O tema na obra
A tese sobre o poder é dita no capítulo 2 por Yeshua Ha-Notzri, diante de Pôncio Pilatos: todo poder é uma violência contra as pessoas, e chegará um tempo sem poder algum, nem o dos Césares. Foi por dizer isso a Judas de Kerioth, que o recebera em casa e insistira em perguntar sobre o poder do Estado, que ele foi preso. Pilatos o julga um filósofo vadio, sem crime, e chega a formular uma sentença branda, mas a fala contra César está registrada, Caifás escolhe soltar Bar-Raban, e o procurador confirma a morte. Quando o prisioneiro garante que o reino da verdade virá, Pilatos grita que nunca virá.
Em Moscou, o poder é a máquina administrativa e o medo que ela produz. No capítulo 15, o sonho de Nikanor Ivânovitch Bossôi é um teatro onde se arrancam do público, uma a uma, confissões de moeda estrangeira escondida em casa. No capítulo 17, o presidente da comissão de espetáculos é um terno vazio que continua a despachar papéis atrás da mesa.
Em Yerushalaim, o mesmo poder que condenou age às escondidas. No capítulo 16, cada lançada que abrevia a agonia dos crucificados vem com a fórmula de glória ao generoso Hegemon. No capítulo 25, Pilatos pede a Afrânio, chefe da sua guarda secreta, que tome todas as medidas pela segurança de Judas; no 26, Judas é atraído ao jardim de Getsêmani e esfaqueado, o dinheiro da traição é jogado no palácio de Caifás com um bilhete, e Pilatos diz a Mateus Levi, que jurava matar Judas, que foi ele. No capítulo 32, Woland conta que o procurador odeia, mais do que tudo no mundo, a própria imortalidade e a glória sem precedentes.
O livro põe o poder em dois tempos e encontra o mesmo medo nos dois: Pilatos condena porque teme a denúncia a César, e Moscou se governa pela denúncia do vizinho, a ponto de a comitiva de Woland usar contra Nikanor um simples telefonema de denúncia em nome de um vizinho. A resposta de Pilatos no capítulo 2 é desmentida pelo próprio enredo, mas não do modo que Yeshua anuncia: o poder de César não acaba, apenas deixa de importar para o homem que o exerceu, porque o que o prende por dois mil anos é a conversa interrompida com um prisioneiro sem poder nenhum.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio Pilatos: Yeshua diz que todo poder é violência, e Pilatos, que o acha inocente, condena por medo de César.
- Primeira Parte, capítulo 15: O sonho de Nikanor Ivânovitch: o confisco de moeda estrangeira vira espetáculo de confissão pública num sonho.
- Primeira Parte, capítulo 16: A execução: a execução romana termina com a lança dada em nome da generosidade do Hegemon.
- Primeira Parte, capítulo 17: O dia intranquilo: um terno vazio assina papéis, e a repartição não nota a diferença.
- Segunda Parte, capítulo 25: Como o procurador tentou salvar Judas de Kerioth: Pilatos usa a guarda secreta para encomendar, sob o nome de proteção, a morte de Judas.
- Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento: o assassinato de Judas é executado e relatado como falha da guarda, e Pilatos confessa a Levi que foi ele.
Passagens
A frase pela qual Yeshua foi preso.
qualquer poder é uma violência contra as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder [...] O homem passará para o reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de poder algum
A réplica do procurador, que o livro passa o resto do enredo testando.
Ele nunca virá!
O poder de Moscou reduzido à pura função.
Atrás da enorme mesa de escritório, com um tinteiro maciço, estava o terno vazio, que escrevia com a pena seca pelo papel.
A fórmula do carrasco no Gólgota.
Dê glória ao generoso Hegemon!
A confissão de Pilatos a Levi, a justiça feita às escondidas.
Fui eu