Clavis Libri

Símbolo

A cigarreira verde

O que é

Uma cigarreira debruada de seda verde, com um brasão no centro, que Charles Bovary acha caída na estrada, entre as patas do cavalo, na volta do baile em La Vaubyessard. Emma Bovary a atira para o fundo do armário e a guarda. O livro não diz como ela foi parar na estrada nem de quem era: no capítulo 9 da Parte I a posse é só uma pergunta de Emma, que se pergunta se seria do Visconde e imagina que fosse presente de uma amante dele; no capítulo 12 da Parte II, ao registrar uma segunda caixa de charutos, a narração a chama de "a do visconde". A nota do capítulo 8 da Parte I a chama de primeiro objeto fetiche do romance, o primeiro fragmento físico de uma vida que não é a dela e que ela passa a habitar por procuração, e a do capítulo 9 da Parte I diz que o Visconde dá ao desejo dela um rosto; a nota do capítulo 1 da Parte III a chama de "a cigarreira do Visconde".

Onde aparece

No capítulo 8 da Parte I Charles a acha na estrada. No capítulo 9 da Parte I Emma a abre sozinha, cheira o forro, pergunta-se de quem seria e inventa a história do dono.

A breath of love had passed over the stitches on the canvas; each prick of the needle had fixed there a hope or a memory, and all those interwoven threads of silk were but the continuity of the same silent passion, um sopro de amor passara sobre os pontos da tela; cada picada da agulha ali fixara uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de seda entrelaçados eram apenas a continuidade da mesma paixão silenciosa.
Parte I, capítulo 9

No capítulo 12 da Parte II ela não reaparece, mas serve de molde: entre os presentes que Rodolphe Boulanger recebe de Emma está uma segunda caixa de charutos, que o texto diz ser igual à primeira, registrando que Emma continuava a guardar a que Charles achara. São dois objetos, não um.

uma caixa para charutos igualzinha à do visconde, que Charles em tempos achara na estrada e que Emma conservava consigo
Parte II, capítulo 12

No capítulo 1 da Parte III ela volta como termo de comparação: o efeito da cena no quarto do hotel com Léon é o que o capítulo 9 da Parte I já tinha ensaiado com a cigarreira, o presente que se dissolve em nostalgia fabricada.

o passado, o futuro, as reminiscências e os sonhos, tudo se achava confundido na doçura daquele êxtase
Parte III, capítulo 1

O que significa

A nota dos capítulos 1 a 9 da Parte I tira dela dois sentidos. O primeiro é o mecanismo do objeto que substitui a pessoa ausente: a cigarreira, depois cada amante. O segundo é o argumento contra a leitura de Emma como vítima só da pobreza do mundo: ela constrói uma biografia sentimental completa para o dono de um objeto achado, sem saber quem ele é, e o problema aparece como incapacidade de habitar qualquer mundo real. A mesma nota sugere a frase da paixão silenciosa como legenda sobre desejo por objetos e desejo por pessoas.

Quem acha a cigarreira é Charles, não Emma: o primeiro objeto da vida que Emma passa a habitar por procuração chega às mãos dela pelas do marido.

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