Aproximar duas coisas diferentes com uma palavra explícita, como "como", "tal qual" ou "parece". Ao contrário da metáfora, a comparação deixa à vista que são duas coisas.
Em Madame Bovary
... cuja feiura muda tem profundezas de expressão, como o rosto de um imbecil
A frase liga a feiura do boné ao "rosto de um imbecil", comparando um objeto a uma expressão humana. O "como" deixa a aproximação à vista e faz o gorro parecer já dizer algo sobre o rapaz que o carrega.
Parte I, capítulo 1, o narrador
a conversa de Charles era banal como uma calçada, e as ideias de todo mundo desfilavam por ela com suas roupas de todo dia
A conversa de Charles é medida por uma imagem comum: era "banal como uma calçada". A comparação explícita faz da fala dele um lugar por onde qualquer um passa sem deixar marca, o que dá a medida do tédio de Emma.
Parte I, capítulo 7, o narrador
sua vida era fria como um sótão cuja clarabóia dá para o norte, e o tédio, aranha silenciosa, tecia sua teia na escuridão de cada canto do seu coração
A vida de Emma é "fria como um sótão" cuja claraboia dá para o norte. A comparação traduz o tédio em temperatura e luz: um lugar frio, com pouca claridade, onde nada acontece e ninguém entra.
Parte I, capítulo 7, o narrador
tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas
O efeito do baile é dito pela comparação com "grandes fendas" que uma tempestade abre "numa única noite nas montanhas". A imagem mostra algo que deixa marca duradoura e nasce de um acontecimento breve, e explica por que uma noite basta para abalar Emma.
Parte I, capítulo 8, o narrador
como marinheiros em perigo [...] ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte
Emma olha a própria solidão "como marinheiros em perigo". A comparação a coloca na posição de quem espera ser salvo e apenas olha ao longe, em vez de agir, o que resume a passividade com que ela aguarda um acontecimento.
Parte I, capítulo 9, o narrador
as pequenas bagas de papelão estouraram, o arame torceu, a renda dourada derreteu; e as corolas de papel ressecadas, esvoaçando como borboletas negras no fundo do fogão, por fim voaram pela chaminé
As corolas de papel ressecado voam pela chaminé "como borboletas negras". A comparação dá leveza e movimento a restos queimados e, pela cor escura, deixa no gesto de Emma um tom de perda, sem que ela diga uma palavra.
Parte I, capítulo 9, o narrador
Pobrezita da mulher! Aposto que anseia pelo amor como uma carpa pela água em cima da mesa da cozinha! Com três palavras de galanteio, tenho a certeza de que até me adorava!
Rodolphe imagina Emma ansiando pelo amor "como uma carpa pela água em cima da mesa da cozinha". A comparação a reduz a um peixe fora d'água, ofegante e fácil de pegar, o que revela o olhar frio de quem a avalia como presa.
Parte II, capítulo 7, Rodolphe
Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo
A mão de Emma, "muito quente e trémula", é comparada a uma "rola cativa". A comparação vê Emma como ave presa e frágil que quer voar, e mostra que Rodolphe sente o desejo dela como algo que ele já tem na mão.
Parte II, capítulo 8, o narrador
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.
O texto compara Emma a "um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho". A comparação mostra as ilusões como bens gastos etapa por etapa, até não restar nada, e faz da vida dela uma viagem de perdas.
Parte II, capítulo 10, o narrador
a palavra humana é como um caldeirão rachado em que se batem melodias para fazer dançar os ursos, quando o que se pretendia era enternecer as estrelas
A palavra humana é comparada a "um caldeirão rachado" em que se batem melodias para "fazer dançar os ursos". A comparação mostra a linguagem como instrumento grosseiro, incapaz de dizer o sentimento, que pretendia "enternecer as estrelas".
Parte II, capítulo 12, o narrador
uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio
A carruagem é vista de fora, "mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio". As duas comparações mostram um espaço de segredo e quase de morte e, ao mesmo tempo, um movimento sem rumo, sem que o narrador diga o que ocorre lá dentro.
Parte III, capítulo 1, o narrador
a sua vida não foi mais que uma colecção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder
Emma envolve o amor "como que em véus, para o esconder". A comparação mostra a mentira como tecido que cobre e disfarça, mas que também deixa adivinhar o que está por baixo, e o gesto de ocultar passa a ser constante.
Parte III, capítulo 5, o narrador
e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
A vida de Emma, exposta aos três homens, é comparada a "um cadáver a que se faz a autópsia". A comparação transforma o inventário dos bens em violação de intimidade, como se cada objeto fosse um órgão examinado por estranhos.