O tema na obra
O romance mede a coragem pelo avesso: fala muito mais de covardia do que de heroísmo. No capítulo 2, Yeshua Ha-Notzri diz a Pôncio Pilatos que a dor de cabeça dele é tão forte que ele covardemente pensa na morte, e, depois de chicoteado, observa que dizer a verdade é fácil e agradável. O procurador conclui que o prisioneiro não cometeu crime algum, mas, diante da fala registrada contra César, confirma a sentença.
No capítulo 25, Afrânio repete a Pilatos as últimas palavras do condenado: entre todas as fraquezas humanas, a pior é a covardia. É logo depois de ouvi-las que o procurador pede notícias de Judas de Kerioth e encomenda, sob o nome de proteção, a morte do traidor. No Gólgota, no capítulo 16, Mateus Levi tinha falhado de outro modo: quis romper o cerco com uma faca roubada para poupar Yeshua da agonia, chegou tarde e ficou sentado numa pedra, amaldiçoando o céu.
Em Moscou, a covardia é do O mestre. No capítulo 13 ele conta a Ivan que, atacado pelos artigos, adoeceu de medo, passou a temer o escuro, queimou o romance e recusou a oferta de Margarida de ficar com ele. No capítulo 29, Levi traz o veredito: o mestre não mereceu a luz, mereceu a tranquilidade. No capítulo 32, Woland retoma a frase de Yeshua diante de Pilatos, sentado há quase dois mil anos ao lado do seu cão, e conclui que o cachorro não é culpado.
O heroísmo, neste livro, quase não é de homem. Quem age com ousadia é Margarida, que segue um desconhecido, vira bruxa e preside o baile; os homens que deveriam ter resistido, o procurador, o mestre e o próprio Levi, recuam ou chegam tarde. A frase do capítulo 25 é a régua com que o romance distribui o destino final: Pilatos fica dois mil anos preso à conversa que não teve coragem de sustentar, o mestre recebe o sossego e não a luz, e o cão, que só ficou ao lado do dono, é declarado sem culpa.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo 2: Pôncio Pilatos: Yeshua nomeia a covardia de Pilatos, e Pilatos condena um homem que julga inocente.
- Primeira Parte, capítulo 13: Surge o herói: o mestre conta como o medo o levou a queimar o romance e a afastar Margarida.
- Primeira Parte, capítulo 16: A execução: Levi tenta, tarde demais, poupar Yeshua da cruz e só consegue amaldiçoar o céu.
- Segunda Parte, capítulo 25: Como o procurador tentou salvar Judas de Kerioth: a frase de Yeshua sobre a covardia chega a Pilatos por um relatório de polícia.
- Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento: no sonho de Pilatos, o medo vira o pecado mais terrível, e no pergaminho de Levi ele lê a palavra covardia.
- Segunda Parte, capítulo 29: O destino do mestre e de Margarida é decidido: o recuo do mestre lhe vale a tranquilidade, não a luz.
- Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno: Woland usa a frase de Yeshua para julgar Pilatos e absolver o cão.
Passagens
O diagnóstico que Yeshua faz do juiz, no primeiro interrogatório.
A verdade, antes de tudo, é que a sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente pensa na morte
As últimas palavras do condenado, entregues como informação de rotina.
Disse somente que entre todas as fraquezas humanas a que ele considera pior é a covardia.
A sentença sobre o mestre, que separa a luz do sossego.
Ele não fez por merecer a luz, fez por merecer a tranquilidade
A frase de Yeshua aplicada, dois mil anos depois, a quem ficou ao lado de Pilatos.
Woland retoma a frase de Yeshua Ha-Notzri ao apresentar o prisioneiro dos dois mil anos, e a usa para absolver quem estava ao lado dele.Caso seja verdade que a covardia é o pior defeito, então penso que o cachorro não é culpado.