O narrador conta em terceira pessoa, mas com as palavras, o tom e o modo de pensar de um personagem, sem aspas nem "ele pensou": a voz do narrador e a do personagem se misturam.
Em Madame Bovary
ela queria tirar das coisas algum proveito pessoal [...] sendo de temperamento mais sentimental que artístico, em busca de emoções, não de paisagens
O leitor não sabe, no meio da frase, se ouve o veredito do narrador ou o pensamento de Emma: "queria tirar das coisas algum proveito pessoal" é desejo dela dito na voz de quem narra, sem aspas nem aviso de que alguém pensa.
Parte I, capítulo 6, o narrador
Ah!, se, na frescura da sua beleza, antes da conspurcação do casamento e da desilusão do adultério, pudesse ter entregue a sua vida a algum coração grande e sólido, então, com a virtude, a ternura, as volúpias e o dever confundindo-se numa coisa só, nunca teria descido de tão alta felicidade.
O "Ah!" e o lamento pelo "coração grande e sólido" são de Emma, mas chegam na voz do narrador, sem aspas nem "ela pensou": o leitor ouve o devaneio dela por dentro da narração e mede a distância entre o sonho e o que ela viveu.