capítulo 23: O grande baile de satanás