O leitor ou o público sabe algo que o personagem ignora, e por isso as palavras e os atos do personagem ganham um sentido que ele mesmo não percebe.
Em Madame Bovary
Não acreditava que as coisas se pudessem apresentar da mesma maneira em lugares diferentes, e, uma vez que a parte já vivida havia sido má, certamente haveria de ser melhor a que lhe restava para viver.
Emma conclui que a parte que resta de sua vida "certamente haveria de ser melhor". O leitor, que viu o convento, Tostes e o baile não resolverem nada, percebe a ilusão de quem acha que mudar de lugar muda o que a faz sofrer.
Parte II, capítulo 2, o narrador
Anda lá, conta-nos qualquer coisa…, Adolphe…, Dodolphe… creio eu.
O barqueiro repete "Dodolphe" sem saber de quem fala, mas o leitor ouve o eco de Rodolphe. As palavras inocentes ganham outro sentido para quem conhece o passado de Emma, e ela estremece enquanto Léon nada entende.
Parte III, capítulo 3, o barqueiro, repetindo o que os folgazões diziam ao homem alto
as lições [...] só aproveitam se forem seguidas
Quando Emma diz que as lições "só aproveitam se forem seguidas", Charles ouve um argumento sobre piano. O leitor sabe que é o álibi para as idas semanais a Rouen, e a frase passa a valer também para o próprio adultério.
Foi culpa da fatalidade!
Charles perdoa Rodolphe dizendo que "foi culpa da fatalidade", palavra que o próprio Rodolphe escolhera na carta de ruptura por achá-la eficaz. O leitor conhece esse cálculo; Charles repete a fórmula com sinceridade, sem perceber que empresta ao perdão a mesma frase do sedutor.