Dizer uma coisa por meio de outra, sem palavra de comparação: em vez de dizer que algo é como outra coisa, diz-se que é. A imagem transfere para o assunto as qualidades da coisa com que foi identificado.
Em Madame Bovary
sua vida era fria como um sótão cuja clarabóia dá para o norte, e o tédio, aranha silenciosa, tecia sua teia na escuridão de cada canto do seu coração
O tédio vira "aranha silenciosa" que tece "sua teia" em cada canto do coração. A imagem, sem palavra de comparação, mostra um sentimento que cresce devagar e sem barulho, ocupando tudo até prender Emma por dentro.
Parte I, capítulo 7, o narrador
como marinheiros em perigo [...] ela lançava olhos desesperados sobre a solidão de sua vida, buscando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte
A "vela branca nas brumas do horizonte" representa a salvação que Emma espera sem saber de onde virá. A imagem não é explicada: o barco longínquo e sem rosto serve de símbolo para qualquer homem ou fato que a tire da solidão.
Parte I, capítulo 9, o narrador
o amor, segundo acreditava, devia surgir de repente, com grande tumulto e fulgurações [...] tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro.
Emma imagina o amor como "tempestade dos céus" que cai sobre a vida e "arranca as vontades como folhas". A imagem faz do amor uma força externa e violenta, que não se escolhe, e por isso um afeto tranquilo não lhe parece amor.
Parte II, capítulo 4, o narrador
Que abundância de ilusões! Agora já não lhe restava nenhuma! Gastara-as todas com as aventuras da sua alma, em todas as condições sucessivas, na virgindade, no casamento e no amor, perdendo-as assim continuamente ao longo da vida, como um viajante que deixa parte da sua riqueza em cada estalagem do caminho.
As ilusões são tratadas como dinheiro: Emma "gastara-as todas" e agora "não lhe restava nenhuma". Ao falar da alma como uma bolsa que se esvazia, o narrador dá peso concreto à perda e faz o balanço soar como uma conta fechada.
Parte II, capítulo 10, o narrador
porque um pedido pecuniário é a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor.
O narrador chama o pedido de dinheiro de "tempestade" que desaba sobre o amor, e a diz "fria e devastadora". A imagem faz da cobrança uma força de clima que destrói o sentimento, e o adjetivo "fria" sugere o fim do calor entre os dois.